Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
04.03.2026, Portal Os Inconfidentes
Um aumento que não se explica. A Prefeitura de Guarujá tenta emplacar um aumento de quarenta e um por cento na conta do lixo. O valor saltaria para R 200 milhões anuais. A diferença chega a R$ 55 milhões por ano. Segunda-feira (2) aconteceu a sessão pública.
A administração de Farid Madi apresentou o novo edital. A transparência acabou sendo recolhida junto com os detritos.
A Associação Guarujá Viva (AGUAVIVA) detectou falhas graves no documento. A entidade questiona a proibição de consórcios empresariais. Aponta o risco de sobrepreço na contratação.
Critica a inclusão de um incinerador sem detalhamento técnico-orçamentário preciso. A permissão para subcontratação total abre brechas para desvios. A matemática do aumento não encontra respaldo técnico. Ninguém explicou porque o mesmo serviço custa tanto a mais.
A transparência que sumiu com o lixo
O primeiro edital saiu em 28 de janeiro. Previa gastos acima de R 200 milhões. O novo edital prevê redução de R$ 4,7 milhões em relação ao anterior, o que representa menos de dois por cento do total.
A manobra administrativa tenta vender como concessão o que permanece sendo excesso. O problema estrutural continua intacto. A vedação à participação de consórcios permanece no texto. Esta limitação artificial reduz drasticamente a competitividade.
Favorece grandes grupos econômicos com capacidade individual de investimento. Pequenas e médias empresas ficam fora do jogo da Prefeitura.
A subcontratação liberada permite que o vencedor terceirize tudo. O controle qualidade se perde na cadeia de responsabilidades. O contribuinte paga mais para receber menos segurança. Você entendeu, o pequeno e médio vai poder atuar, desde que o grande ganhe mais valia em cima de quem de fato vai trabalhar.
O incinerador incluído no pacote preocupa ambientalistas. O equipamento gera emissões de dioxinas e furanos. Libera metais pesados na atmosfera. Causa câncer e doenças respiratórias. O processo concentra toxicidade em cinzas perigosas. Gera custo operacional elevado. Compete com a reciclagem em vez de complementá-la.
A aquisição de terreno para instalação não possui detalhamento orçamentário claro. O risco de explosão existe em terrenos de antigos aterros pelo metano acumulado.
Tentaram esconder os números
A AGUAVIVA enviou questionamentos à prefeitura. Perguntou sobre a justificativa para o aumento. Questionou se houve crescimento populacional que justificasse maior produção de resíduos. Solicitou detalhamento dos serviços adicionais incluídos.
A Administração não respondeu até a data da sessão pública. O silêncio institucional fala alto. Esconde números que não fecham.
A história se repete em Guarujá. Farid Madi já foi condenado a devolver R$ 21 milhões por contratação irregular de empresa de lixo em 2006. Agora tenta novamente aumentar a conta sem transparência. O mesmo roteiro de opacidade volta à cena.
A cidade merece saber onde cada centavo será aplicado. O direito à informação não pode ser jogado no caminhão de lixo.
A conta que não fecha
A população de Guarujá paga impostos elevados. Recebe em troca propostas que ignoram o princípio da economicidade. O edital ignora a necessidade de debate público prévio. Não apresenta estudos técnicos que embasem o salto de custos.
A inclusão de tecnologias poluentes sem análise de impacto ambiental configura irresponsabilidade. A liberação da subcontratação total fragiliza a prestação do serviço.
A transparência pública exige que o governo explique cada aumento. O dinheiro público não pertence à administração. Pertence aos cidadãos. Quando a prefeitura esconde cálculos e recusa diálogo, comete violência institucional. O lixo precisa ser recolhido.
A transparência precisa ser exposta. O exemplo de ontem mostra que ambos correm risco de desaparecimento.