José Manoel Ferreira Gonçalves
Corinthiano, engenheiro, jornalista e advogado
Há uma velha máxima, anterior aos manuais de economia e mais sólida do que muitos deles: não existe almoço grátis. Alguém sempre paga a conta. E, quando se trata de uma operação bilionária, concebida por empresários, investidores, advogados, especialistas em mercado financeiro, comunicação e governança corporativa, convém acrescentar outra evidência elementar: Papai Noel não existe.
Isso não é cinismo. É o exercício adulto da razão.
A SAFiel se apresenta ao corinthiano como uma espécie de reconciliação entre a racionalidade empresarial e a mística popular do Corinthians. Seu discurso é engenhoso — e, em muitos aspectos, sedutor. O projeto mobiliza algumas das palavras mais poderosas da história corinthiana: povo, democracia, trabalhadores, torcida, paixão, pertencimento. A carta dos idealizadores chega a afirmar que não foi criado “um projeto para poucos”, mas um plano oferecido à comunidade alvinegra, declarando que os idealizadores o “doamos com imensa alegria” à torcida.
A afirmação torna-se ainda mais categórica quando o próprio documento formula aquilo que denomina “Princípio do Trabalho Sincero”: o trabalho seria feito “por amor”, sem “interesse político ou financeiro por parte do grupo idealizador”.
É precisamente aqui que começa o problema.
Não porque seja impossível que corinthianos trabalhem por amor ao Corinthians. Milhões fazem isso todos os dias, nas arquibancadas, nas torcidas, nos coletivos, nos departamentos amadores, nas iniciativas culturais e sociais. O problema é de outra ordem: a escala, a sofisticação e a natureza econômica da operação apresentada são incompatíveis com a ideia de que a questão dos incentivos financeiros possa ser despachada com uma profissão de fé.
A SAFiel não é uma quermesse de bairro. O próprio documento projeta uma captação de bilhões de reais, cria companhias, fundos de investimento, classes diferentes de ações, mecanismos de governança, mercado de negociação, bookbuilding, road show, oferta perante a CVM, conselhos especializados e uma arquitetura societária suficientemente sofisticada para exigir advogados, financistas, administradores e especialistas em mercado de capitais.
A Invasão Fiel S/A ocupa posição central nessa estrutura. Não é uma entidade decorativa. O documento estabelece que ela representará milhares de torcedores e investidores, receberá os recursos captados e fará um “aporte de capital vultuoso” na SAFiel. Mais adiante, atribui à Invasão Fiel responsabilidades concretas na constituição e registro dos fundos de investimento, registro das ofertas, realização do road show, distribuição dos investimentos, período de reservas e bookbuilding. É igualmente ela a responsável pela chamada de capital e integralização dos recursos.
Estamos, portanto, diante de um agente econômico central de uma operação cujo objetivo máximo de captação chega a bilhões.
E eis a pergunta que qualquer corinthiano tem o direito — e, na verdade, o dever — de formular: Como a Invasão Fiel será remunerada?
Curiosamente, para várias outras partes da operação, o documento é capaz de falar sobre dinheiro com impressionante precisão. O clube associativo, por exemplo, terá direito a uma taxa de sucesso de 2% sobre o montante líquido da captação, além de royalties anuais e outros benefícios patrimoniais.
Aqui há uma estranheza adicional que merece ser examinada com cuidado. Fee, nesse contexto, é precisamente uma taxa de sucesso: uma remuneração associada à realização bem-sucedida de uma operação. E o próprio texto explica que esses 2% seriam pagos como remuneração pela “originação e mobilização institucional pelo projeto”. Ora, quem aparece no documento como operador central da estruturação, da captação e da execução financeira? A Invasão Fiel S/A. É ela que representa investidores, organiza a arquitetura financeira, participa da constituição dos fundos, conduz etapas do registro da oferta, road show, distribuição, reservas, bookbuilding, chamada de capital e integralização dos recursos.
É por isso que a terminologia escolhida soa, no mínimo, enviesada. Se a intenção política e econômica é repassar ao clube associativo 2% do valor líquido arrecadado, ótimo: diga-se claramente que se trata de uma transferência, de uma participação na captação, de um prêmio ao clube ou de qualquer outra rubrica juridicamente adequada. Mas chamá-la de taxa de sucesso, justificando-a por “originação e mobilização institucional”, produz uma ambiguidade difícil de ignorar, porque essas são precisamente atividades que, pela descrição do próprio projeto, parecem estar concentradas na Invasão Fiel.
Não é preciso ser especialista em mercado de capitais para perceber a dissonância. Em operações desse tipo, uma success fee costuma ser associada a quem estrutura, origina, distribui ou viabiliza economicamente a transação. Isso não significa que o clube não possa receber 2%; evidentemente pode, se assim estiver pactuado. O problema é outro: por que chamar de fee aquilo que, pela própria narrativa operacional do projeto, parece não remunerar quem executa a operação? A escolha vocabular pode soar como uma espécie de pegadinha semântica, sobretudo porque o documento permanece silencioso justamente sobre qual será a remuneração da Invasão Fiel.
E é nesse ponto que a suspeita deixa de ser mero mau humor e passa a ser uma questão legítima de governança. De um lado, há um operador central, altamente ativo e profissionalizado, cuja remuneração não é explicitada. De outro, aparece uma “taxa de sucesso” destinada ao clube associativo, embora a descrição das tarefas de originação e mobilização recaia, em larga medida, sobre a Invasão Fiel. Isso não autoriza afirmar, sem prova, que exista fraude ou engodo. Mas autoriza dizer que a apresentação produz a aparência de um engodo: mostra com nitidez quem receberá certos benefícios, mas deixa na penumbra o interesse econômico daquele que está no centro da operação.
Quando chegamos à Invasão Fiel, porém, desaparece essa precisão. E justamente por isso a questão do fee se torna ainda mais sensível: se a Invasão Fiel não receberá a taxa de sucesso, então qual será a sua remuneração real? Se receberá por outra via, qual? Se não receberá nada, quem financia toda a estrutura já mobilizada e por quê? O que não parece aceitável é que uma operação que reivindica transparência máxima trate como detalhe secundário exatamente o mecanismo de remuneração de seu principal operador privado. Sabemos o que ela fará. Sabemos que será acionista direta da SAFiel. Sabemos que sua participação societária será calculada em função do capital que aportar relativamente ao patrimônio atribuído ao Parque São Jorge. Sabemos que coordenará etapas complexas e caras da operação financeira.
O que não sabemos é exatamente aquilo que, numa operação dessa dimensão, é uma das perguntas mais elementares: qual é a estrutura econômica da própria Invasão Fiel?
Haverá taxa de estruturação?
Haverá taxa de administração?
Haverá remuneração pela distribuição da oferta?
Haverá success fee?
Haverá reembolso das despesas já realizadas?
Quem está financiando essas despesas?
Existem investidores iniciais?
Esses investidores terão alguma vantagem econômica futura?
Há ações, opções, direitos especiais ou alguma forma de remuneração atribuída aos fundadores, estruturadores ou financiadores da operação?
Quanto custará manter a Invasão Fiel S/A funcionando?
Quem pagará essa estrutura?
Nenhuma dessas perguntas constitui uma acusação. Ao contrário: são perguntas absolutamente normais em qualquer operação séria de mercado de capitais.
Aliás, o próprio projeto reivindica para si os padrões mais elevados de governança, compliance e transparência. Por isso mesmo, não deveria considerar impertinente que a torcida queira conhecer não apenas os benefícios destinados ao Corinthians e aos futuros investidores, mas também os interesses econômicos daqueles que conceberam e estruturam o negócio.
Há ainda uma circunstância que torna essa ausência mais incômoda.
O material apresentado não tem aparência artesanal. É uma peça de comunicação profissional altamente elaborada. O próprio documento relaciona entre sua equipe de trabalho a Equipe Floema, a Equipe Estúdio.Pub e um conjunto expressivo de profissionais. Entre os quatro idealizadores apresentados, há inclusive profissional com mais de duas décadas de experiência em comunicação, planejamento estratégico, campanhas integradas e branding, fundador de empresa especializada em gestão de narrativa e estratégia de dados.
Isso não demonstra, por si só, quanto dinheiro foi gasto. Seria intelectualmente desonesto inventar uma cifra. Mas demonstra algo que os olhos também constatam: não estamos diante de uma comunicação improvisada por quatro torcedores numa mesa de bar.
Há identidade visual, redação publicitária, construção narrativa, seleção vocabular, arquitetura argumentativa, produção gráfica e um domínio evidente das técnicas contemporâneas de persuasão. Some-se a isso a presença intensa da campanha nas redes sociaise a sucessão de cartas e peças cuidadosamente construídas e torna-se razoável concluir que existe, no mínimo, um investimento considerável de trabalho profissional, estrutura e recursos.
E novamente surge a pergunta mais simples do mundo:
quem está pagando?
Pode parecer prosaico diante das belas palavras sobre amor, povo e democracia corinthiana. Mas as perguntas prosaicas são justamente as mais importantes quando bilhões de reais entram em cena. Na Roma antiga, uma fórmula atravessou os séculos porque conserva uma extraordinária capacidade de dissipar névoas retóricas: cui bono? — a quem beneficia?
Não se trata de afirmar que alguém esteja se apropriando indevidamente de coisa alguma. Trata-se de exigir que uma operação que solicita a confiança e o dinheiro da torcida exponha integralmente sua estrutura de interesses.
Há uma diferença enorme entre não haver interesse econômico e não revelar qual é o interesse econômico.
A primeira hipótese seria extraordinária. Empresários experientes, investidores, advogados, especialistas em mercado de capitais e profissionais de comunicação estariam dedicando tempo, dinheiro, reputação, estrutura empresarial e conhecimento técnico a uma operação bilionária sem nenhuma perspectiva econômica além da satisfação afetiva de ajudar o Corinthians.
É possível?
Abstratamente, sim.
É provável?
Essa é outra conversa.
E quanto mais profissional, dispendiosa e prolongada se mostra a operação, maior se torna o ônus de explicar de onde vêm os recursos e quais serão as contrapartidas econômicas.
O corinthiano pode ser pobre. Pode ser trabalhador. Pode ter pouco conhecimento de mercado financeiro. Pode jamais ter ouvido falar em bookbuilding, lock-up, private equity ou governança corporativa. Mas o corinthiano não é lesado.
Muito menos tolo.
Ele sabe, pela experiência concreta da vida, que dinheiro não nasce em árvore; que advogado cobra, agência cobra, consultoria cobra, plataforma custa, campanha custa, tecnologia custa, viagem custa, estudo custa, estrutura societária custa e gente altamente especializada geralmente não trabalha indefinidamente de graça.
É justamente o torcedor mais simples que conhece melhor que qualquer financista a realidade do almoço que alguém precisa pagar.
Por isso, talvez a próxima carta da SAFiel devesse gastar menos espaço dizendo ao corinthiano que o projeto nasceu do amor e dedicar algumas páginas a uma questão infinitamente mais objetiva:
quanto ganhará a Invasão Fiel e quem, em última instância, ganhará com ela?
Quem são seus acionistas e beneficiários finais?
Quanto já foi investido na estruturação e divulgação do projeto?
Quem colocou esse dinheiro?
Esse investimento será recuperado?
De que maneira?
Quais taxas poderão ser cobradas no futuro?
Quais contratos serão celebrados entre Invasão Fiel, SAFiel, fundos, administradores, distribuidores, consultores e empresas ligadas aos idealizadores?
Não há nada de ofensivo nessas perguntas. Ofensivo seria imaginar que 35 milhões de corinthianos devam entregar confiança primeiro e receber explicações depois.
Transparência não é colocar cento e tantas páginas num PDF. Transparência é revelar aquilo que realmente interessa quando os interesses podem conflitar.
O documento explica longamente como o dinheiro entrará.
Explica o que o Corinthians receberá.
Explica o que o investidor poderá ganhar.
Explica a governança, os conselhos, os votos, as ações e os mecanismos de controle.
Mas permanece extraordinariamente discreto justamente sobre a economia da entidade situada no coração da operação: a Invasão Fiel.
Talvez exista uma explicação perfeitamente legítima. Talvez toda a estrutura tenha sido financiada pelos próprios idealizadores a fundo perdido. Talvez a Invasão Fiel cobre apenas seus custos. Talvez haja uma remuneração futura perfeitamente razoável e compatível com o mercado.
Ótimo.
Então que seja dito.
Com números.
Com contratos.
Com nomes.
Com percentuais.
Com beneficiários identificados.
Porque, quando alguém pretende administrar profissionalmente uma instituição do tamanho do Corinthians, amor é uma bela credencial moral — mas não substitui prestação de contas. E porque o corinthiano, que já viu demasiadas vezes interesses privados se esconderem atrás do escudo do clube, tem todo o direito de desconfiar quando lhe apresentam um empreendimento empresarial bilionário dizendo que, no fundo, tudo está sendo feito apenas por amor.
O Corinthians nasceu do povo.
Justamente por isso, o povo merece saber quem paga o almoço — e quem espera receber a conta no fim.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.