*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel
A justiça do clube em xeque
O Conselho Deliberativo do Corinthians aprovou na noite de segunda-feira, 1º de junho, a expulsão de Augusto Melo do quadro associativo. Foram 147 votos favoráveis e apenas cinco contrários. A decisão transformou o ex-presidente no terceiro mandatário removido do clube em menos de quinze dias, após a expulsão de Andrés Sanchez e a renúncia de Duílio Monteiro Alves. A sanção carrega, porém, uma diferença fundamental que nenhum dos conselheiros presentes pareceu notar.
Augusto Melo não foi condenado por desvio de recursos, uso de cartão corporativo ou enriquecimento ilícito. A acusação que justificou sua exclusão foi a suposta invasão das instalações do Parque São Jorge em 31 de maio de 2025, quando ele já estava afastado do cargo por decisão de impeachment aprovada em assembleia de 9 de agosto do ano anterior.
Um erro histórico sem precedentes
A versão da invasão desmonta-se com facilidade diante dos fatos verificáveis. Autoridades policiais que estiveram no local naquela tarde negaram categoricamente que tenha ocorrido arrombamento ou entrada violenta. Testemunhas presentes confirmaram que o grupo foi convidado a adentrar o prédio. A própria doutora Maria Ângela de Campos, então presidente do Conselho Deliberativo, estava no local e também será submetida a julgamento na próxima semana. Ela se autoproclamara no cargo com base em uma decisão do Conselho de Ética de 9 de abril, que afastara Romeu Tuma Júnior da presidência do órgão. O ofício que apresentou acabou considerado inválido por falta de trâmites formais, mas a conduta nunca envolveu agressão ou coação física contra pessoa alguma. O advogado de Augusto Melo, Ricardo Jorge, sustenta que o regulamento usado pela Comissão de Ética sequer foi criado estatutariamente, o que lhe tira toda a legitimidade para recomendar punições.
A justiça que se dobra à política
A comparação com o caso de Andrés Sanchez evidencia a distância entre as duas situações. Andrés foi punido por despesas pessoais no valor de R$ 480.169,60 no cartão corporativo do clube, quantias devidamente documentadas e incontestáveis. Já Augusto Melo, por sua vez, atuou sob orientação jurídica no episódio de maio de 2025. Sua conduta foi amparada por pareceres técnicos e, posteriormente, demonstrou-se correta em sua essência, uma vez que não há questionamentos sobre sua honestidade patrimonial. Ainda assim, a votação contra ele foi mais expressiva do que aquela aplicada a Andrés. Isso indica de forma clara que o que prevalece no Corinthians não é o rigor estatutário, mas sim o oportunismo político entre grupos rivais. O clube atravessa um período de forte turbulência administrativa desde a revelação do caso Vai de Bet, em maio de 2024. Nesse contexto conturbado, Augusto Melo passou a responder por acusação de associação criminosa e lavagem de dinheiro, imputações que sua defesa considera fabricadas. No entanto, a expulsão do quadro associativo não se baseia nesses processos judiciais em andamento, mas sim em um ato administrativo cuja natureza técnica teria sido distorcida para atender a interesses de facções.
O que resta ao clube
A tendência de judicialização do caso é evidente e inevitável. A defesa já ingressou com ação na Vara Cível do Foro Regional do Tatuapé pedindo a anulação do ato administrativo. A liminar solicitada não foi apreciada a tempo da votação, mas o mérito da ação ainda será examinado pelo Poder Judiciário. Se a Justiça comum reconhecer as nulidades processuais apontadas por Ricardo Jorge, a expulsão pode ser revertida nos meses seguintes. O Corinthians, entretanto, já amarga o preço dessas decisões apressadas. Três ex-presidentes afastados em duas semanas não fortalecem uma instituição centenária, empobrecem-na. O clube precisa de estabilidade administrativa, não de caças às bruxas movidas por revanchismo. E a torcida, que gritou palavras de ordem contra Augusto na porta do Parque São Jorge, talvez um dia perceba que aplaudiu um erro histórico sem fundamento real.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
Fontes: As informações deste artigo foram levantadas a partir de reportagens do Estadão, UOL, GloboEsporte e TMC, além de documentos processuais citados pela defesa de Augusto Melo.