TÍTULOS E PROPINAS

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                                       *Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

A ferida da desonestidade

O torcedor corintiano acordou mais uma vez com gosto amargo na boca. A auditoria interna do clube apontou a inconsistência de quase trezentos mil reais no caixa, uma quantia que evaporou entre tapas e beijos de quem deveria zelar pelo patrimônio. Não se trata de erro de planilha nem de descontrole administrativo inocente. É a repetição de uma história triste que assola o Parque São Jorge há décadas: o Corinthians coleciona títulos dentro de campo e acumula vexames na contabilidade.

A Fiel Pagadora sempre comparece. Lota estádios, esgota camisas, paga sócios-torcedores religiosamente. São operários, donas de casa, fretistas, ambulantes, gente que abdica do almoço para não perder a posição no setor Norte. Esta massa não merece o desplante de malfeitores que confundem o clube com chácara de herança. Uma gente tão pobre, tão pobre que, coitada, só tem dinheiro. Não merece ser respeitada.

Quem fiscaliza os fiscalizadores?

O escândalo atual remonta à gestão passada, mas a cultura do desvio parece transbordar mandatos. O clube vive sob intervenção judicial desde 2020, quando a Justiça nomeou um presidente com poderes extraordinários para evitar a falência. A medida extrema, rara na história do futebol brasileiro, demonstra a gravidade do cenário. Mesmo assim, as propinas de padaria continuam. O montante descoberto agora representa apenas a ponta de um iceberg que afunda as finanças alvinegras há anos.

A torcida mais democrática do país carrega nas costas o peso de dirigentes que tratam o Corinthians como máquina de fazer negócio particular. Contratos superfaturados, notas frias, desvios em obras inacabadas: o roteiro é conhecido e sempre se repete. A arrecadação bilionária virou isca para tubarões de gravata. Enquanto isso, o time atrasa salários, parcela dívidas históricas e implora por paciência ao jogador que recebe oferta do exterior.

O amor que vale mais que milhões

Corintiano não abandona. Este é o trágico diferencial. A torcida sabe que o time perde, sobe, cai, mas nunca deixa de existir em completude. O sentimento transcende resultados e balanços. Por isso mesmo, a traição dos administradores soa mais grave. Roubar do Corinthians não é apenas desviar recursos. É cuspir no rosto de quem acorda cedo para pagar o ingresso, de quem atravessa a cidade de metrô lotado, de quem ensina o filho a cantar “Salve o Corinthians” antes de aprender a tabuada.

A ética, a honestidade, a moral e o amor ao clube valem um milhão de vezes mais que todos os milhões somados. Este é o pacto não escrito entre a instituição e seus fiéis. Quebrá-lo deveria significar banimento eterno, não apenas afastamento temporário com direito a advogados caros e silêncio constrangedor.

Cicatrizes que não fecham

O futebol brasileiro inteiro vive epidemia similar. Clubes tradicionais viram sucata administrativa enquanto dirigentes enriquecem inexplicavelmente. A diferença no Corinthians é a escala do amor popular, que torna o crime mais escabroso. Não dá para esconder trezentos mil reais num clube que vende ingressos dez minutos após abrir a bilheteria. Não dá para fingir que tudo está bem quando a torcida financia a irresponsabilidade alheia.

O que resta ao torcedor comum? Continuar cantando, continuar sofrendo, continuar pagando. E esperar que um dia, finalmente, quem comanda o Corinthians entenda que o título mais importante é o de clube honesto. O resto, dentro de campo, a Fiel já garante. Fora dele, a luta contra os ladrões de baixa estopa segue aberta.

Fontes: Auditoria interna do Sport Club Corinthians Paulista (2024); processos judiciais em trâmite na 9ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo; reportagens do portal Meu Timão sobre gestão financeira do clube.

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