SÓCRATES MUDO

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*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

O mito que virou estátua

O Movimento Expulsão Já colheu mais de 40 mil assinaturas em petição que pede a saída de três presidentes do Corinthians. Andrés Sanchez, Duílio Monteiro Alves e Augusto Melo figuram no mesmo alvo, como se suas
trajetórias fossem equivalentes. A iniciativa, que agita o Parque São Jorge sob a bandeira do saneamento moral, comete um erro que não resiste a cinco minutos de exame honesto.

A cronologia dos fatos desmente a equiparação. As investigações sobre cartão corporativo têm origem nas gestões de Andrés e Duílio. O Ministério Público aponta movimentação milionária em espécie durante ambos os mandatos, com suspeitas de empresas de fachada e desvios. Augusto Melo entrou na mira depois, num contexto político em que qualquer bastão serve para bater em quem incomoda. Que tenha enfrentado turbulências e adversários internos dispostos a sabotá-lo desde o primeiro dia não o transforma em cúmplice dos que vieram antes.

Quando a democracia vira pretexto

A ironia cruel reside no nome que o movimento invoca. A Democracia Corinthiana, experimento luminoso dos anos oitenta, pregava exatamente o oposto do que se vê hoje. Sócrates, Wladimir e Casagrande construíram um
modelo em que todos, do presidente ao roupeiro, tinham voto igual nas decisões do clube. O lema era claro: ganhar ou perder, mas sempre com democracia. Não havia expurgo, havia conversa. Não havia guilhotina, havia assembleia.

Sócrates virou estátua justamente para não ouvir o que dizem em seu nome. O médico que lia Gramsci no vestiário e entendia que o futebol podia ser laboratório de cidadania jamais confundiria democracia com linchamento. Ele sabia que democracia de verdade não é a tirania da maioria sobre a minoria,
mas o exercício paciente de incluir o diferente na conversa. Invocá-lo para legitimar um abaixo-assinado que trata trajetórias distintas com a mesma régua é, no mínimo, uma distorção histórica.

A preguiça de enfiar tudo no mesmo saco

Dizer que os três presidentes são farinha do mesmo saco é como dizer que a vítima de um atropelamento e o motorista que fugiu merecem a mesma multa porque estavam ambos na cena do acidente. Augusto Melo chegou à presidência eleito por uma maioria que queria romper com o ciclo anterior. Queria,
justamente, virar a página das gestões que sangraram o clube. Tratar isso com a mesma régua não é rigor. É preguiça intelectual, quando não é má-fé deliberada.

Crise não se resolve com expurgo. Crise se resolve com política. E política, na sua acepção mais digna, é conversa. É a arte difícil e necessária de sentar-se à mesa com quem pensa diferente, admitir divergências, negociar caminhos e construir acordos que sirvam ao bem comum. Todos os envolvidos, ao menos em tese, partilham um objetivo: um Corinthians grande, solvente, competitivo, erguendo taças e honrando a camisa que é patrimônio de milhões.

Quem cala e quem fala demais

O silêncio nos corredores do Parque São Jorge é seletivo. Enquanto isso, o movimento segue colhendo assinaturas. A pergunta que deveria ecoar é outra: quem investiga os investigadores? Quem fiscaliza o fiscal? A pressa em julgar antes de apurar, em condenar antes de ouvir, é o oposto exato do legado que Sócrates deixou.

Não se trata de blindar ninguém. Quem errou que responda, nos foros competentes, com direito a defesa e contraditório. Mas responder é uma coisa. Ser jogado na mesma vala comum de quem cometeu desvios comprovados é outra, radicalmente diferente. O torcedor do Corinthians, que é gente politizada por tradição e por herança, precisa resistir à tentação do simplismo.

O Corinthians já viveu crises piores e saiu delas. Saiu porque havia gente disposta a conversar, a ceder, a costurar. Saiu porque a Fiel, nos seus melhores momentos, soube distinguir a indignação legítima do linchamento gratuito. Este é um desses momentos em que a distinção se faz necessária. A saída não está em expulsar, está em reconstruir. E reconstrução, como Sócrates bem sabia, começa quando a gente para de apontar o dedo e começa a estender a mão.

Que se investigue tudo. Que se apure cada centavo. Mas que se faça isso com a inteligência e a generosidade que o Corinthians merece, e não com a foice cega de quem confunde justiça com vingança.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva e coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD).

Fontes: OneFootball, Meu Timão, UOL, Mídia NINJA, Wikipédia, Blog do Acervo O Globo.

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