José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Guerra às drogas ou guerra aos pobres?
A ação policial no Complexo do Alemão e na Penha, no Rio de Janeiro, novamente tingiu de sangue as vielas de comunidades historicamente negligenciadas pelo Estado. O saldo, como de costume, mistura inocentes e culpados. Mas mesmo os ditos “culpados” – muitos deles jovens armados a serviço do narcotráfico – compõem a base de um sistema internacional de drogas que se estrutura, paradoxalmente, muito longe dos becos aonde a morte chega de farda.
Essas operações, travestidas de combate ao crime, escondem uma lógica geopolítica cruel. O aparato repressivo montado para justificar chacinas, como as recentes no Alemão e na Penha, não nasceu por acaso: remonta à Convenção Única sobre Entorpecentes de 1961, reforçada pelos acordos de 1971 e 1988, que criaram um modelo global de proibição centrado no controle militar e no cerceamento da soberania nacional. Não por menos, os Estados Unidos lideraram
essa cruzada, transformando o “combate às drogas” em um pretexto conveniente para intervir em países periféricos e explorá-los sob o véu da moralidade.
Chacinas com fins eleitorais
As execuções em massa, como bem aponta o artigo do portal Diálogos do Sul, tornaram-se instrumento de campanhas eleitorais. O terror nas favelas funciona como capital político.
Mostrar “pulso firme” rende votos. Os agentes de Estado, longe de erradicar o tráfico, apenas encenam o confronto. Na prática, o verdadeiro poder do narcotráfico não mora no morro. Mora nos bairros nobres, em Copacabana, nas coberturas da zona sul, nos prédios corporativos da Faria Lima e nos corredores do Congresso Nacional.
Esses são os centros nervosos do tráfico internacional. Ali, os grandes consumidores vivem e operam: políticos, empresários, membros da elite intelectual. Nenhum deles jamais viu de perto uma favela. No entanto, financiam com seu consumo cotidiano toda a engrenagem da violência, da corrupção e da morte.
O helicóptero com meia tonelada de cocaína, ligado ao ex-deputado Aécio Neves, terminou sem condenações relevantes. O piloto pagou a conta. Casos como o do ex-ministro Blairo Maggi também evocam a seletividade do sistema penal. Enquanto isso, jovens negros morrem aos montes, como peões descartáveis de um tabuleiro que não controlam.
A elite é o real chefão
A repressão nas comunidades não atinge os donos do jogo. Ela serve para manter a aparência de combate, ao mesmo tempo em que elimina corpos incômodos e produz lucro político. Lula tentou denunciar isto recentemente, mas infelizmente tropeçou nas palavras e acabou atacado por todos, porque quase ninguém pôde entender o que ele realmente tentou falar, referindo-se às vítimas da repressão naval americana sob ordens de Donald Trump. De qualquer forma, a fala foi abafada. Não convenia apontar o dedo para os centros consumidores.
No cinema, o filme Tropa de Elite deixou escapar essa verdade incômoda. Enquanto mostrava com crueza a realidade das operações nos morros, apontava – ainda que sutilmente – o estudante universitário, branco e rico, como um dos grandes vilões. O consumidor, afinal, é quem financia o sistema.
Enquanto isso, no asfalto, o consumo corre solto. O ciclo se retroalimenta: o centro consome, a periferia morre. E o Estado, ora cúmplice, ora executor, segue escolhendo quem deve viver e quem pode ser descartado.
Repressão seletiva e impunidade estrutural
A atual política de drogas não combate o tráfico – apenas o administra. O Estado reprime a ponta mais fraca da cadeia e mantém intacta a estrutura de lucro nas elites. A guerra às drogas, nos moldes em que se apresenta, é antes uma guerra contra os pobres. Contra os negros. Contra os invisíveis.
Mataram no Morro do Alemão e Penha inocentes e culpados, culpados de fazer parte da base de um grande esquema de tráfico de drogas. Mas os verdadeiros culpados – os donos do helicóptero, os consumidores da Faria Lima, os operadores internacionais do sistema – seguem
ilesos, protegidos por um manto de hipocrisia institucional.
Essa guerra, portanto, é uma farsa trágica. Um teatro de horrores em que os atores principais jamais sobem ao palco. Só os figurantes sangram. Os políticos que a empreendem o fazem por motivos obscuros, mas este é assunto para outro artigo.
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
Declaração de Fontes: “As informações contidas neste artigo foram obtidas a partir de fontes confiáveis e verificadas, como o portal Diálogos do Sul, documentos da ONU sobre política internacional de drogas, além de dados jornalísticos de veículos como El País Brasil, CartaCapital e UOL Notícias.”