Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O recado que a SAFiel não quis ouvir
Em agosto, o presidente Osmar Stabile fez ao grupo da SAFiel um pedido simples: trazer o dinheiro, pagar a Neo Química Arena e só então apresentar o contrato para assinatura. “Dizer que tem dinheiro é fácil. Demonstre”, resumiu. A resposta chegou em 15 de setembro, em novo comunicado. Os articuladores do projeto recusam a condição e alegam que “nenhuma solução responsável pode exigir que uma das partes assuma primeiro um risco bilionário”.
A frase soa prudente. Esconde, porém, o essencial.
A SAFiel ainda não demonstrou capacidade de pagar sequer a dívida principal do estádio, estimada em cerca de R$ 642 milhões junto à Caixa Econômica Federal. Esse valor corresponde a pouco mais de 20% do endividamento total do clube, que o balanço do primeiro semestre situa na casa de R$ 2,8 bilhões. Se o grupo hesita diante de um quinto da conta, como honraria o restante?
Promessas vazias diante da fatura
Desde junho, o grupo acena com uma captação de R$ 2,5 bilhões, que poderia alcançar R$ 3 bilhões, com cotas a partir de R$ 250 para torcedores. Nenhum extrato, nenhuma carta de banco, nenhum investidor identificado acompanhou o anúncio. Quem pretende sanear um passivo bilionário e recua diante da primeira fatura concreta desafia a inteligência da Fiel.
O cronograma da proposta revela a lógica da operação. O texto prevê até 360 dias após o aceite, com 180 dias de auditoria prévia, registro na CVM e assembleia, antes da integralização do capital. Nesse intervalo, a nova sociedade assumiria o futebol e, com ele, toda a receita que o time produz: bilheteria, televisão, patrocínios e premiações.
Primeiro a renda, depois a conta
A sequência pretendida inverte a ordem natural de qualquer negócio sério. O grupo quer controlar a arrecadação antes de desembolsar um centavo. Depois iria à Caixa regatear um desconto generoso para quitar a Arena. E o desfecho mais provável nem passa pelo pagamento: os novos gestores levariam a disputa aos tribunais, e o Corinthians ficaria com o estádio em litígio e a renda comprometida.
Enquanto isso, o relógio corre contra o clube. No primeiro semestre de 2026, o déficit chegou a R$ 246 milhões, 78% acima do previsto no orçamento. O resultado financeiro negativo, de R$ 155,8 milhões, expõe o peso dos juros sobre a operação.
O tempo que a SAFiel desperdiça
Cada semana gasta com comunicados e reuniões estéreis rouba da diretoria a energia que deveria ir para duas frentes urgentes. A primeira é o alongamento das dívidas, em condições que aliviem o caixa. A segunda, o aumento do faturamento.
As promessas vazias da SAFiel, sem nenhum depósito que as sustente, corroem a associação por dentro e alimentam uma expectativa que nada entrega. É preciso desmascarar essa gente logo, antes que o prejuízo se torne irreversível.
Existe saída com dinheiro na mesa
O Corinthians dispõe de caminhos próprios para se reorganizar, com renegociação técnica dos débitos e gestão rigorosa das receitas. Se ainda assim o clube optar por uma SAF, deve procurar um investidor de verdade, com recursos comprovados para quitar todo o passivo antes de assumir o futebol.
Stabile acertou ao exigir prova. Cabe agora ao Conselho Deliberativo e à torcida afastar quem oferece papel no lugar de dinheiro.
Este artigo se apoia em comunicados públicos da SAFiel, em declarações do presidente Osmar Stabile que a imprensa esportiva reproduziu e nos demonstrativos financeiros do Corinthians referentes ao primeiro semestre de 2026, que veículos especializados divulgaram.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.