PROTOCOLOS PORTUÁRIOS EM XEQUE

Compartilhe:

Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

Quando a rotina vira tragédia

Na noite de segunda-feira, no Armazém 16 do Porto de Santos, uma trabalhadora de 40 anos perdeu a vida após a queda de uma esteira, em um episódio que, segundo as primeiras informações publicadas, envolveu o cedimento do piso e uma altura estimada em 20 metros. Ela estava havia pouco mais de 45 dias na função. A dor, por si só, já seria impossível de medir. Porém, um detalhe ampliou a sensação de abandono: a família aguardou mais de 15 horas para a retirada do corpo do local. Nessa hora, a pergunta aparece sem rodeios: como uma área crítica, que opera sob pressão e risco, permite um intervalo tão longo diante de uma emergência?

Protocolos de emergência portuários: o minuto zero

Um porto não convive com improviso. Cada operação envolve energia, altura, máquinas, correias, empilhadeiras, fluxo de pessoas e metas apertadas. Por isso, o “minuto zero” precisa estar desenhado antes de qualquer incidente: quem aciona, quem isola, quem presta o primeiro atendimento, quem coordena a comunicação com resgate, autoridades e família. Normas brasileiras voltadas à segurança — como a NR-29 (trabalho portuário) e a NR-35 (trabalho em altura) — apontam para a necessidade de planejamento, treinamento e procedimentos de resposta, inclusive com orientação para situações de resgate e emergência. Um plano existe para funcionar no pior dia, não no manual.

Entre perícia e humanidade

Em ocorrências fatais, entram em cena protocolos legais: preservação do local, apuração de responsabilidades, perícia técnica, registros formais. Isso importa e protege a investigação. Ainda assim, a gestão precisa equilibrar rigor com humanidade. Dá para preservar evidências e, ao mesmo tempo, respeitar reduzindo a espera da família, organizar acolhimento, comunicar com clareza e registrar cada passo. Quando o relógio passa de horas para “mais de meio dia”, algo grita na falha de coordenação. Protocolos de emergência portuários não se resumem a ambulância e sirene; eles também tratam de comando, articulação entre empresas e órgãos públicos, e o cuidado com quem fica.

Protocolos de emergência portuários: da teoria à prática

O episódio expõe um ponto sensível: muita empresa treina para evitar acidentes, mas poucas treinam com seriedade para quando a prevenção falha. Simulações realistas, mapa de riscos atualizado, travas e inspeções de passarelas e esteiras, permissões de trabalho, auditorias independentes e cultura de reporte sem medo formam a base. Do lado da resposta, uma cadeia clara de decisão encurta o tempo: liderança no local, brigada preparada, acionamento imediato do socorro, perímetro controlado, contato com a família e logística definida para a liberação. A pressa, aqui, não significa atropelar a lei; significa evitar que a dor vire também humilhação.

O que precisa mudar amanhã cedo

O Porto de Santos move riqueza e sustenta milhares de empregos. Justamente por isso, não pode normalizar lacunas. Cada morte exige investigação, correção técnica e transparência, mas também exige um compromisso público: reduzir risco, treinar resposta e tratar pessoas como pessoas. Se a pergunta “onde estão os protocolos?” ecoou, ela já cumpre uma função: pressionar por prevenção antes que outra segunda-feira termine em silêncio.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.

Declaração de fontes: conteúdo elaborado a partir de informações noticiadas por A Tribuna e g1, somado a referências gerais de boas práticas e normas de segurança do trabalho aplicáveis ao ambiente portuário.

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email