QUEM MANDA NO CORINTHIANS?

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves | Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

O despacho que abalou o Parque São Jorge

Faltava pouco para a Fiel respirar futebol, e a guerra explodiu nos gabinetes. A Copa rolava nos Estados Unidos, mas a novela do Timão acontecia longe das quatro linhas. Em 16 de junho, o presidente da Comissão de Ética e Disciplina, Leonardo Pantaleão, enviou um despacho a Osmar Stabile e cobrou explicações sobre uma frase do mandatário. Cinco dias de prazo, dez perguntas, nenhuma resposta simples. No mesmo período, a Justiça suspendeu a assembleia que discutiria a reforma do estatuto, e o clube fechou o quadrimestre no vermelho. O Timão vive de crise em crise, e a Fiel paga o ingresso da novela.

A frase que Stabile precisa explicar ao Corinthians

Tudo nasceu de uma entrevista à TMC, no início de junho. Ao tratar dos bastidores, Stabile afirmou que “cada conselheiro tem um contrato embaixo do braço”. A insinuação correu o Parque São Jorge e acendeu o pavio. Pantaleão quer saber se a fala mira casos concretos ou foi desabafo genérico. Exige nomes, objetos, valores e prazos dos supostos contratos, e pede que o presidente diga se enxerga conflito de interesse entre conselheiros e o clube. O documento se diz informativo, sem juízo prévio. Soa como início de processo. Se a resposta confirmar vínculos, o estrago será grande, pois mistura quem fiscaliza com quem assina contrato.

Uma guerra de cartolas que não para

O episódio é o quarto round entre Stabile e a Comissão de Ética. Em março, o presidente pediu o afastamento de Romeu Tuma Júnior da presidência do Conselho Deliberativo, acusou-o de ameaças e depois não entregou os vídeos que sustentariam a denúncia. Meses depois, conselheiros protocolaram dois pedidos de impeachment contra o próprio Stabile, um pelo uso do Parque São Jorge como garantia no acordo com a Fazenda Nacional, outro por contratos de segurança. Já surgiu um terceiro, ligado à defesa do clube no caso Nike. O Ministério Público ainda cobrou o presidente por defender um vice em ação sobre desvio de material. Enquanto os cartolas trocam tiros, o time sangra.

Quem manda e quem paga no Corinthians

As contas explicam a pressa de todos. No primeiro quadrimestre, o Corinthians perdeu R$ 168 milhões, e a dívida total já beira R$ 3,3 bilhões. Receita recorde e caixa vazio convivem no mesmo balanço. Cada dia de juros engole o que daria para uma folha inteira. A proposta de virar empresa, em debate há meses, virou refém da mesma briga. O torcedor assiste, sem voto, a uma queda de braço por cadeiras.

Quem manda no clube se porta como dono do tabuleiro, e quem paga a conta é a arquibancada. Um time que nasceu do povo não pode virar feudo de poucos. A Democracia Corinthiana já provou que dá para decidir no voto, com claresa e sem messias. Falta a esta geração de dirigentes a mesma coragem de prestar contas. Sem ela, nenhum investidor e nenhuma assembleia salvam o que a vaidade insiste em afundar.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

Saiba mais sobre o autor

As informações deste artigo se apoiam em reportagem do Meu Timão sobre o despacho da Comissão de Ética e Disciplina, em registros sobre os pedidos de impeachment e o acordo do clube com a Fazenda Nacional, e nos balanços recentes do Corinthians divulgados pela imprensa esportiva.

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