Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Flávio Bolsonaro levou ao debate da Band, no domingo (18), a palavra “corrupto” escrita na palma da mão. Exibiu-a às câmeras como aluno que mostra a cola. Chamou Lula para perto, ouviu um não acompanhado da palavra miliciano e devolveu com a piada da noite: estava sem carteira, portanto não seria roubado.
A carteira que tira o sono de quem trabalha é outra, a de trabalho. Contra ela, o candidato do PL milita desde maio.
Assinou a PEC que paga o empregado por hora, criticou por meses o fim da escala 6×1, votou a favor dele na undécima hora e, segundo a imprensa, acenou aos empresários com uma revisão. No palco, recusou o desafio de abrir as contas da família.
O salário em fatias
Em 28 de maio, o senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição e coordenador da pré-campanha de Flávio, protocolou a PEC 12/2026. Flávio figura entre os 40 senadores que assinaram o texto. Cerca de 3 mil entidades patronais, capitaneadas pela Fiesp e pela CNI, lançaram um manifesto em defesa da proposta.
A PEC cria, ao lado da CLT, um regime de pagamento por hora trabalhada. Férias, 13º e FGTS passam a valer na proporção das horas cumpridas. O acordo individual entre patrão e empregado prevalece sobre a convenção coletiva. Marinho justificou a ideia com o argumento de sempre: é assim nos Estados Unidos.
Os defensores garantem que a hora nunca valerá menos que a fração correspondente do salário mínimo ou do piso. Pode ser. O piso da hora não paga a hora que ninguém compra.
Desde maio, o senador vende a proposta como alternativa ao fim da 6×1. Em 6 de outubro, já no segundo turno, chamou de oportunista a discussão sobre a escala e recorreu ao exemplo da mãe que poderia trabalhar quatro horas por dia, de manhã ou à tarde. A mãe existe. Quem escolhe as quatro horas, porém, é a empresa.
José Dari Krein e Marilane Teixeira, professores da Unicamp e pesquisadores do Cesit, chamaram a PEC de “cavalo de Troia da precarização”. Na leitura dos dois, a flexibilidade prometida pertence ao empregador, que fixa escala, horário e o número de horas que comprará na semana. Ao trabalhador sobra a disponibilidade permanente.
Os pesquisadores relatam o caso de um trabalhador que recebe R$ 30 por hora, apenas pelas horas em que é convocado. No fim do ano, a firma parou durante o Natal e o Ano-Novo. Em dezembro, ele levou para casa cerca de metade da média mensal. A conta o empurra para um segundo emprego, depois para um terceiro. Trabalha-se menos em cada contrato para trabalhar mais na vida.
O modelo converte o empregado em estoque. Ele fica na prateleira, sem custo, até alguém precisar dele. Quem tem aluguel para pagar no dia 10 não negocia de igual para igual com o patrão. Assina. A convenção coletiva existe para corrigir esse desequilíbrio, e a PEC a submete ao contrato individual.
A aposentadoria entra na conta
O estrago não termina no fim do mês. Krein e Teixeira lembram que, desde a reforma da Previdência de 2019, a contribuição calculada sobre valor inferior ao salário mínimo deixa de contar automaticamente como mês válido. Para não perder o mês, o segurado completa a diferença do próprio bolso. Logo quem recebeu menos.
Flávio votou a favor daquela reforma. Em 22 de outubro de 2019, no segundo turno, figurou entre os 60 senadores que a aprovaram. Sete anos depois, assinou a PEC que fabrica em série o trabalhador de mês incompleto.
O sim no painel e o recado no bastidor
Em 14 de outubro, o Senado aprovou o fim da escala 6×1 por 75 votos a 1, nos dois turnos. Flávio votou sim, a distância, de uma agenda de campanha no Rio Grande do Sul. O voto merece registro.
A cronologia também. Depois do primeiro turno, o candidato evitou dizer como votaria, e o PL tentou empurrar a votação para depois da eleição, sem sucesso. Na véspera, Flávio anunciou o apoio para atender, nas palavras dele, à maioria da população. No mesmo anúncio, defendeu que o governo compense eventuais prejuízos das empresas.
Na mesma semana, CNN Brasil, Folha de S.Paulo e SBT News relataram que o senador acenou a empresários com a revisão do fim da 6×1 caso seja eleito. Segundo a CNN, aliados falam em “correções” no ano que vem, apoiadas na maioria conquistada no Congresso. O SBT foi além e relatou promessa de rever ou até derrubar a medida.
Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, afirmou que o partido continuará a trabalhar pela PEC das horas. Pelo relato dos próprios aliados, o sim de Flávio vale até a apuração.
As contas em sigilo
No debate, Lula propôs um teste simples. Os dois abririam os sigilos bancário e telefônico das próprias famílias e entregariam os dados aos presidentes do STF e do TSE.
Flávio afirmou não ter nada a esconder, disse que declara os bens à Receita e devolveu a acusação. Não aceitou o desafio. Subiu ao palco com “corrupto” na mão e recuou diante do primeiro teste. Na várzea, isso tem nome: arregou.
Perguntas não faltam.
Em 2005, o então deputado estadual condecorou Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes, maior honraria da Alerj. Adriano, oficial da PM, estava preso preventivamente, acusado de matar um guardador de carros. O próprio Flávio diz que só o visitou na cadeia para entregar a medalha.
Anos depois, o Ministério Público do Rio apontaria Adriano como chefe da milícia de Rio das Pedras e do Escritório do Crime. A mãe e a ex-mulher dele trabalharam no gabinete de Flávio até novembro de 2018, contratadas por intermédio de Fabrício Queiroz.
O senador afirma que acreditava na inocência do policial e nega qualquer relação com ele. No debate de domingo, prometeu tratar milícias como organizações terroristas.
No caso das rachadinhas, o Ministério Público denunciou Flávio por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em maio de 2022, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia, a pedido do próprio MP, depois que STJ e STF anularam as provas. A decisão permite reabrir a investigação. Condenação não houve, e o registro precisa dizê-lo.
O caso Master pesa mais. Em mensagens e áudios analisados pela Polícia Federal, Flávio cobra de Daniel Vorcaro, ex-dono do banco e preso desde março, os pagamentos de Dark Horse, a cinebiografia do pai. Num áudio de setembro de 2025, confessa ficar sem graça de tanto cobrar.
Pelas contas da PF, o pedido somou R$ 131 milhões, dos quais Vorcaro teria pago R$ 60 milhões, enviados a um fundo no Texas administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro. Na sexta-feira (16), a corporação pediu ao ministro André Mendonça, do STF, mais 90 dias de investigação. No pedido, afirma que a atuação atribuída a Flávio pode caracterizar, em tese, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
Flávio e Eduardo negam irregularidades. O senador sustenta que todo o dinheiro foi para o filme. A investigação segue aberta, e falta ainda a explicação que caberia num mero extrato.
Em setembro, o ICL Notícias mostrou que a Bravo Grafeno, empresa de capacetes de moto da qual Flávio é sócio, está registrada na mesma sala de Águas Claras, no Distrito Federal, que ao menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, funcionam. A contabilidade da Bravo fica a cargo da Voga, de Alexandre Caetano dos Reis, ex-sócio de Antunes numa offshore e hoje preso. A mesma Voga atende o escritório de advocacia do senador. Um advogado da Voga afirma que a sala pertencia a outra firma e funcionava como espaço compartilhado. Endereço e contador em comum não provam participação em fraude, e Flávio nega envolvimento. Mas…
Resta Willer Tomaz, advogado alvo da Operação Sem Desconto. No iCloud dele, a PF encontrou um e-mail de maio de 2025 que pede ao banco a desvinculação de uma conta identificada como “Flávio Bolsonaro” do usuário administrador ligado a Tomaz. O pedido saiu cerca de um mês depois da primeira fase da operação.
Tomaz é um dos donos do avião em que Flávio viajou em janeiro de 2025, aeronave administrada por empresa ligada a Vorcaro. A PF abriu inquérito sobre a relação. Os dois negam a conta conjunta, e Tomaz fala apenas em amizade.
A eleição se decide no domingo (25). Antes, na sexta-feira (23), os candidatos voltam a se enfrentar na Globo. O desafio dos sigilos continua de pé.
O trabalhador pago por hora não tem sigilo. Cada minuto dele cai na planilha do patrão, e o que falta no fim do mês ele mesmo cobre. A esse trabalhador, Flávio pede o voto e a confiança. O próprio extrato ele guarda onde deixou a carteira na noite do debate, longe das câmeras.
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José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
Declaração de fontes: Conteúdo elaborado com base em registros legislativos, decisões judiciais, análises acadêmicas e reportagens, incluindo Senado Federal, Alerj, Agência Brasil, Unicamp, UOL, CNN Brasil, Congresso em Foco e ICL Notícias, com dados conferidos até 19 de outubro de 2026.

