INFIEL: PAGAMENTOS SEM CONTROLE

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves | Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

Infiel no fluxo do dinheiro

O Corinthians desembolsou R$ 6,9 milhões por um programa de sorteios que deixou até de receber divulgação oficial quase dois anos antes da interrupção dos pagamentos. A constatação expõe um problema maior do que o destino de algumas “rabiscadinhas”. Revela uma cadeia de decisões financeiras sem fiscalização proporcional ao dinheiro envolvido.

O Fiel da Sorte surgiu em junho de 2023 com a promessa de distribuir prêmios e experiências aos integrantes do Fiel Torcedor. Cada associado ganhou o direito a 12 bilhetes digitais por mês. A campanha apareceu nas redes sociais do clube e em ações na Neo Química Arena, mas desapareceu dos canais oficiais menos de um anos depois, em abril de 2024.

Já os repasses, porém, continuaram até abril de 2026. A primeira parcela conhecida foi de R$ 124.488,75. A última chegou a R$ 343.522,50. Ao todo, o clube pagou 34 prestações à Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing para Empresas.

O mecanismo que inflou a despesa

O contrato previa o pagamento mensal de R$ 3,75 por cada torcedor que aderisse ao programa de sócios após o início da parceria, em abril de 2023. O valor independia da categoria escolhida. Quanto mais associados entravam, maior ficava a parcela devida à empresa.

Esse formato exigia acompanhamento rigoroso. O clube precisava conferir a quantidade de beneficiários, os serviços prestados, as campanhas autorizadas, os prêmios adquiridos e a entrega aos contemplados. A apuração mostrou que esse controle não funcionou de forma satisfatória.

A OneFan, responsável pelo sistema do Fiel Torcedor, informava a quantidade de associados adimplentes usada no cálculo das mensalidades. Segundo a reportagem, porém, a empresa não controlava se os prêmios haviam sido efetivamente entregues. Essa informação permanecia com a própria Incentiva.

Outro dado amplia a dúvida. A última autorização federal localizada para sorteios ligados ao clube venceu em setembro de 2024. O Ministério da Fazenda exige autorização prévia para promoções comerciais e prevê prestação de contas no sistema oficial. Um relatório obtido pela imprensa, contudo, apontou a existência de bilhetes digitais até dezembro de 2025.

A conta Infiel atravessa gestões

O contrato passou pelas presidências de Duilio Monteiro Alves, a passagem meteórica de Augusto Melo e agora Osmar Stabile. Essa continuidade impede que o caso seja reduzido à responsabilidade política de apenas um grupo. A assinatura ocorreu na gestão Duilio, os pagamentos avançaram durante o mandato de Augusto e prosseguiram sob a administração Stabile.

Duilio afirmou que o acordo buscava aumentar receitas com novos planos e incluía conteúdos digitais, experiências e mecanismos de interação. Augusto declarou de forma veemente que desconhecia o contrato. A atual diretoria informou que os pagamentos realizados desde junho de 2025 respeitaram os trâmites legais e contábeis do clube.

As explicações não resolvem a questão central. Cumprir um procedimento interno de pagamento não prova que o serviço foi entregue. Também não substitui a conferência periódica de metas, autorizações, relatórios, contemplados e comprovantes.

A Incentiva sustenta que manteve a campanha operacional até maio de 2026 e afirma não ter recebido comunicação formal da rescisão. Seu advogado atribuiu ao Corinthians a demora na assinatura dos documentos necessários para novas autorizações. O clube, por sua vez, alega descumprimento contratual, cobra indenização de R$ 3 milhões e avalia pedir uma perícia judicial.

A conta que a torcida cobra

Os dados disponíveis levantam sérias dúvidas, mas não provam, por si, desvio de dinheiro ou fraude. Demonstram, como mínimo, sinais objetivos de gestão deficiente. Houve crescimento das parcelas, interrupção prolongada da divulgação, ausência de autorização federal posterior a setembro de 2024 e falta de controle independente sobre a entrega dos prêmios.

O perfil da fornecedora também justifica escrutínio. A Incentiva foi aberta em 2021, possui capital social de R$ 50 mil e passou por sucessivas mudanças societárias. Seu proprietário atual assumiu a empresa em setembro de 2024. O cadastro empresarial aponta como atividade principal a prestação de serviços combinados de escritório e apoio administrativo.

Em um clube que encerrou 2025 com déficit de R$ 143,4 milhões e dívida bruta de R$ 2,7 bilhões, nenhum pagamento recorrente deveria sobreviver sem comprovação contínua, tanto mais quando outros pagamentos líquidos e certos deixaram de ser feitos. A investigação precisa reconstruir cada parcela, identificar quem autorizou os repasses e confrontar notas fiscais com entregas verificáveis.

Mais do que buscar um ressarcimento, o Corinthians deve explicar como três administrações permitiram que o dinheiro continuasse saindo enquanto as evidências públicas do programa desapareciam. É necessário ainda uma devassa para saber se esse é um caso isolado ou se trata-se de um procedimento comum. A resposta interessa ao Conselho Deliberativo, aos órgãos fiscalizadores e, sobretudo, ao torcedor que financiou a conta.

Declaração de fontes: Conteúdo elaborado com base em reportagem jornalística, normas federais, registros
cadastrais e demonstrações financeiras, incluindo Ministério da Fazenda e Corinthians, com dados conferidos até 3 de agosto de 2026.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.


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