*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
A lógica do tijolo molhado
A privatização da Sabesp completou seu primeiro ciclo em julho do ano passado. O governo Tarcísio celebrou a transação como vitória inexorável do mercado sobre a ineficiência estatal. Na prática, porém, a operação transformou água em mercadoria especulativa e saneamento em oportunidade imobiliária. A companhia persegue metas financeiras que pouco dialogam com tubos e reservatórios. Vende ativos como quem liquida estoque de sapatos fora de estação. Esquece que alguns canos carregam sangue vital e que há bombas que não têm preço em bolsa.
O hidrante está à venda
O prédio da rua Harmonia, nos Jardins, vale ouro maciço. Três mil metros quadrados a uma quadra da Oscar Freire, onde o metro quadrado compete com os preços de Paris. O mercado imobiliário local chora por terra há anos. A Sabesp enxergou apenas o cifrão. Pôs o imóvel na prateleira por duzentos e quarenta milhões de reais. Esqueceu de avisar aos compradores que ali funcionava uma estação de bombeamento estratégica. Ou fingiu esquecer com a habilidade do lote vazio.
A unidade parou há uma década. A água que sobe para a Paulista vem de outros canos agora. Mas sete cenários técnicos distintos, todos elaborados pela própria companhia, apontam a necessidade absoluta de reativar o equipamento. A região abriga vinte hospitais de alta complexidade. Tubulações precisam de redundância. Quando um sistema trava, outro assume a carga. Sem o estepe hidráulico, resta apenas a seca e o silêncio dos respiradores. O hidrante está à venda, mas o risco permanece de graça com a população.
O diretor regional Cláudio Hermolin chegou à Sabesp em março deste ano. Veio diretamente da Primaz. A Primaz é a empresa responsável por intermediar justamente a venda desse imóvel específico. A coincidência envergonha até o cinismo habitual da administração pública paulista. Hermolin presidia o sindicato da construção civil no Rio de Janeiro. Agora decide sobre tubulações em São Paulo com a naturalidade de quem troca de cartório. O conflito de interesses não incomodou quem o nomeou. A Primaz nega relação atual. A cronologia exala mau cheiro, o queijo está velho.
O incêndio vem de brinde
A Avenida Paulista respira dinheiro e sangue. Dezoito milhões de litros de água circulam por dia na região para manter os edifícios vivos. Os hospitais consomem parte desse volume. Cirurgias cardíacas precisam de água estéril. Unidades de terapia intensiva dependem de pressão constante nos hidrantes internos. Um corte abrupto no fornecimento transforma centro cirúrgico ossuário. A Sabesp responde às indagações com evasivas. Diz que o sistema atual basta. Diz que a estação é obsoleta. Diz que o mercado resolve. Mente mal e com parca elegância.
Engenheiros da própria empresa, protegidos pelo anonimato por temor a represálias, contam outra história. Afirmam que a venda representa crime anunciado contra a segurança. Garantem que não existe plano B caso a adutora atual sofra colapso. A região carece de reserva operacional. Vender o terreno equivale a arrancar o estepe do carro em movimento. É confiar cegamente que o pneu nunca furará. É apostar que o fogo não alcançará o paciente intubado quando a válvula secar.
Carlos Piani, presidente da companhia, prometera reduzir tarifas com a alienação de ativos. A conta chegou antes do benefício. O reajuste de 2025 subiu seis vírgula onze por cento acima da inflação. O dinheiro do tijolo não molhou a garganta do consumidor. Enriqueceu acionista estrangeiro. O prédio dos Jardins virará condomínio de luxo. A água da Paulista seguirá subindo por canos enferrujados. Quando o sistema trancar, não haverá botão de emergência. O incêndio vem de brinde. E, você sabe, ele sempre vem.
O preço da sede
São Paulo aprendeu a confundir patrimônio estratégico com estoque de liquidação. A privatização exige sangria rápida. Os onze mil imóveis da Sabesp viraram alvos. Alguns abrigam estações. Outros, reservatórios. Todos geram lucro imediato no balanço. O futuro hidráulico pesa pouco diante do dividendo do próximo semestre. A lógica é simples. Vende o que vale hoje. O risco a gente resolve depois. Entretanto, quando o desastre vier, será tarde demais para desfazer a transAção.
A história recente do saneamento brasileiro deveria servir de alerta. Em 2015, o colapso da Samarco não ensinou suficientemente. Em 2022, o desastre de Petrópolis mostrou o custo exato da infraestrutura abandonada em favor de projetos imobiliários. A Sabesp deslembra as lições. Ou pior, não se importa com elas enquanto o metro quadrado subir. O prédio sairá por valor de shopping. O abastecimento da Paulista continuará por preço de sorte. Sorte e água são categorias incompatíveis. Só uma é garantida pelo contrato de compra e venda. E certamente não é a líquida que mata a sede.
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
Declaração de fontes: As informações sobre o imóvel dos Jardins e a estação de bombeamento foram obtidas na reportagem da Agência Pública. Dados sobre a privatização da Sabesp e declarações do presidente Carlos Piani provêm de veículos de imprensa especializados. Os cenários técnicos de abastecimento até 2045 constam de documentos internos da companhia citados na investigação jornalística.