Mateus Araújo Do UOL, em São Paulo, 09/01/2026 – Um ano após um surto de virose gastrointestinal em Guarujá, na Baixada Santista (SP), moradores da cidade relatam falhas no saneamento e problemas no abastecimento de água. A Sabesp pediu “desculpa” pela falta de água e negou falha no sistema de tratamento de esgoto.
O que aconteceu
- Moradores e comerciantes relataram falta de água na virada do ano. Desde dezembro de 2025, bairros de Guarujá registram água fraca nas torneiras, baixa pressão e interrupções em diferentes horários do dia, inclusive pela manhã. Segundo os moradores, o problema persiste.
- A falha se agrava na alta temporada. Segundo moradores, a escassez ocorre ao longo de todo o ano, mas se intensifica no período de maior fluxo turístico. Há bairros que passam longos períodos sem abastecimento, inclusive em áreas próximas à orla.
- A Praia do Tombo ficou quase 30 dias sem água. De acordo com o engenheiro civil José Manoel Ferreira Gonçalves, presidente da Associação Água Viva, moradores da região recorreram a caminhões-pipa. Bairros como Santo Antônio também enfrentaram o mesmo problema. “Muita gente acaba usando água mineral para fazer o mínimo”, afirmou.
- Associação aponta falta de reservatórios como causa central do desabastecimento. O projeto da Cava da Pedreira, considerado uma das principais alternativas para reserva de água na região, teve o edital de construção suspenso pela Sabesp em 2023 e segue paralisado.
- A associação acionou o Ministério Público por falta de água e lançamento irregular de esgoto. Segundo José Manoel, a entidade apresentou duas ações civis públicas para cobrar providências da prefeitura e da Sabesp, incluindo denúncias de despejo irregular de esgoto nas praias. Entre os pedidos estão a intensificação da fiscalização e a apresentação de cronogramas de obras.
- O grupo de moradores relata que há esgoto chegando ao mar. As praias de Enseada, Pernambuco, Pitangueiras e Tombo seriam as mais afetadas, segundo a associação. Em Pitangueiras, moradores dizem haver pontos visíveis de lançamento de esgoto no mar. No Tombo, moradores relatam água com forte odor, apesar do selo Bandeira Azul —certificação internacional de qualidade da água concedida pela ONG dinamarquesa FEE (Foundation for Environmental Education).
- Na virada de 2024 para 2025, a região registrou um surto de infecção gastrointestinal. Os principais sintomas relatados foram náuseas, vômitos, diarreia e dores abdominais intensas. A Secretaria de Saúde de São Paulo confirmou a presença de norovírus em amostras de fezes humanas coletadas em Guarujá e Praia Grande, outra cidade de Baixada Santista; o vírus, causador de gastroenterite, pode ser transmitido por água e alimentos contaminados.
- O Ministério Público criticou a atuação da Sabesp em 2025. Em agosto, o promotor Diogo Albuquerque afirmou que a empresa seguia “omissa na apresentação de um planejamento concreto e eficiente”. Em setembro, disse que “a população permanece à mercê de um serviço recorrentemente falho”, em descumprimento da exigência de continuidade do abastecimento.
- Sabesp apresentou novo plano de obras no fim de 2025. No início de dezembro, a concessionária apresentou um plano com previsão de investimento de R$ 430 milhões.
- Prefeitura diz ter intensificado fiscalização no saneamento. Procurada, a gestão municipal enviou ao UOL uma nota informando que reforçou o acompanhamento e a fiscalização do saneamento básico, com foco na coleta e no tratamento de esgoto durante a alta temporada.
- Prefeito se reuniu com a Sabesp antes do verão. Segundo a prefeitura, em 6 de novembro o prefeito Farid Madi (Podemos) participou de reunião com representantes da concessionária para tratar da Operação Verão Sabesp. A gestão afirma manter fiscalização contínua das redes e estações de tratamento.
- Prefeitura não respondeu aos questionamentos da reportagem. A gestão municipal não informou quais medidas foram adotadas para prevenir falhas no sistema de esgotamento sanitário e no abastecimento de água e nem apresentou resultados da fiscalização contínua das redes e das estações de tratamento de esgoto.
O que diz a Sabesp
A Sabesp pediu “desculpas pelo transtorno” e atribuiu falhas ao calor, alta demanda e falta de chuvas. Em nota ao UOL, a empresa disse que o abastecimento em Guarujá “apresentou oscilações pontuais em razão das temperaturas extremas” e “do aumento expressivo do consumo com o número recorde de turistas entre o Natal e o Ano-Novo”, além do baixo volume de chuvas em 2025, que reduziu a vazão do rio Jurubatuba.