Ponto no nariz não tem disfarce. Fica bem no meio da cara, o lugar menos discreto do corpo humano. Eu carregava um desde a pequena cirurgia que fiz há poucos dias, e hoje era dia de tirá-lo, na Beneficência Portuguesa.
Antes de sair, olhei a camisa e achei que ela merecia companhia. Colei nela o adesivo da campanha de Lula, bem à vista, para ninguém alegar depois que não viu. Fui assim, de L estampado, com muita honra.
Confesso que esperava alguma coisa. Um olhar torto, um resmungo, quem sabe um desaforo. Campanha é campanha, e o país anda com os nervos expostos.
Entrei no metrô. No vagão, a fauna de sempre, cada qual preso ao celular ou à própria pressa. Foi ali que vieram os primeiros cumprimentos. Um rapaz de uniforme de obra ergueu o polegar por cima do ombro de alguém e voltou ao fone de ouvido como se nada fosse. Duas estações adiante, uma mulher de crachá no pescoço leu o adesivo, depois me leu, e sorriu de canto.
No hospital, a mesma coisa. Na sala de espera, onde cada um costuma olhar apenas para o próprio problema, um senhor distinto e grisalho baixou o jornal e arregalou uns olhos muito azuis. Depois sorriu, devagar, como quem encontra um aliado onde não esperava. Segui pelo corredor. Uma adolescente, dessas de primeiro voto, quis disfarçar a alegria e não conseguiu. A timidez segurou a voz, o rosto entregou o resto.
A enfermeira que me tirou o ponto terminou o serviço, apontou o adesivo com o queixo e piscou. O nariz remendado, esse, não comoveu ninguém.
Fiz as contas na volta. Nenhuma cara feia. Nenhuma. Só cumprimentos, do metrô ao hospital, em todo lugar por onde passei.
Tirei daí uma conclusão que não me parece apressada. Os bolsonaristas andam envergonhados. Encolheram. Quem vota em Bolsonaro não vai ganhar nada com isso, e talvez por isso ninguém tenha erguido a voz contra um sujeito de ponto no nariz e L na camisa.
Pois faço o convite a você que me lê. Faça o L. É Lula na cabeça. Vamos acabar de vez com essa ideia de que um Bolsonaro, seja qual for o prenome, resolve alguma coisa. Não resolve. É um atraso terrível para o nosso país.
Do nariz, tirei o ponto. Da camisa, ninguém me fez tirar nada.