Por José Manoel Ferreira Gonçalves | Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel
Uma história que merece respeito
Meu apreço pela Gaviões da Fiel não nasceu de uma concordância automática com todas as suas posições. Nasceu do reconhecimento de uma história singular. Poucas torcidas compreenderam tão cedo que apoiar um clube também significa fiscalizar seus dirigentes, defender sua identidade e impedir que interesses particulares se sobreponham ao patrimônio coletivo.
Desde sua fundação, em 1969, a Gaviões ocupou um lugar que ultrapassa a arquibancada. Tornou-se manifestação cultural, força de mobilização popular e voz política em momentos decisivos. Participou das lutas democráticas, enfrentou estruturas autoritárias dentro e fora do Corinthians e preservou a convicção de que o clube pertence à sua gente.
Esse compromisso reapareceu de maneira eloquente em 2022, quando integrantes da torcida ajudaram a desobstruir estradas tomadas por grupos que contestavam o resultado das eleições e defendiam uma ruptura institucional. Naquele episódio, a Gaviões não protegeu apenas o direito de circulação. Protegeu a ordem democrática.
É por respeitar essa trajetória que escrevo. Não desejo repreender os membros da torcida, muito menos questionar seu amor pelo Corinthians. Pretendo apenas dividir uma preocupação que nasceu da leitura cuidadosa dos documentos da Safiel.
Pensar sem tutelas
O pensamento independente não exige que rejeitemos toda novidade. Exige algo mais difícil: que não aceitemos uma proposta apenas porque ela conversa com nossos desejos mais legítimos.
O Corinthians precisa de transformação. Sua crise financeira é profunda, sua administração perdeu credibilidade e a repetição de erros já não permite soluções superficiais. A promessa de profissionalização, participação popular e recuperação econômica desperta esperança porque responde a problemas reais.
Entretanto, uma boa intenção não assegura um bom resultado. Entre a finalidade anunciada e as consequências concretas existe uma estrutura jurídica, financeira e administrativa que precisa ser examinada a miúdo.
Estudar uma proposta com rigor não significa procurar defeitos para destruí-la. Significa identificar riscos antes que eles se tornem irreversíveis. Também significa aceitar que pessoas honestas, movidas pelo desejo de salvar o clube, podem apoiar um caminho cujos efeitos talvez contradigam suas próprias aspirações.
Há uma antiga prudência, quase esquecida em tempos de urgência, segundo a qual decisões graves devem ser julgadas menos pela beleza das promessas e mais pela distribuição dos riscos, do poder e das responsabilidades.
Gaviões exige transparência de todos
A cobrança feita pela Gaviões ao presidente Osmar Stabile merece apoio. Assuntos capazes de alterar a natureza do Corinthians não podem circular em reuniões reservadas, conversas incompletas ou versões contraditórias.
A transparência, porém, precisa alcançar todos os participantes. Deve ser exigida da presidência, dos conselhos, dos intermediários e também dos proponentes da Safiel.
A análise dos documentos disponíveis mostra que o projeto pretende captar entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões. Esse montante não aparece como capital próprio já comprometido pela Invasão Fiel S.A. A maior parcela dependeria da adesão futura de torcedores e investidores, dentro de uma operação sujeita a condições, autorizações e respostas do mercado.
Esse ponto muda a natureza da discussão. Não estamos diante de alguém que chega com os recursos integralmente disponíveis para investir no Corinthians. Estamos diante de uma estrutura que pretende organizar uma captação usando, em larga medida, o dinheiro e a confiança dos próprios corinthianos.
Isso não torna o projeto ilegítimo. Torna-o mais dependente de explicações.
Os membros da Gaviões podem estar recebendo informações verdadeiras, mas incompletas. O viés nem sempre nasce de uma falsidade. Muitas vezes surge da escolha dos fatos que serão realçados e daqueles que permanecerão em segundo plano.
Mostra-se a força da torcida, mas se fala pouco sobre a dificuldade de transformar paixão em investimento financeiro. Enfatiza-se a gestão profissional, mas não se esclarece suficientemente quem escolherá os primeiros administradores. Promete-se participação popular, mas ainda falta demonstrar onde estará o poder efetivo de decisão.
Quando a esperança precisa de garantias
O projeto depende de uma captação de enorme dimensão. Seus autores confiam que centenas de milhares de pessoas estarão dispostas a adquirir ações ligadas ao clube. Contudo, comprar uma camisa, pagar ingresso ou contribuir com uma campanha são decisões muito diferentes de investir em um ativo sem liquidez imediata, sem garantia de valorização e sem distribuição de dividendos nos primeiros anos.
Uma parte relevante dos recursos também dependeria de pessoas capazes de realizar aportes elevados. Assim, embora a narrativa seja popular, a viabilidade financeira não repousa apenas sobre o torcedor comum. Ela exige investidores de maior capacidade econômica, cuja existência e cujo grau de compromisso ainda precisam ser demonstrados.
Talvez esses investidores existam. Talvez haja reservas firmes, estudos consistentes e interessados preparados para sustentar a operação. Se houver, os proponentes devem apresentá-los nos limites permitidos pela lei e assumir compromissos verificáveis.
Se não houver, é necessário reconhecer que o êxito da proposta depende de uma combinação favorável de adesão popular, confiança institucional, aprovação regulatória e condições de mercado.
Em linguagem direta, depende de boa sorte.
A boa sorte acompanha muitos empreendimentos vitoriosos. Nenhum plano sério, contudo, deve tratá-la como garantia. O Corinthians não pode transferir seu futebol, suas marcas, seus contratos e parte substancial de sua autonomia sem conhecer antecipadamente as consequências de uma captação parcial ou fracassada.
Também precisa saber quem são os beneficiários finais da Invasão Fiel S.A., quanto de capital próprio colocam em risco, quais remunerações receberão, que participação conservarão e como serão escolhidos os gestores da nova estrutura.
Não há ofensa nessas perguntas. Há responsabilidade.
Gaviões exige transparência para proteger o clube
A grandeza da Gaviões sempre apareceu com mais nitidez quando ela se recusou a obedecer sem compreender. Foi assim na oposição a dirigentes, na defesa da democracia e na afirmação de que o Corinthians não pertence a pequenos grupos.
Agora, essa mesma tradição recomenda cautela.
A torcida não precisa romper o diálogo com os idealizadores da Safiel. Precisa aprofundá-lo. Precisa ouvir seus argumentos, reconhecer seus méritos e, ao mesmo tempo, exigir respostas documentadas. Deve cobrar cenários realistas para o sucesso, para a captação parcial e para o fracasso.
Também seria prudente submeter o projeto a especialistas independentes, escolhidos pelo clube e pelos seus órgãos de fiscalização, não apenas pelos autores da proposta. Juristas, economistas, profissionais do mercado de capitais e estudiosos de governança podem avaliar o que a paixão, por sua própria natureza, tem dificuldade de enxergar.
Peço aos membros da Gaviões que recebam esta reflexão no espírito em que foi escrita. Não parto da presunção de que sei mais do que eles, nem afirmo possuir respostas definitivas. Apenas encontrei, nos documentos, perguntas que considero graves demais para serem adiadas.
Talvez a Safiel seja aperfeiçoável. Talvez suas fragilidades possam ser corrigidas por garantias adicionais, mudanças de governança e compromissos firmes de capital. Talvez o projeto ainda venha a demonstrar que oferece ao Corinthians uma saída segura.
Mas essa demonstração precisa anteceder o apoio, não sucedê-lo.
A Gaviões já desobstruiu caminhos físicos e políticos. Pode agora ajudar a desobstruir o caminho da informação, retirando do debate a névoa da pressa, da propaganda e das certezas prematuras.
O amor pelo Corinthians não recomenda silêncio. Recomenda vigilância. E a melhor prova de confiança em uma proposta é permitir que ela enfrente, sem atalhos, todas as perguntas difíceis.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 20 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
Declaração de fontes: Conteúdo elaborado com base em documentos da Safiel, manifestação pública da Gaviões da Fiel, registros históricos, pesquisas acadêmicas e cobertura jornalística, com dados conferidos até 23 de julho de 2026.