Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O torcedor pagou, e ninguém presta contas
Entre 2024 e 2025, a Gaviões da Fiel juntou cerca de R$ 41 milhões por Pix. Dinheiro de gente que paga boleto atrasado e rifa o próprio orçamento para abater o financiamento do estádio. A torcida cumpriu a parte dela. Agora pergunte quanto desse Pix virou amortização de fato, depois de custos, encargos e taxas. A resposta não existe. Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo, até pediu a discriminação, mas de forma protocolar, sem fazer um movimento político que levasse a termo o pedido.
Um clube que estende a mão ao torcedor deve ao torcedor o extrato. Essa obrigação não depende de estatuto, de liminar nem da boa vontade de diretor nenhum.
A conta da dívida da Arena não fecha
O empréstimo nasceu em 2013, no valor de R$ 400 milhões. Em agosto de 2019, a Caixa Econômica Federal foi ao Judiciário e cobrou R$ 536,09 milhões. O perito Anísio Costa Castelo Branco refez o cálculo e chegou a R$ 280,3 milhões. Diferença: R$ 255,7 milhões.
Um item salta aos olhos. A cláusula 16ª prevê multa de 10% sobre parcelas em atraso. O banco aplicou os 10% sobre o saldo inteiro, R$ 487,3 milhões, e faturou R$ 48,7 milhões onde caberiam R$ 3,7 milhões.
Outros peritos contestam o laudo e apontam pagamentos lançados em duplicidade. Ótimo, que se prove nos autos. O escândalo mora antes disso. Sete anos depois, ninguém, nem banco nem clube, exibiu a planilha analítica que reconstrói mês a mês o saldo a partir dos R$ 400 milhões originais. A dívida da Arena virou dogma, e dogma não se audita.
Em 2022, o clube assinou de olhos fechados
Em 27 de junho de 2022, o Conselho Deliberativo aprovou por unanimidade a renegociação. Dívida fixada em R$ 611 milhões, prazo até 2041, receitas de naming rights inteiras para a Caixa. Com juros, o desembolso projetado alcança R$ 1,5 bilhão.
Ninguém pediu memória de cálculo. Ninguém contestou os números de 2019. Assinaram. Se a cobrança estava inflada, quem assinou sem conferir empurrou meio bilhão de reais para o lombo de corintianos que ainda nem nasceram. A conduta tem nome no direito societário e se chama gestão temerária.
O cofre fechado da Neo Química Arena
Em 2 de setembro, uma ata assinada com o presidente Osmar Stabile previu a entrega de documentos sob termo de confidencialidade. Em 4 de setembro, a diretoria de Negócios Jurídicos recuou e alegou sigilo contratual. Em 8 de setembro, vetou ao perito o acesso a extratos e comprovantes posteriores a agosto de 2019. Em 14 de setembro, ele encerrou as tratativas.
Sigilo contra quem? O perito trabalhava de graça, com acordo de confidencialidade na mesa. Quem tranca o cofre diante de uma auditoria gratuita costuma temer o que guardou lá dentro.
O Ministério Público faz o que a diretoria não fez
O promotor Cássio Roberto Conserino instaurou procedimento na 6ª Promotoria Criminal e mandou o CAEX-Crim refazer todos os cálculos do contrato, dos aditivos e dos encargos. Os achados alimentam o inquérito civil que avalia intervenção judicial no clube. Em agosto, Stabile depôs. Em 14 de setembro, protocolei Notícia de Fato para que se apurem a retenção de documentos e a eventual obstrução da investigação.
Tem caroço nesse angu
O torcedor merece resposta. A sociedade também, porque o credor é banco público e o prejuízo, se existiu, sai do bolso de todos. Cobrança a mais, a Caixa devolve. Omissão deliberada, os responsáveis respondem com nome, sobrenome e patrimônio. Nenhuma camisa, nenhuma cadeira do Parque São Jorge e nenhum passado de glória compram a impunidade de quem transformou a Neo Química Arena numa caixa-preta.
Fontes: o texto se apoia em peças do processo de execução movido pela Caixa Econômica Federal, no laudo do Instituto de Perícia Investigativa, na ata da reunião extraordinária do Conselho Deliberativo de 27 de junho de 2022, no procedimento administrativo da 6ª Promotoria de Justiça Criminal do Ministério Público de São Paulo e em reportagens da Gazeta Esportiva, do Poder360, do Terra, do TMC e do Sport Insider publicadas entre 2022 e setembro de 2026.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.