São Jorge, o Corinthians e o que nos move

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*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

Na noite de 23 de abril, dia de São Jorge, o Sport Club Corinthians Paulista inaugurou, na Neo Química Arena, a estátua do seu padroeiro. Poderia ser apenas mais um evento institucional, mais uma entrega simbólica. Não foi.

Estive presente. E o que se viu ali ultrapassa o futebol.

A obra, batizada de “Cavaleiro Fiel”, com cerca de 25 metros de altura, se impõe não apenas pelo tamanho, mas pelo significado. São Jorge aparece montado, lança em punho, enfrentando o dragão. Uma imagem clássica que, naquele espaço, ganha um sentido atual: o da resistência cotidiana.

O Corinthians não é apenas um clube. É um território simbólico onde fé, luta e identidade se encontram.

A cerimônia deixou isso evidente. Começou como rito religioso, seguiu como celebração ecumênica e se transformou em expressão coletiva. Católicos, religiões de matriz africana, torcedores organizados e dirigentes ocuparam o mesmo espaço, compartilhando um símbolo comum, ainda que por caminhos distintos.

Isso revela muito sobre o Brasil real.

Em um tempo marcado por divisões e simplificações, o que se viu foi convivência. Diferenças sustentadas por algo maior: pertencimento.

São Jorge, ali, não é apenas o santo católico. Também é Ogum. Também é símbolo de luta, proteção e coragem. É múltiplo, assim como o povo que o reverencia.

Talvez seja exatamente por isso que o Corinthians o escolheu. Ou tenha sido escolhido por ele.

A inauguração da estátua, inserida nas comemorações do centenário do Parque São Jorge, não olha apenas para trás. Ela projeta uma ideia. A de que resistir continua sendo necessário. E mais do que isso, continua sendo coletivo.

Em um país onde muitos enfrentamentos são silenciosos e onde os desafios mudam de forma, mas não desaparecem, símbolos como esse deixam de ser decorativos. Tornam-se afirmações.

Estar ali foi testemunhar isso de perto.

Não como quem assiste a um evento, mas como alguém que reconhece que certos espaços ainda conseguem traduzir aquilo que muitas vezes falta em outros lugares: o sentimento de pertencimento.

No fim, não se trata de uma estátua.

Trata-se do que ela representa.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

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