TORCIDA E RAZÃO EM CHOQUE

Compartilhe:

Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixãocorintiana, #zemanoel

O dono simbólico do clube

Quando se trata de uma associação esportiva, a torcida quase sempre acerta o caminho. Ela não assina ata, mas sustenta o escudo. Ela não vota no Conselho, mas paga o preço de cada erro. Por isso, A Torcida sempre tem razão. E ainda mais razão quando exige respeito, clareza e consequência. O Corinthians não mora em gabinete; ele respira na arquibancada.

Ainda assim, a paixão precisa conversar com o método. Sem isso, a indignação vira tempestade que derruba o telhado junto com o mofo. E o clube, em vez de se curar, se fratura.

Torcida sempre tem razão na arquibancada

A nota dos Gaviões da Fiel chega como um trovão: pede a expulsão de Andrés Sanchez, Duílio Monteiro Alves e Augusto Melo do quadro associativo e cobra que o Conselho Deliberativo encare o tema sem manobra. Ela também condiciona o debate sobre novas eleições à resolução do destino desses dirigentes e aponta a reforma do Estatuto como prioridade, com discussão sobre o voto do Fiel Torcedor. O texto não disfarça o sentimento: acabou a tolerância.

Eu entendo a frustração. Ela é legítima, quase divina. Quem acompanha o clube há anos viu promessas se repetirem, números dançarem e explicações chegarem sempre pela metade. Em momentos assim, a cobrança vira oração com punho fechado.

Torcida organizada: parte, não todo

Contudo, cabe um freio: torcida organizada representa um pedaço, não a totalidade. Ela mobiliza, pressiona e dá rosto ao protesto. Mas a Fiel inteira inclui gente que não vai a reunião, não segura faixa e mesmo assim ama o clube com a mesma intensidade. Quando a voz mais forte passa a soar como voz única, o Corinthians perde nuance — e perde também a chance de construir consenso para mudanças duras.

Protesto pacífico ajuda. Pressão pública ajuda. Só que o clube precisa de um trilho: apuração consistente, rito claro, transparência ativa e punição quando a prova sustentar. O Corinthians não pode trocar governança por gritaria, nem substituir responsabilidade por catarse.

Torcida sempre tem razão, mas não sozinha

A crise é grande, houve maracutaia sim. E maracutaia pede resposta firme: investigar, responsabilizar e fechar as portas para a repetição. Só que descarregar um raio tão forte contra uma figura como Augusto Melo me parece demasiado, ainda que existam, sim, figuras que mereçam mil raios, mil e cem. Eu não peço blindagem; eu peço critério. O clube precisa separar indignação de julgamento e julgamento de prova. Do contrário, o Corinthians troca um problema grave por um problema irreversível: o vício de “resolver” tudo no impulso.

A mesma energia que hoje exige expulsão e mudanças deve sustentar amanhã as medidas chatas, porém decisivas: auditorias, publicação de documentos, regras de compliance, travas estatutárias e punições exemplares. Sem isso, a limpeza vira só encenação.

Para não perder os dedos

Aqui entra o ponto final: é preciso conter essa ira santa para que, junto com os anéis, não se percam os dedos. A torcida sempre tem razão ao cobrar seriedade, mas lembremos que só a serenidade constrói o caminho que a raiva pode interditar. O Corinthians precisa de cabeça fria para atravessar a tempestade sem destruir a própria ponte. Crise desse tamanho não cede a grito; ela cede a verdade, regra e firmeza — com calma suficiente para não errar o alvo.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.

Declaração de fontes: conteúdo elaborado a partir da nota pública dos Gaviões da Fiel e de cobertura jornalística recente sobre investigações e disputas institucionais ligadas ao Corinthians, incluindo menções ao caso de cartões corporativos e ao litígio envolvendo a Taunsa.

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email