Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel
O contato proibido e o pedido rigoroso
O Ministério Público de São Paulo decidiu apertar o cerco jurídico contra Andrés Sanchez. O promotor Cássio Conserino solicitou à Justiça a imposição de tornozeleira eletrônica para o ex-presidente do Corinthians. A medida extrema decorre de um suposto descumprimento das cautelares impostas em dezembro do ano passado. O dirigente teria mantido contato telefônico com Antônio Jorge Rachid Júnior, secretário-geral do clube, no dia trinta de janeiro. A proibição de comunicar-se com dirigentes alvinegros vigora desde onze de dezembro de dois mil e vinte e cinco. Rachid confirmou às autoridades que recebeu a ligação e afirmou que as conversas ocorriam com frequência.
Quando a tecnologia chega ao Corinthians
A solicitação representa um capítulo inédito na história recente do clube. Pela primeira vez, a tecnologia chegando ao Corinthians assume contornos punitivos e não esportivos. A tornozeleira eletrônica funciona como um mecanismo de vigilância contínua, impedindo a aproximação física do investigado com os dirigentes proibidos. Além do dispositivo, o MP requereu a apreensão do passaporte espanhol de Andrés. O órgão também quer acesso aos registros telefônicos do ex-mandatário entre trinta de dezembro de dois mil e vinte e cinco e vinte e cinco de fevereiro deste ano. A dupla nacionalidade do acusado preocupa os investigadores, que temem eventual fuga para a Espanha.
Os gastos e as investigações
O caso remonta a operações suspeitas nos cartões corporativos do clube entre agosto de dois mil e dezoito e fevereiro de dois mil e vinte e um. A Promotoria identificou cerca de duzentas compras realizadas por Andrés Sanchez utilizando recursos do Corinthians. O montante total ultrapassa quinhentos e oitenta mil reais quando corrigido por inflação e juros. Os gastos incluíam relógios importados, roupas de grife e atendimentos médicos particulares. Todas as notas fiscais saíam em nome do então presidente. A acusação formal inclui apropriação indébita e crimes contra a ordem tributária.
O monitoramento através do tornozelo
A imposição do monitoramento através do tornozelo marca uma escalada sem precedentes nas investigações contra cartolas paulistas. O dispositivo emite sinais de rádio frequência que permitem rastrear cada movimento do investigado. Se Andrés tentar frequentar o Parque São Jorge ou se aproximar de conselheiros, o sistema disparará alertas imediatos para a central de monitoramento da Justiça. A defesa do ex-presidente, representada pelo escritório Fernando José da Costa Advogados, classificou o pedido como manifestamente desproporcional. Os advogados argumentam que o próprio Corinthians jamais atestou irregularidades no uso dos cartões corporativos.
O impasse institucional
O Conselho Deliberativo do clube vive momento de tensão com o MP. Romeu Tuma Júnior, presidente do órgão, havia suspendido os processos administrativos contra Andrés alegando inviabilidade prática. Segundo Tuma, a proibição de contato dificultaria a oitiva do ex-presidente em procedimentos internos. O promotor Conserino rebateu o argumento com ironia e firmeza. Em ofício oficial, exigiu a retomada imediata das investigações internas, sugerindo o uso de meios telepresenciais para depoimentos. O documento sustenta que a medida cautelar judicial não anula as competências disciplinares do clube.
A resposta da defesa
O escritório de advocacia lamentou ter tomado conhecimento das medidas pela imprensa. Em nota oficial, ressaltou a ausência de justa causa para tamanha gravidade cautelar. Os defensores pontuaram que nenhuma denúncia interna confirmou desvios nos gastos com cartões. A estratégia processual visa demonstrar que as restrições extrapolam o necessário para a investigação. A defesa promete adotar todas as medidas cabíveis para impedir a determinação judicial da tornozeleira. O impasse deve se resolver nos próximos dias, quando a Justiça analisará o mérito do requerimento ministerial.
O cenário jurídico
O processo criminal já enfrentou obstáculos procedimentais. Em dezembro passado, o MP chegou a pedir a suspeição da juíza Márcia Mayumi Okoda Oshiro, alegando vínculos profissionais com o advogado de Andrés. O Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou a alegação e manteve a magistrada no caso. A denúncia original incluía lavagem de dinheiro, mas a juíza rejeitou parcialmente essa tipificação. Restou apenas o crime de apropriação indébita, pelo qual Andrés responde como réu em liberdade.
O futuro do caso
A decisão sobre o uso da tornozeleira eletrônica recairá sobre a magistrada nos próximos dias. A medida representaria um constrangimento físico inédito para um ex-presidente de clube de futebol brasileiro. O Corinthians assiste passivamente ao embate entre seu ex- mandatário e as autoridades policiais. A torcida aguarda desfechos que possam afastar definitivamente as sombras de suspeita que pairam sobre a gestão passada. A tecnologia, antes símbolo de modernidade administrativa, agora serve como instrumento de controle judicial sobre os dirigentes do Timão.
Declaração de fontes: As informações contidas neste artigo foram obtidas a partir de reportagens do Estadão, UOL, CNN Brasil, Band, Lance!, TMC e Meu Timão, além de documentos oficiais do Ministério Público de São Paulo.
