Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Quando o sigilo vira arma
O Brasil reaprendeu, do jeito mais caro, que investigações podem produzir justiça e, ao mesmo tempo, fabricar poder. O caso Banco Master, que ganhou o noticiário nas últimas semanas, reabriu um roteiro conhecido: informação sensível escapa do lugar onde deveria ficar protegida e vira munição política. No Jornal GGN, Luís Nassif descreve um ponto que quase sempre some do debate: a origem do vazamento. Quem lucra com a fumaça? E, sobretudo, quem responde pela quebra de cadeia de custódia quando a prova “anda” sem explicação?
Nesse ambiente, o embate deixa de girar apenas em torno de decisões judiciais. Ele passa a girar em torno da capacidade de controlar a narrativa. Quando uma corporação ou grupo interno escolhe vazar “a conta-gotas”, ele pauta manchetes, constrange autoridades e cria atalhos para pressionar instituições. A política, então, entra no inquérito pela porta dos fundos.
PF lavajatista contra Toffoli: o ruído
PF lavajatista contra Toffoli não nasce do nada. A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) divulgou nota pública reclamando de decisões do STF no caso Master e alegou “mitigação” de prerrogativas, com ordens sobre prazos, diligências e até escolhas nominais de peritos. Isso amplia o atrito institucional e, ao mesmo tempo, alimenta o noticiário com a ideia de “interferência” permanente.
O risco aparece quando o ruído substitui o método. Em vez de discutir critérios técnicos, discute-se torcida. Em vez de apurar quem quebrou o sigilo, discute-se quem “ganhou” a queda de braço. O país já viu esse filme: operações que crescem sob aplauso público, depois perdem lastro jurídico e deixam terra arrasada.
PF lavajatista contra Toffoli: o lastro jurídico
PF lavajatista contra Toffoli também se apoia em um dado incômodo: Toffoli virou personagem central na revisão de peças da era Lava Jato, especialmente ao tratar de provas e acordos de leniência. Em fevereiro de 2024, decisões atribuídas ao ministro suspenderam obrigações bilionárias ligadas à antiga Odebrecht/Novonor e amarraram a discussão ao acesso ao material da Operação Spoofing — justamente o acervo que expôs bastidores e controvérsias do período.
Depois, em maio de 2024, o ministro reforçou o debate sobre validade probatória ao vedar, em procedimento administrativo na CGU, o uso de elementos vinculados aos sistemas Drousys e MyWebDay, sob o argumento de ilicitudes já reconhecidas em decisões anteriores. Isso mexe com interesses, reposiciona estratégias de defesa e, inevitavelmente, reacende reações corporativas.
O caminho para não repetir 2015
O país não precisa escolher entre “blindar” ministros e “idolatrar” investigadores. Precisa cobrar rotina: apuração séria de vazamentos, responsabilização clara e respeito ao devido processo. A própria história do juiz Ricardo Leite na Zelotes mostra como tensões entre MPF, PF e Judiciário atravessam anos e mudam de sinal conforme o vento político.
Além disso, a Operação Spoofing, aberta no fim de 2019, expôs como mensagens e bastidores viram peças de disputa pública; em 2022, a PF registrou conclusão sobre ausência de mandante e pagamento aos hackers, o que reforça que a briga institucional não se resolve com slogans, mas com prova e procedimento.
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
Declaração de fontes: Artigo elaborado a partir do texto-base do Jornal GGN e de reportagens e análises complementares de veículos e instituições jornalísticas e jurídicas, com destaque para CNN Brasil, Migalhas, Demarest e o especial “Vaza Jato” do Intercept.