Refutação dos dois documentos até aqui
JOSÉ MANOEL FERREIRA GONÇALVES
Engenheiro, advogado e jornalista
Tenho os dois documentos do Projeto SAFIEL na mesa. Vou lê-los na ordem em que nasceram. Primeiro o Book SAFIEL 2.0, de 4 de maio. Depois a Segunda Proposta Não Vinculante, de 2 de junho, quase um mês mais nova. Digo o que cada um propõe. Depois digo o que são.
I. O que li em cada documento
O Book SAFIEL 2.0 (4 de maio de 2026)
Começo por ele. É o mais antigo, e nele está a substância do projeto. É um memorial técnico e conceitual, um adendo ao “Projeto SAFIEL Original” que consolida a modelagem e a leva à versão 2.0. O texto já se acautela na primeira página. Avisa que não é prospecto de investimento, e que nenhuma cifra sua vale como compromisso ou garantia. Diz-se, também, “construção coletiva”, nascida de sugestões de sócios e torcedores.
A tese é separar o futebol do clube associativo. O futebol viraria uma Sociedade Anônima, capitalizada em larga escala e com gestão profissional, sem cair na mão de um dono único, de um grupo ou de um investidor de fora. Cinco vetores sustentam o discurso. São eles o reequilíbrio financeiro, a modernização, a popularização, a redemocratização e a proteção do clube social. A captação vem detalhada. Fala em R$ 2,5 a 3 bilhões, dez milhões de ações ordinárias a R$ 250, todas reservadas ao torcedor, repartidas em três faixas de compra. A faixa Popular vai de 1 a 10 ações, a de Varejo de 11 a 15 mil, e a de Ancoragem até 200 mil, ou 2% do capital por CPF. A governança se elege por “Distritos Econômicos”, de DT1 a DT5, com conselhos, comitês e um Comitê de Valorização do Torcedor. Os primeiros gestores entram por um rito conduzido pelos “idealizadores” ao lado da associação. Os dividendos ficam retidos. Reinveste-se todo o lucro até o quinto ano, e ao menos 75% depois. Há uma cláusula de reversibilidade. E há três anexos. O primeiro traz projeções para a associação, com base em 2025, quando o clube social teve déficit de R$ 95,1 milhões e o grupo fechou com patrimônio líquido negativo de R$ 774 milhões, e conta com aporte inicial de R$ 50 milhões e royalty de R$ 60 milhões ao ano. O segundo é um estudo de viabilidade, que conta 10,4 milhões de corinthianos “economicamente ativos”, supõe adesão de 5% e projeta R$ 3,18 bilhões de potencial. O terceiro é a lista das “doze barreiras” contra a captura por grupos.
A Segunda Proposta Não Vinculante (2 de junho de 2026)
Passo à Proposta. É a carta de intenções não vinculante, a segunda da série, que renova uma correspondência de outubro de 2025. Por ela, a Invasão Fiel S.A., uma sociedade anônima de capital fechado, se dirige à diretoria do Corinthians, com cópia aos presidentes do Conselho Deliberativo e do de Orientação. Quer estruturar a SAF do clube, pela Lei 14.193/21, sob o nome SAFIEL.
Abre com uma longa fila de “considerandos”, que fazem o diagnóstico. A dívida passa de R$ 2,8 bilhões, e só de juros comeria cerca de 40% da receita recorrente, uns R$ 1,2 milhão por dia. A folha engole metade da receita. A dívida com a Caixa está amarrada à Arena. Há o transfer ban da FIFA, as alíquotas crescentes do RCE, a desvantagem tributária do modelo associativo diante do regime das SAFs, o patrimônio líquido negativo acima de R$ 774 milhões, os pedidos de intervenção judicial, o inquérito civil em curso. E há o dever fiduciário que, diz a carta, obrigaria os dirigentes a pelo menos examinar a proposta.
Depois vem o que se propõe de fato. O Corinthians transferiria à SAFIEL o “Perímetro do Futebol”, ou seja, tudo o que o futebol tem, de ativo e de passivo. Direitos federativos e econômicos, contratos, marcas, instalações. A meta é captar R$ 2,5 bilhões, com teto de R$ 3 bilhões, “a serem integralizados pela Invasão Fiel”. Em troca, o clube ficaria com uma participação minoritária, ajustada pelo endividamento líquido que uma auditoria Big Four apurar, mais royalties de cerca de R$ 600 milhões em dez anos, um fee de 2% sobre a captação e uma golden share. As ações com voto iriam só a torcedores. As sem voto iriam a institucionais, e apenas se preciso. E o controle da SAFIEL ficaria com a Invasão Fiel S.A. O negócio depende de condições suspensivas. Due diligence, reservas firmes na casa dos R$ 2,5 bilhões, aval da CVM, roadshow, assembleia. Vinculante, na carta, é só a Cláusula 9. Nela, a promessa de “melhores esforços” para adiantar recursos durante a diligência, com devolução se o negócio não vingar. Assinam Carlos Outor Teixeira, Eduardo Perez Salusse e Maurício Chamati.
II. O que penso, e o que falta ser explicado
Agora falo eu.
Começo pelo que sustenta ou derruba todo o resto. Os dois documentos chamam a Invasão Fiel S.A. de “o Investidor”, e eu não encontro, em linha nenhuma, onde ela investe. O investidor, aqui, sou eu. É a torcida. Os R$ 2,5 bilhões não saem do caixa da Invasão Fiel, saem do bolso de 250 mil corinthianos que comprariam ações. Ela não põe capital. Organiza a entrada do dinheiro dos outros, cobra 2% por isso, uns R$ 50 milhões se a meta sair, e no fim fica com o controle da SAF. Trocaram o rótulo no meio do caminho, e é isso que me incomoda. O rótulo esconde a pergunta que de fato importa. Quem põe o dinheiro, quem corre o risco, quem manda. A carta desvia dela, mas a resposta está ali. O dinheiro e o risco são meus. O mando e o fee são de uma sociedade de capital fechado cujos donos eu não conheço.
E é aqui que faço a primeira cobrança. A Invasão Fiel S.A. se apresenta por um escritório de advocacia, que é para onde apontam o contato e o endereço. Tem três diretores e nenhum sócio com nome. Não sei quem a controla hoje, antes de eu entrar. Não sei quanto do próprio bolso ela arrisca, se é que arrisca algum. E não sei que fatia os “idealizadores” reservaram para si na holding, nem que contratos de assessoria, de recrutamento, de estruturação, pagam quem desenhou o negócio. Um projeto que se vende como “sociedade do povo” começa por uma opacidade que povo nenhum devia aceitar. A de não saber quem são os donos.
Depois vem o problema do compromisso. Pedem que o Corinthians passe à SAF o Perímetro do Futebol inteiro, as marcas, os direitos, o próprio nome esportivo do clube, por R$ 2,5 bilhões que os documentos, com todas as letras, não garantem. A única parte que obriga é a dos “melhores esforços”. O Book avisa que nenhuma informação financeira ali é compromisso ou garantia, e que aquilo não é um prospecto. Ou seja, o documento jurídico não se prende ao dinheiro, e o documento econômico não se prende a nada. Entre os dois, ninguém me prometeu, de um jeito que eu possa cobrar, os bilhões que dão sentido a tudo. O que sai daqui é concreto, o futebol. O que entra é só uma expectativa.
Aí olho a conta que sustenta a expectativa, e a conta desmente a narrativa popular. Dos R$ 2,5 bilhões, só R$ 250 milhões, um décimo, viriam do segmento de fato popular, o de 1 a 10 ações. O grosso, R$ 1,75 bilhão, sairia do “Varejo”, a um ticket médio de R$ 15,2 mil por CPF. Outros R$ 500 milhões viriam da “Ancoragem”, a R$ 3,75 milhões por cabeça, nas mãos de pouco mais de cem pessoas. Quer dizer, nove décimos do capital não dependem do torcedor de arquibancada. Dependem de dezenas de milhares de pessoas capazes de imobilizar quinze mil reais, e de uma centena capaz de imobilizar milhões, em ações sem liquidez de um clube com patrimônio negativo. Chamar isso de “sociedade do povo” é pura publicidade. E supor que 5% aceitem um investimento de risco, não uma camisa, não o sócio-torcedor, mas ação sem dividendo por cinco anos e sem porta de saída, é chamar de “conservadora” uma aposta que a história das captações populares não sustenta. Trocam, de propósito, o consumo emocional pela decisão de investir. E é a segunda que precisaria acontecer 250 mil vezes.
Suponhamos que eu resolva entrar mesmo assim. O que levo para casa? Ação sem dividendo nos primeiros cinco anos, e com 25% no máximo depois. Sem liquidez de verdade, porque a compra e a venda passariam por um “balcão interno” da tesouraria da própria SAF, que teria a preferência de compra e faria as regras. E sem nenhuma garantia de valorização, coisa que os próprios documentos tratam de desmentir. A tal “plataforma de liquidez futura regulada” é, no melhor dos casos, um mercado cativo, tocado por quem manda. Vendem-me um papel sem liquidez, sem renda, de retorno incerto, emitido por uma sociedade que já nasce com o passivo do futebol nas costas. No fundo, o retorno que me oferecem é o amor ao clube vestido de dinheiro. Podem me pedir que ame o Corinthians. Não podem me pedir que confunda amor com prospecto.
Há ainda o poder, e é onde a engenharia se mostra mais astuta, logo contra quem devia proteger. As “doze barreiras contra a captura de grupos” me são vendidas como escudo do torcedor. Olho de perto e vejo o que elas protegem de verdade, a arquitetura dos fundadores. O Conselho de Administração, que é o que de fato manda, terá cinco “independentes” e nenhum representante da associação. O Comitê de Valorização do Torcedor terá cinco indicados pela Invasão Fiel e nenhum da associação. O próprio quadro do Book põe a associação em minoria em toda parte. A “independência” do conselho é independência até do Corinthians. A formação inicial dele é semeada pelos “idealizadores”, que escolhem as firmas de recrutamento e votam nos primeiros gestores. E o quórum de dois terços, que o documento admite ser “virtualmente impossível” de juntar, deixa tudo isso quase imutável.
O limite de 2% por CPF e a proibição de voto em bloco, que me vendem como vacina contra a oligarquia, fazem com que acionista nenhum, torcedor nenhum, reúna força para peitar a gestão. É o de sempre. Espalha-se a propriedade, concentra-se o controle. Eu teria voto de enfeite e influência nenhuma. O comando ficaria com “independentes” postos ali por um processo que os fundadores controlam na largada e petrificam no estatuto. Barreira contra captura de grupos, sim. Inclusive contra a “captura” pela própria torcida que pagou a conta.
Assimetria é a palavra. Eu ponho os R$ 2,5 bilhões e carrego todo o risco. A Invasão Fiel entra com um capital que não mostra, tira 2% e fica com o controle. O clube dá o futebol inteiro por uma fatia menor. E, para me apressar, a carta fabrica urgência, aquele “R$ 1,2 milhão por dia de inação”, e ainda insinua que, só de recusar a análise da proposta, os dirigentes responderiam no próprio bolso por quebra de dever fiduciário. Isso é pressão, não é direito. O dever fiduciário manda agir no interesse do clube, e agir no interesse do clube inclui recusar um bom diagnóstico embrulhado numa solução opaca. Porque o diagnóstico é bom. O Corinthians está mal, de verdade. E é justamente por a crise ser real que eu não posso deixar passar a fragilidade da cura. Usam a urgência verdadeira como alavanca para me arrancar uma decisão que, errada, não tem volta.
Por isso, é preciso exigir resposta, por escrito, antes de qualquer assinatura:
1. Quem são, hoje, os donos e os beneficiários finais da Invasão Fiel S.A.? Que capital próprio, de fato em risco, ela põe, se é que põe algum?
2. Que fatia, que fees e que direitos os “idealizadores” guardaram para si na holding e na SAF? Que contratos com partes relacionadas, de assessoria jurídica, recrutamento, estruturação, distribuição, pagam os autores do projeto, e por quanto?
3. Existe ou não um investidor-âncora, um fundo, um grupo por trás dos R$ 500 milhões da “Ancoragem” e do R$ 1,75 bilhão do “Varejo”? Se existe, quem é? Porque aí o “modelo popular” tem dono, e o dono tem de dar a cara. Se não existe, qual é, com honestidade, a chance de a captação fracassar?
4. Que garantia firme, e não “melhores esforços”, assegura os R$ 2,5 bilhões? E, se ela faltar, o que acontece com o Perímetro do Futebol que eu já terei entregue?
5. E se a resposta for que investidor real não existe, que tudo se apoia na adesão de centenas de milhares de torcedores, que prova, e não que esperança, me dão de que o corinthiano vai comprar ação ilíquida, sem dividendo e sem saída, de um time fragilizado?
Enquanto não responderem isso, o que temos diante de nós não é uma “sociedade do povo”. É um veículo de controle e de honorários, de donos que não aparecem, que se propõe a administrar o bem mais valioso do clube com o dinheiro e o risco do torcedor, sob uma governança feita para que ele nunca possa mexer nela. Pode ser que exista atrás disso um projeto sério e um capital de verdade. Se existe, que apareça e que se comprometa. Se não existe, a proposta se resume à sua única certeza que de fato obriga. Alguém quer o comando do futebol do Corinthians sem dizer com que dinheiro, na aposta de que a nossa paixão vai fazer as vezes da garantia que nenhum investidor sério dispensaria. Comigo, não faz.
JOSÉ MANOEL FERREIRA GONÇALVES
Engenheiro, advogado e jornalista