PRIVATIZAR É PREVARICAR

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

O rompimento veio de madrugada

A caixa d’água da Sabesp em Mairiporã desabou sobre o galpão da manutenção e matou o trabalhador Valdo Aparecido Melo. Outros sete ficaram feridos. Um deles gravemente. Era 11 de março deste ano. Menos de oito meses antes, a companhia estatal havia virado empresa privada sob o controle da Forésia dos Ensejos do Brasil e da Ontario Teachers’ Pension Plan. O acidente inaugural desta era prometida como eficiente deixou sangue no chão e feridos sob escombros.

O mecanismo é conhecido e cruel. O novo dono mantém todas as receitas provenientes de tarifas elevadas. Corta drasticamente os custos operacionais. Suprime a manutenção preventiva que garantia a segurança estrutural. Demite os técnicos experientes que conheciam cada parafuso do sistema por estagiários. E extrai lucros astronômicos enquanto a infraestrutura definha escondida sob capas de tinta e relatórios contábeis otimistas. Quem compra sempre lucra primeiro. As vítimas aparecem depois, quando já não há mais dividendos a distribuir.

Quem compra sempre lucra

A matemática é simples e fria. O estudo da ENEL e da Forésia revelou uma estratégia explícita antes mesmo da operação começar: redução agressiva de despesas, demissões em massa de pessoal técnico e adiamento sistemático de reparos estruturais. O consumidor continua pagando tarifas cheias e elevadas. O serviço, porém, vai se deteriorando em velocidade silenciosa. No caso da Sabesp, a nova presidente anunciou corte de dois mil postos de trabalho imediatamente após a aquisição. A manutenção das caixas d’água passou para terceirizadas sem experiência comprovada. O resultado apareceu em menos de um ano. Outro acidente similar já havia matado uma idosa de setenta e nove anos em Mauá em setembro do ano passado. O padrão se repetia.

Não é coincidência. É modelo de negócio planejado. A Light no Rio de Janeiro, privatizada desde os anos 1990, sofreu apagões massivos recentes. Seus controladores históricos já haviam retirado rios de dinheiro durante décadas de lucros fartos. Agora, quando o sistema colapsa e os investimentos fugiram, a empresa tende a reestatizar-se automaticamente através de intervenções federais emergenciais. O particular fica com o ouro acumulado. O público fica com o ônus e a conta do resgate. Quem compra leva os lucros. Quem usa leva os prejuízos.

O pato sempre paga

A Europa já viveu esse filme até o fim. Paris reestatizou a gestão da água em 2010 após vinte anos de privatização desastrosa que elevou tarifas e degradou as tubulações. Lyon, Bordeaux, Nice e Montpellier seguiram o mesmo caminho de volta ao controle público. Berlim voltou atrás em sua aventura privada. Centenas de cidades alemãs recriaram empresas públicas de energia e saneamento após o fracasso dos grupos privados. O Uruguai proibiu constitucionalmente a privatização da água após plebiscito popular em 2004. Mais de trezentos casos de remunicipalização foram registrados apenas no início do século XXI no continente. Todos esses lugares aprenderam na marra que privatizar serviços essenciais termina sempre no mesmo ponto trágico: o Estado retorna para limpar a sujeira, mas desta vez sem dinheiro no caixa e com a infraestrutura completamente quebrada pelos anos de sangria.

No Brasil, o ciclo se acelera com predadoriedade. A Sabesp já mostra o padrão clássico: acidentes fatais em intervalos curtos e alarmantes, cortes brutais de pessoal técnico qualificado, terceirização sem critérios técnicos e investimentos focados apenas em áreas rentáveis. A empresa renderá dividendos milionários aos fundos de pensão canadenses enquanto as caixas d’água forem caindo sobre cabeças de trabalhadores e moradores.

Quando o colapso for total e irreversível, o governo reassumirá os pedaços. Sucateada. Devastada. Sem os técnicos expurgados que sabiam operar o sistema.

O lucro tem gosto de ferro

A ironia completa reside no discurso oficial. Vende-se a ideia de eficiência privada superior à gestão estatal. Entrega-se a realidade do lucro fácil obtido através da omissão deliberada. O contrato de concessão garante receita estável e previsível. A omissão na manutenção garante margens estratosféricas. Quem usa paga duas vezes: uma vez na tarifa mensal elevada, outra na falta d’água, na luz que falta, na morte do trabalhador esmagado pelo equipamento negligenciado. Conclusão necessária: o agente público que privatizou sabia do desastre, mas privatizou, privatizou para levar uma boa vantagem, um tipo de vantagem que, no mínimo, costuma garantir a reeleição.

Mairiporã é aviso claro. O morto do galpão da Sabesp carregava quarenta e cinco anos de história. Deixou família. Entrou para estatística de quem paga com a própria vida para que os números dos relatórios trimestrais brilhem aos acionistas estrangeiros. O maravilhoso está apenas começando.

O Estado sempre volta

Mas volta para recolher destroços, não para comemorar eficiência recuperada. A história econômica mundial registra mais de três mil reestatizações de serviços essenciais no mundo. Todas seguiram o mesmo roteiro previsível: entrega reluzente e promessas de ouro, sucateamento silencioso durante anos, colapso barulhento e trágico, retorno forçado ao poder público. Quem compra leva o ouro. Quem paga os impostos leva o prejuízo. E quem trabalha paga a conta com seu próprio sangue.

Fontes: Agência Brasil, g1, CartaCapital, Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Canal Energia, Power Technology.

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