Sela velha, cavaleiro novo

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, Jornalista, Advogado e Escritor
Artigo Publicado no Portal Os Inconfidentes

A repatriação dos erros

O Brasil revive hoje uma encenação dolorosamente familiar. A operação que investiga o Banco Master ressuscita métodos que deveriam ter sido sepultados junto com os excessos da Lava Jato original. André Mendonça assume a relatoria no Supremo Tribunal Federal e, em poucos dias, afasta peritos técnicos indicados por Dias Toffoli.

Substitui-os por nomes ligados aos primeiros vazamentos da operação que condenou Lula sem provas materiais. A história não apenas se repete. Ela ressurge com a mesma coreografia de antes, utilizando os mesmos personagens e o mesmo aparato midiático de destruição reputacional.

A diferença aparente reside apenas nos protagonistas

Ontem, Sergio Moro conduzia o espetáculo midiático com autoritarismo judicial declarado. Delegados pedem a quebra do sigilo bancário de Lulinha com base em supostas viagens bancadas por um personagem apelidado de Careca.

O filho do presidente possui uma conta no Banco do Brasil e um fundo de previdência modesto. Os fatos objetivos pouco importam diante da voracidade midiática. O que vale é a denúncia espetaculosa, o que ecoa nos grupos de WhatsApp antes mesmo de ser confirmado por qualquer investigação séria.

A sela e o cavaleiro

Luís Nassif cunhou o termo certeiro. Jornalista-sela é aquele que se deixa cavalgar pelas fontes policiais sem exercer o mínimo juízo crítico. O caso Master marca o retorno desta figura triste ao centro do noticiário nacional. Repórteres endossam barbaridades factuais para manter vivo o fluxo de vazamentos seletivos.

Recebem os releases, tratam as acusações como sentenças definitivas e publicam escândalos montados sob medida para destruir reputações antes de qualquer decisão judicial transitada em julgado.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo chegou a oficializar esta prática durante a primeira Lava Jato. Ofereceu seus associados como colaboradores da operação, confundindo gravemente a função social da imprensa com o trabalho de delegados e promotores. O resultado apareceu claro na operação Spoofing.

A cobertura transformou-se no maior vexame jornalístico da história recente. Mídia e polícia confundiram-se num organismo único e parasitário, incapaz de distinguir entre investigação legítima e persecutória política.

O truque da memória curta

Não houve autocrítica institucional. Não houve justiça de transição para o jornalismo que participou ativamente daquele festival de ilegalidades e violações de direitos.

A sela permanece a mesma, ainda que o cavaleiro mude de estribo. O que importa é a montaria, não a direção. A imprensa brasileira demonstra uma incapacidade crônica de aprender com seus próprios desastres profissionais e morais.

O emaranhado do Master oferece terreno fértil para a repetição deste roteiro devastador. Delegados afastados retornam triunfantes. Peritos sérios deixam o caso sob pressão. E o noticiário continua se alimentando dos mesmos vazamentos que aniquilaram a credibilidade institucional do país entre 2014 e 2018.

Trata-se da velha arte de montar notícias sem direção própria, guiada exclusivamente pelo interesse de quem detém o poder de investigação policial.

O preço da passividade

A consequência mais grave não aparece nos títulos sensacionalistas. Ela se instala silenciosamente no tecido democrático. Quando o jornalismo abdica de sua função social para servir de caixa de ressonância a interesses políticos partidários, abre espaço irreversível para a destruição do estado de direito.

O país assiste impassível à reconstrução de uma máquina de moer reputações que já provou seu caráter persecutório e seletivo. Não se trata de defender corruptos ou impedir a investigação de crimes financeiros. Trata-se de exigir que a persecução penal obedeça estritamente às leis e que a imprensa exercite o contraditório antes de publicar acusações graves.

O Brasil merecia ter evoluído desde os dias em que Moro conduzia a dança midiática com auxílio de procuradores e juízes parciais. Infelizmente, a sela continua disponível a quem a quiser montar e conduzir o noticiário a seu bel-prazer.

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