A MULTA QUE NINGUÉM CONFERIU

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Corinthiano, engenheiro, jornalista e advogado

Em agosto de 2019, o Corinthians recebeu uma conta de R$ 48,7 milhões. Era uma multa de 10% cobrada no financiamento da Arena. A pergunta que faço desde então cabe numa linha: 10% sobre o quê?

A representação técnica que levei ao Ministério Público de São Paulo mostra o tamanho do problema. A multa incidiu sobre um saldo devedor de R$ 487,3 milhões. O valor efetivamente em atraso, porém, somava R$ 37,8 milhões. Aplicado só a essa parcela, o mesmo percentual daria cerca de R$ 3,8 milhões. A diferença nominal chega a R$ 44,9 milhões. Atualizada até 30 de setembro de 2026, pelos critérios do estudo e com juros de mora, a diferença alcança R$ 196 milhões.

Cento e noventa e seis milhões, diga-se, num clube que fechou 2025 com dívida estimada em R$ 2,6 bilhões.

No dia 4 de outubro, o promotor Cássio Roberto Conserino, da 6ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, deu 72 horas ao Corinthians para entregar os documentos que permitem refazer essa conta. A manifestação registra o que eu já havia relatado: o clube declarou intenção de colaborar, mas não enviou um único papel à área técnica. Formalizei essa dificuldade em representação, e o Ministério Público a recebeu.

O que o promotor pediu é o mínimo. A planilha completa da evolução do saldo devedor desde novembro de 2013. As memórias de cálculo da TJLP, da remuneração adicional de 3,4% ao ano, dos juros remuneratórios e moratórios, das multas e dos demais encargos. A notícia de alguma perícia contábil-financeira que tenha contestado a penalidade. E a resposta à questão decisiva: a multa foi paga, compensada ou engolida pelo saldo renegociado em julho de 2022?

A apuração alcançou também quem participou do acordo. O promotor quer saber se a KPMG Auditores Independentes examinou o cálculo e o tratamento contábil da multa em 2022. Quer saber ainda se o escritório Machado Meyer Advogados analisou a questão e com que fundamentos, respeitado o sigilo profissional. Auditores e advogados de primeira linha passaram por essa renegociação. Alguém conferiu a base de cálculo? Se conferiu, basta mostrar.

Cópia integral do procedimento seguirá para a Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, para o Ministério Público Federal e para o Conselho Deliberativo do Corinthians. O Conselho tem agora em mãos o que precisa para exercer suas atribuições. Espero que as exerça.

Faço questão de dizer o que não afirmo. Não acuso ninguém. A representação técnica não atribui responsabilidade prévia a pessoa ou instituição. Pode haver explicação contratual para a base adotada. Se houver, que apareça, com cláusula, planilha e assinatura. O sócio só não pode aceitar que uma diferença dessa grandeza siga sem conferência por falta de documentos que o próprio clube guarda.

Também não inflo números. O estudo traz uma segunda projeção, de R$ 431,2 milhões, que soma hipóteses jurídicas como a repetição do indébito em dobro e honorários. Esse valor depende de reconhecimento judicial e não constitui, hoje, crédito líquido e certo do Corinthians. Fico com os R$ 196 milhões, que dependem apenas de conta.

Se ao fim da conferência ficar provado que o clube pagou a mais, o dinheiro precisa voltar ao Corinthians. Se nada houver de errado, a planilha encerra o assunto em uma tarde.

As 72 horas estão correndo. A planilha existe. Falta abri-la.

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José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.


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