Trump e o tigre

Compartilhe:

*Por José Manoel Ferreira Gonçalves

O susto que expõe fantasias. Ainda faltam peças para montar o quebra-cabeça do que teria ocorrido em 3 de janeiro de 2026 na Venezuela. Mesmo assim, a reação imediata da maioria de nós diz muito sobre nós.

Quando parte do público se choca com a suposta “precisão cirúrgica” e corre para explicar tudo por “traição”, “entrega” ou “acordo secreto”, ela revela uma mistura de medo, distância e expectativa mal calibrada sobre o poder real de Washington: que nada tem de tigre de papel.

Essa surpresa nasce, em grande medida, de um erro recorrente: tratar o imperialismo como algo que só fala alto, mas não alcança longe. Só que ele combina diplomacia, sanções, finanças, tecnologia e força militar. E, quando decide agir, costuma agir com método, não com improviso.

Maduro, Trump e o tigre: o mito do “cirúrgico”

Operações modernas raramente dependem de um único fator. Elas juntam monitoramento eletrônico, satélites, vigilância humana, infiltrados, pressão econômica e unidades treinadas para agir em poucas horas. Quando o alvo envolve comando político-militar, o objetivo aparece claro: cortar comunicações, confundir a hierarquia e derrubar o moral.

Por isso, a leitura mais útil não procura “vilões internos” como primeira resposta. Ela pergunta quais vulnerabilidades se acumularam e quais rotinas de segurança falharam.

Maduro, Trump e a imagem de tigre viraram, em menos de um dia, um lembrete duro: liderança personalista custa caro quando a disputa sobe de nível. Direção coletiva, redundância e disciplina não soam “românticas”, mas salvam processos.

Maduro, Trump e o tigre: o espelho do continente

Também pesa uma crença confortável: Rússia e China entrariam como contraponto tático imediato, aqui, no nosso entorno. Só que potências calculam risco, custo e prioridade. Elas podem oferecer comércio, tecnologia, financiamento e diplomacia.

Porém, intervenção direta nas Américas esbarra no peso histórico da Doutrina Monroe e na capacidade logística dos EUA no próprio “quintal”.

E existe o fator petróleo. Estimativas divulgadas por organismos do setor ao longo da última década colocaram a Venezuela no topo das reservas comprovadas. Isso não explica tudo, mas explica demais para ser ignorado. Nesse tabuleiro, qualquer doutrina “repaginada” — seja como Monroe, seja como “Donroe” — tende a buscar controle político e afastamento de rivais.

O Brasil entre dependências e escolhas

O episódio, verdadeiro em todos os detalhes ou não, aponta para um risco real: o Brasil segue vulnerável onde menos admite. Doutrina militar, interoperabilidade, inteligência, ciberinfraestrutura e comunicação digital ainda conversam demais com padrões e fornecedores externos. Além disso, o Estado e o mercado dependem de plataformas que concentram dados e poder de influência.

Se o país deseja soberania, precisa tratar conectividade, nuvem, criptografia, satélites e indústria de defesa como política contínua, não como reação a manchetes. E precisa formar gente: técnicos, analistas, diplomatas, comunicadores e lideranças capazes de sustentar decisões difíceis sob pressão.

Solidariedade com cálculo e firmeza

Diplomacia não substitui força material, mas molda o custo das aventuras alheias. O governo brasileiro pode, por exemplo, ajustar seu posicionamento conforme a escalada, defender princípios de não intervenção e exigir respeito a mecanismos multilaterais.

Pode, ainda, fortalecer blocos e fóruns que reduzam isolamento regional, sem cair em bravatas que alimentem novas escaladas. A discussão, no fim, não gira em torno de simpatia por líderes. Ela gira em torno de proteção nacional, integração regional e capacidade de resistir a chantagens. Maduro, e Trump não deveriam servir como meme político; deveriam servir como alerta estratégico.

O que fica depois do estrondo

Quem subestima a força bruta erra. Quem se acha invencível também erra. A história mostra que poder material depende de base social, convicção e organização — dos dois lados. Para o Brasil, isso significa acelerar autonomia tecnológica, reduzir dependências e elevar a formação política das maiorias. Sem isso, o tigre não precisa de provocação: ele só precisa de oportunidade.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.

Artigo publicado no Portal Os Inconfidentes

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email