Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O vídeo que gravamos antes do segundo turno soou premonitório. Com Lula estampado no peito, colhi cumprimentos de todos com quem conversei, além de acenos e sorrisos pelo caminho. Nenhuma crítica, nenhum gesto hostil, nada. Dissemos ali que tanta cordialidade admitia duas leituras: ou caminhávamos para uma vitória folgada, ou o bolsonarismo andava enrustido, envergonhado de se mostrar. A apuração deu razão à segunda hipótese e, mesmo assim, entregou a primeira virada de segundo turno desde a redemocratização. Lula somou 51,79% dos votos válidos, cerca de 64,3 milhões, depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro. Os 59,8 milhões de votos do adversário revelam quanta gente deixou a camisa amarela na gaveta e votou calada.
Mal terminou a contagem e a calhordice bolsonarista já mostrava a cara. Na primeira fala depois da derrota, Flávio Bolsonaro, o mesmo que em 2005 condecorou o miliciano Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes, declarou ser “impossível reconhecer o resultado” e anunciou que pedirá a anulação do pleito. Mirou o ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou a votação por duas horas, até as 19h. Lembrou que Zanin advogou para Lula, acusou-o de mudar a “regra do jogo no meio do jogo” e insinuou um conluio entre o Supremo e o presidente. Omitiu o essencial: a prorrogação atendeu às duas candidaturas.
Na esteira de Flávio veio Washington. Até a manhã desta segunda-feira, a Casa Branca não dissera uma palavra sobre a vitória de Lula, e a imprensa relata que o governo Trump estuda não a reconhecer, com a prorrogação como pretexto. O silêncio rompe uma tradição de mais de duas décadas. Em 2002, 2014 e 2018, os Estados Unidos saudaram o eleito sem demora. Em 2022, Joe Biden cumprimentou Lula enquanto Jair Bolsonaro ainda se recusava a admitir a derrota. O resto do mundo não esperou. Chegaram parabéns de Pequim e de Bruxelas, de Moscou e de Nova Délhi, da União Africana e da OEA, e até de governos de direita da vizinhança, como os de José Antonio Kast, no Chile, e Keiko Fujimori, no Peru. Da Casa Rosada, Javier Milei fez coro ao silêncio de Trump.
A manobra tenta vestir o Brasil com o figurino da Venezuela. Martin De Luca, advogado da empresa de mídia de Trump, chegou a perguntar nas redes se Lula havia virado Nicolás Maduro. Chamam de ditadura o país que acaba de eleger Lula pela quarta vez, e de maracutaia uma eleição que o TSE deu por definida às 21h08 do
mesmo domingo.
Terá Trump esquecido que a campanha de Flávio também pediu as duas horas extras? Os motivos diferiam. Do nosso lado, o pedido nasceu da falta de ônibus em muitas cidades, uma inciativa de empresas e prefeitos que agora precisam ser investigados, que deixava o eleitor pobre longe da seção. A regra existe desde 2023: o STF obriga o poder público a oferecer transporte gratuito e proíbe cortar a frota em dia de eleição. Em Salvador, a escassez levou a federação de Lula a acionar a Justiça Eleitoral contra o prefeito Bruno Reis e os donos das empresas de ônibus. Do lado deles, a alegação foi a chuva: o PL pediu a prorrogação em 17 municípios de São Paulo, do Paraná e de Santa Catarina. Ao esclarecer a liminar, o próprio Zanin registrou que as duas candidaturas
haviam alegado problemas no transporte de eleitores. Quiseram armar uma farsa e tropeçaram nas próprias petições.
A Ferrofrente, Frente Nacional pela Volta das Ferrovias, saúda o quarto mandato de um dos maiores estadistas do mundo, cujo governo acumula conquistas para o povo brasileiro, sobretudo para quem mais precisa. Pediremos audiência ao presidente da República para lhe expor o que a sociedade espera das ferrovias. Há o que reconhecer. O Novo PAC reservou R$ 94,2 bilhões a projetos ferroviários, a Fiol saiu da paralisia, e a Transnordestina, com cerca de R$ 11 bilhões já aplicados, ganhou em julho mais 101 quilômetros de trilhos entre Acopiara e Quixeramobim, no Ceará.
Ainda assim, voltaremos a bater na mesma tecla: a questão ferroviária só destrava com concessões horizontais. No modelo vertical herdado da privatização dos anos 1990, e prolongado pelas renovações antecipadas concedidas a Rumo, Vale e MRS, o mesmo grupo controla os trilhos e os trens que neles rodam. Na prática, só passa a carga que interessa ao dono da linha. O direito de passagem, que deveria abrir a malha a outros operadores, virou letra morta, porque a concessionária fixa o preço do acesso como bem entende. A horizontalização separa quem administra a via de quem opera os trens e garante a qualquer operador o acesso por tarifa regulada, calculada pelo custo evitado. Sem ela, o caminhão segue no lugar do vagão, e o desperdício se conta em carretas. Cada vagão graneleiro leva no mínimo a carga de três caminhões, e um trem de 120
vagões tira cerca de 360 carretas das estradas. As ferrovias respondem hoje por apenas 16% da matriz de cargas, e o Plano Nacional de Logística prevê elevar essa fatia a 33%. Com trilhos cativos pela verticalidade, essa meta não sai do papel.

José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

