SAINDO PELO LADRÃO

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

Enquanto os espigões da orla santista multiplicam a demanda das
classes abastadas, a pressão cai onde mora o trabalhador.

Em 1952, a família de Lula chegou de Pernambuco a Vicente de Carvalho, distrito do Guarujá encravado na margem esquerda do Porto de Santos. Setenta e quatro anos depois, o distrito ainda não sabe se haverá água na torneira amanhã. Quase metade dos 287 mil habitantes do município vive ali, e a intermitência do abastecimento já tem idade para se aposentar: em 1993, a Câmara Municipal cobrava providências da Sabesp. Agora a empresa, que o governo Tarcísio de Freitas privatizou em 2024, encontrou a solução. Vai buscar a água do vizinho.

O urbanista José Marques Carriço, do Observatório das Metrópoles, desmontou a lógica da obra em coluna que o Brasil de Fato publicou em 23 de outubro. A Sabesp instala sob o estuário uma segunda adutora subaquática, orçada em R$ 134,7 milhões, para retirar até 500 litros por segundo de água tratada do sistema que abastece a Ilha de São Vicente. A primeira, em operação desde 2005, já drena outros 500. Somadas, as duas podem extrair mais que os cerca de 930 litros por segundo que as estações de Cubatão destinam à ilha. Os 642 mil moradores de Santos e São Vicente ficam com a sobra e com reservatórios que seguram dezenove horas e meia de consumo.

Havia outro caminho, no papel desde 2011. O Plano Diretor de Abastecimento de Água da Baixada Santista previa converter uma cava de pedreira, na área continental de Santos, em reservatório para 3 bilhões de litros de água bruta. A Sabesp concluiu a estação de tratamento Jurubatuba em 2012, mas só em 2021 iniciou a desapropriação da pedreira. Sem acordo com os proprietários, o caso foi à Justiça e estancou em 2023, já sob Tarcísio. Por quase o mesmo preço da adutora, a empresa teria uma reserva própria para o Guarujá. Preferiu sangrar o vizinho.

Há ainda uma coincidência incômoda. Em 2024, a Cetesb licenciou a URE Valoriza Santos, incinerador de até 2.000 toneladas diárias de resíduos, junto ao aterro sanitário e muito perto da pedreira. Vizinho do forno, o reservatório correria risco de contaminação e encareceria o tratamento, e Carriço vê aí uma explicação plausível para o recuo. Governo estadual e prefeituras silenciam.

A falta, como de costume, escolhe endereço. Os sistemas são interligados, mas a torneira seca primeiro na Zona Noroeste de Santos e, em São Vicente, no Parque São Vicente, na Esplanada dos Barreiros e na Náutica. Enquanto os espigões da orla santista multiplicam a demanda das classes abastadas, a pressão cai onde mora o trabalhador, e o pesquisador suspeita de seletividade social na operação da rede. Em setembro, a natureza desfez a triagem. Segundo a Sabesp, as chuvasdanificaram a captação em Cubatão, e bairros nobres de Santos também passaram mais de uma semana sem água.

A adutora, contudo, avança sem contestação. Nem a reunião da Assembleia Legislativa em São Vicente, em janeiro, questionou a obra. Santos mantém um Conselho Municipal de Saneamento Básico sem atas registradas desde abril de 2025, e São Vicente nem conselho tem. Carriço não encontrou procedimento do Ministério Público paulista sobre o caso. As prefeituras, poderes concedentes do serviço, assistem à propaganda da Sabesp na mídia local como quem assiste à previsão do tempo.

O episódio expõe a natureza do negócio. Uma concessionária privada presta contas a acionistas, e acionistas preferem a obra rápida, que rende propaganda e aproveita água já tratada, àquela que exige anos de desapropriação e licenciamento. Caberia ao poder público impor a lógica do serviço sobre a do balanço. Ele abdicou. Num litoral cada vez mais exposto a chuvas torrenciais e estiagens longas, descobrir um santo para cobrir o outro deixa os dois ao relento. E quem paga a conta ainda não recebeu a fatura.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.


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