Semáforos da Vergonha: SP ignora idosos

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*José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

A Cidade para Quem?

Em meio ao labirinto de concreto e aço que se tornou a metrópole de São Paulo, uma reportagem do Jornal da Globo escancarou uma ferida purulenta na carne da mobilidade urbana: o desprezo sistemático pelos pedestres, em especial os mais vulneráveis. Afinal, enquanto a máquina administrativa municipal, liderada por Ricardo Nunes, parece absorta em teias burocráticas e justificativas pífias, o cidadão a pé, o idoso com suas passadas lentas, é relegado a um papel secundário, quase invisível, na lógica implacável do trânsito paulistano. Com efeito, a notícia não é apenas sobre semáforos mal regulados; é sobre uma cidade que, progressivamente, desumaniza seus habitantes em nome da fluidez do tráfego automotivo.

O Descaso com Pedestres Idosos em SP Revelado

Um estudo do Instituto Corrida Amiga, divulgado no G1, expôs a crua realidade: o tempo exíguo concedido aos pedestres para cruzar vias movimentadas é um atentado à segurança e à dignidade humana. Assim, na emblemática Praça Roberto Gomes Pedrosa, o pedestre é submetido a uma espera de quatro minutos para, então, receber míseros seis segundos para realizar a travessia. Ora, tal cronometragem insana revela um planejamento urbano que privilegia o automóvel de forma abjeta, relegando o pedestre, especialmente o idoso, a um mero estorvo no frenético fluxo de veículos. Ademais, a situação se agrava quando confrontamos os dados com o Estatuto do Pedestre, que preconiza tempos de travessia adequados à velocidade de caminhada de crianças e pessoas com deficiência, parâmetros flagrantemente ignorados pela gestão municipal.

A Ditadura do Cronômetro e a CET Surda

A resposta da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) soa como um eco vazio de tecnocracia insensível. Alegam que os tempos de travessia seguem o “manual brasileiro de sinalização de trânsito”. Contudo, este manual, aparentemente, foi concebido por e para os carros, não para as pessoas. Portanto, a CET se apega a um formalismo burocrático que ignora a experiência real, palpável, dos pedestres nas ruas. Além disso, o programa “Pedestre Seguro”, citado pela companhia como solução, parece mais uma peça de marketing do que uma mudança efetiva na priorização do pedestre. Em verdade, o que se observa é a perpetuação de uma lógica que coloca o tempo do automóvel acima do tempo de vida do cidadão.

SP Persiste no Descaso com Pedestres Idosos

O problema não reside apenas na falha pontual de um ou outro semáforo. O cerne da questão é a mentalidade que estrutura o planejamento urbano de São Paulo. Decerto, a prioridade dada ao automóvel individual, em detrimento do transporte público eficiente e da segurança do pedestre, é uma escolha política que explicita um modelo de cidade excludente e desumana. Por conseguinte, ao negligenciar as necessidades dos pedestres idosos, a gestão municipal não apenas desrespeita o Estatuto do Pedestre, mas também demonstra um profundo desapego aos princípios básicos de uma sociedade civilizada, que deveria zelar por seus membros mais vulneráveis. Em outras palavras, a pressa dos carros não pode justificar o sofrimento e o risco a que são submetidos os pedestres.

Um Apelo por Humanidade nas Ruas

É imperativo que a prefeitura de São Paulo, sob a liderança de Ricardo Nunes, reavalie urgentemente suas prioridades em relação à mobilidade urbana. É crucial que se coloque o pedestre, e em especial o idoso, no centro do planejamento e das ações. Dessa forma, a revisão dos tempos semafóricos é apenas o primeiro passo. É necessário repensar a lógica viária como um todo, investindo em calçadas seguras, faixas de pedestres bem sinalizadas, e um transporte público de qualidade que reduza a dependência do automóvel. Afinal, uma cidade que não cuida de seus pedestres (e todos os cidadãos são pedestres em algum momento, por mais que tenham veículos), que ignora o ritmo lento dos idosos, é uma cidade doente, desumanizada, que precisa urgentemente reencontrar o caminho da civilidade e do respeito à vida.

*José Manoel é pós-doutor em Engenharia, jornalista, escritor e advogado, com uma destacada trajetória na defesa de áreas cruciais como transporte, sustentabilidade, habitação, educação, saúde, assistência social, meio ambiente e segurança pública. Ele é o fundador da FerroFrente, uma iniciativa que visa promover o transporte ferroviário de passageiros no Brasil, e da Associação Água Viva, que fortalece a participação da sociedade civil nas decisões do município de Guarujá. Membro do Conselho Deliberativo da EngD

Declaração de Fontes:
As informações contidas neste artigo foram obtidas a partir da reportagem “Pesquisa aponta que tempo de semáforos em SP não é suficiente para idosos atravessarem ruas; CET se defende” do portal G1, da Globo, e de informações gerais sobre o Estatuto do Pedestre e planejamento urbano em São Paulo, disponíveis em fontes públicas online.

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