No Dia dos Professores, uma reflexão sobre a valorização da educação, a responsabilidade do Estado e a necessidade de formar gerações capazes de construir um Brasil mais justo, desenvolvido e comprometido com o meio ambiente.
Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Há uma contradição que o Brasil precisa enfrentar com seriedade. Todos os anos, no dia 15 de outubro, multiplicam-se as homenagens aos professores. Reconhecemos sua importância, agradecemos sua dedicação e repetimos que a educação é o caminho para o futuro. No entanto, quando observamos as condições em que muitos desses profissionais trabalham, percebemos a distância que ainda existe entre o discurso e a realidade.
A valorização do professor não pode se limitar a uma data comemorativa. Ela precisa estar presente nas decisões políticas, nos investimentos públicos, nas condições de trabalho e no respeito àqueles que assumem diariamente a responsabilidade de ensinar.
A educação pública é um direito social e uma responsabilidade do Estado. Defendê-la significa compreender que o acesso ao conhecimento não pode depender da condição econômica de uma família ou do lugar onde uma criança nasceu.
Um país profundamente desigual como o nosso precisa de uma escola pública forte, de universidades acessíveis, de pesquisa científica e de oportunidades reais de formação profissional.
Não podemos aceitar que a educação continue sendo tratada como despesa a ser reduzida sempre que surgem dificuldades orçamentárias. Investir em professores, escolas, universidades e instituições de pesquisa é investir na capacidade do Brasil de decidir seu próprio futuro.
A educação e o desenvolvimento nacional
Quando discutimos o desenvolvimento brasileiro, frequentemente concentramos nossa atenção nas grandes obras, nos investimentos industriais e na modernização da infraestrutura. Tudo isso é necessário. Mas nenhuma dessas iniciativas se sustenta sem profissionais qualificados.
O engenheiro que projeta uma ferrovia, o técnico que acompanha sua construção, o pesquisador que desenvolve novas tecnologias e o profissional que trabalha na proteção ambiental passaram, em algum momento, pelas mãos de um professor.
É por isso que considero impossível separar a valorização da educação de um projeto consistente de desenvolvimento nacional.
Na FerroFrente, a Frente pela Volta das Ferrovias, defendemos a recuperação e a ampliação do transporte ferroviário brasileiro. O país precisa voltar a investir em uma infraestrutura capaz de integrar regiões, melhorar a logística, ampliar as possibilidades de transporte e reduzir a dependência excessiva das rodovias.
Entretanto, recuperar ferrovias também exige recuperar conhecimentos, fortalecer a formação técnica e investir na preparação de profissionais para um setor que precisa voltar a ocupar um lugar estratégico no Brasil.
Precisamos formar novas gerações de engenheiros, técnicos ferroviários, pesquisadores e trabalhadores especializados. Isso exige instituições de ensino fortalecidas e professores valorizados.
Não haverá reconstrução ferroviária consistente sem investimento em educação e qualificação profissional.
Educação, consciência ambiental e responsabilidade social
A mesma relação existe quando tratamos da preservação ambiental.
Na Água Viva, Associação da Sociedade Civil do Guarujá e da Baixada Santista, defendemos os interesses da sociedade e a proteção do meio ambiente. Essa atuação parte da compreensão de que o desenvolvimento precisa respeitar a vida, os recursos naturais e as necessidades das comunidades.
A Baixada Santista reúne importantes atividades econômicas, áreas urbanas, ambientes costeiros e ecossistemas que exigem atenção permanente. Conciliar desenvolvimento, qualidade de vida e preservação ambiental é uma responsabilidade coletiva.
Nesse processo, a educação tem um papel fundamental.
É na escola que muitas crianças começam a compreender a importância da água, da preservação dos rios, da proteção dos oceanos, do saneamento básico e do uso responsável dos recursos naturais.
Mas a educação ambiental precisa ir além das salas de aula. Ela deve contribuir para formar cidadãos capazes de compreender os problemas de suas comunidades, participar das decisões públicas e exigir responsabilidade de governos e empresas.
Não podemos falar em justiça social sem discutir as condições ambientais em que vive a população. São justamente as comunidades mais vulneráveis que, muitas vezes, enfrentam os maiores problemas relacionados à falta de saneamento, à poluição e à ocupação desordenada do território.
Defender a educação também é defender o direito dessas pessoas a uma vida digna.
Valorizar o professor é uma decisão política
A educação brasileira precisa ser tratada como prioridade permanente do poder público, independentemente das mudanças de governo.
Isso significa garantir financiamento adequado, fortalecer a carreira docente, oferecer condições dignas de trabalho e assegurar que a formação continuada faça parte da vida profissional dos educadores.
Também significa reconhecer que professores precisam ser ouvidos na formulação das políticas educacionais. Quem conhece a realidade das salas de aula tem muito a contribuir para a construção de soluções.
A defesa de uma educação pública, gratuita, democrática e de qualidade está diretamente relacionada à defesa de um país menos desigual.
O Brasil precisa de políticas públicas comprometidas com a redução das desigualdades, com a valorização do trabalho e com o fortalecimento de sua capacidade científica e tecnológica.
Nenhum projeto nacional de desenvolvimento será completo se deixar a educação em segundo plano.
Os trilhos do conhecimento
Gosto de pensar na educação como uma ferrovia que atravessa gerações.
Os trilhos precisam de manutenção, planejamento e investimento para que os caminhos permaneçam abertos. Com a educação acontece algo semelhante: quando faltam recursos, estrutura e valorização profissional, comprometemos as oportunidades daqueles que dependem dela.
O professor participa dessa construção diariamente. Muitas vezes, enfrenta dificuldades que não deveriam fazer parte de sua profissão, mas continua ensinando, orientando e compartilhando conhecimentos.
Ao longo da vida, aprendemos que os ensinamentos mais importantes nem sempre estão nos livros. Também estão nas conversas, nos exemplos, nas perguntas que despertam nossa curiosidade e na confiança que um educador deposita em seus alunos.
Neste Dia dos Professores, deixo meu reconhecimento a todos os profissionais que dedicam suas vidas ao ensino, da educação básica ao ensino superior, da formação técnica à pesquisa científica.
Que a homenagem de hoje também sirva para cobrar aquilo que esses profissionais merecem durante todos os outros dias do ano: respeito, condições dignas de trabalho e valorização efetiva.
Se queremos um Brasil com mais ferrovias, mais desenvolvimento, maior proteção ambiental e melhores oportunidades para sua população, precisamos começar por aquilo que torna tudo isso possível: uma educação pública de qualidade e professores respeitados.
Feliz Dia dos Professores!
José Manoel Ferreira Gonçalves
Presidente da Água Viva – Associação Guarujá Viva
Presidente da FerroFrente – Frente pela Volta das Ferrovias