SIMULACRO FISCAL NO TIMÃO 

Compartilhe:

*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

O déficit que o Conselho escondeu 

No dia 27 de abril de 2026, o Conselho Deliberativo do Corinthians aprovou as  contas do ano fiscal de 2025. O placar foi apertado. Cento e seis conselheiros  votaram a favor. Sessenta e oito contra. O clube encerrou o período com déficit  de 143,4 milhões de reais. A dívida acumulada supera 2,7 bilhões. A receita  operacional líquida alcançou 810 milhões. As despesas operacionais consumiram  885 milhões. Os números não deixam margem para otimismo. 

A auditoria independente da Parker Russell Brasil emitiu parecer com ressalvas.  O relatório aponta limitações na análise da estrutura financeira. Menciona  patrimônio líquido negativo de 774,1 milhões. Destaca ainda uma transação  tributária cuja contabilização em 2025 merece questionamento. O Conselho  Fiscal não se aprofundou nessas ressalvas. Preferiu o caminho da aprovação  rápida. 

O simulacro de controle 

O promotor Cassio Roberto Conserino, do Ministério Público de São Paulo, não  engoliu a farsa. Na segunda-feira, 4 de maio, protocolou pedido de intervenção  judicial no clube. O documento é duro. Conserino fala em gestão temerária,  indícios de fraude, maquiagem contábil e violação da Lei Geral do Esporte.  Considera a medida impostergável. O Corinthians estaria à deriva, sem controle  interno efetivo, sem governança. 

O primeiro ponto da representação atinge a nulidade da aprovação. Haroldo  José Dantas da Silva preside o Conselho Fiscal. Ele é advogado das empresas do  presidente Osmar Stabile. Estava formalmente afastado de suas funções por  conflito de interesse. Mesmo assim, compareceu à reunião. Presidiu o ato. Se 

absteve de votar no momento oportuno. Mas assinou a ata junto com Cláudio  Luiz Senise e Paulo Schimidt Pimentel. A presença dele viciou o ato  administrativo. O Conselho de Orientação deveria ter impedido a irregularidade.  Nada fez. 

Conserino não poupa palavras. Os órgãos fiscalizadores orquestraram um  simulacro de controle. Aprovaram contas com ressalvas de auditoria e não se  debruçaram sobre como resolvê-las. A ineficácia sistêmica é institucionalizada. O  cenário administrativo é caótico e piora em progressão geométrica. 

O déficit de 143 milhões 

O torcedor paga ingresso, assiste ao time e financia o rombo. O déficit de 143  milhões não é abstrato. Representa contratos mal feitos, salários em atraso,  precariedade estrutural. O clube vive de receitas extraordinárias, de vendas de  jogadores, de empréstimos. O modelo não sustenta. O Conselho Deliberativo  sabe. A fiscalização sabe. Ambos aprovaram. 

Conserino pede a instauração de inquérito civil visando intervenção judicial.  Sustenta quatro denúncias. Vícios na aprovação de contas. Ineficiência dos  órgãos de controle interno. Gestão temerária. Infringência à Lei Geral do  Esporte. O clube é patrimônio cultural nos termos do artigo 216 da Constituição  Federal. O STF já decidiu que entidades desse porte não podem sucumbir à má  gestão privada sem reação do Estado. 

Quem fiscaliza o fiscal 

A resposta do Corinthians ainda não veio. O silêncio reforça a tese do promotor.  Se não há defesa, o motivo é simples: não há defesa possível. A aprovação das  contas com ressalvas virou praxe no futebol brasileiro. Ressalva encobre  irregularidade grave. Ressalva transforma prejuízo em aprovação técnica. A  ressalva é o eufemismo do desastre.

O Corinthians não é caso isolado. A diferença está na dimensão. A dívida de 2,7  bilhões torna o clube um dos maiores devedores do esporte nacional. O déficit  de 143 milhões em um único ano acelera a trajetória de insolvência. O Conselho  Fiscal orquestrou um simulacro de controle. Esse rombo é a prova do  descontrole. O torcedor merece respostas. A Justiça deve obrigar o clube a  prestá-las. 

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

Saiba mais sobre o autor

Fontes: ESPN Brasil, CNN Brasil, ge.globo, UOL Esporte, Meu Timão, Poder360,  Veja, Portal Léo Dias, Gazeta Esportiva, Máquina do Esporte. 

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email