Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Publicado no Jornal GGN em 03 de março de 2026
Sábado, 28 de fevereiro de 2026. Às 5h20 da manhã, enquanto o Brasil ainda dormia embriagado pelo recente carnaval, Donald Trump declarava guerra ao Irã. Não foi através de um comunicado oficial da Casa Branca. Foi num vídeo postado nas redes sociais. A banalização do apocalipse é o primeiro sinal dos tempos.
A justificativa era a mesma de sempre: eliminar uma ameaça existencial. Desta vez, a ameaça tinha nome de programa nuclear iraniano. O problema é que as negociações sobre esse programa estavam avançadas quando Israel decidiu que a diplomacia custava caro demais. O petróleo é o sangue que alimenta as guerras do império. E o Irã senta sobre as maiores reservas do planeta, fora do controle direto de Washington.
O ataque preventivo que previne o perigo que não há
Esta não é a primeira vez que o império escolhe a violência no momento exato em que a paz parece possível. Em 2024, Israel já havia bombardeado o Irã quando as negociações anteriores mostravam progresso. Agora, em 2026, a repetição do roteiro é quase obscena na sua previsibilidade. Os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação conjunta que Trump batizou de “Rugido do Leão”. O nome é poético. A realidade é cirúrgica: destruição das instalações nucleares, assassinato de comandantes militares, tentativa de decapitação do regime.
O Irã respondeu com mísseis balísticos contra Israel e ataques à base militar americana no Bahrein. O Yemen entrou no conflito. O Líbano tremia. O que começou como operação localizada transformava-se em guerra regional diante dos nossos olhos. E os olhos do império podem estar focados em ponto distante: Quem controla o Irã controla o estreito de Ormuz. Quem controla Ormuz controla o fluxo de energia para a… China!
A geopolítica do sangue e do óleo
Não nos enganemos, estamos mesmo diante de um início possível da terceira guerra mundial. Não é exagero retórico. É diagnóstico frio de quem estuda o sistema-mundo há décadas. O Oriente Médio foi sempre o centro vital da humanidade. De lá saíram as religiões que moldaram civilizações. De lá podem sair as cinzas que as destruirão.
O Irã é diferente da Venezuela. Diferente da Síria. Diferente do Iraque. É uma teocracia com forte componente nacionalista e uma história de resistência que remonta às Cruzadas. O xadrez geopolítico é mais complexo. Os EUA não podem invadir diretamente a China. Não conseguem derrotar a Rússia na Ucrânia. Então atacam os pontos de sustentação da multipolaridade: primeiro a Venezuela, agora o Irã.
A estratégia é transparente. Asfixiar a China no fornecimento de petróleo.
Controlar as rotas energéticas. Neutralizar os BRICS um a um. A Rússia já está presa na guerra ucraniana, dependente de Washington para qualquer negociação de paz. A Venezuela foi neutralizada com a captura de Maduro. Cuba agoniza no limiar do colapso. Resta o Irã. Lembrando que o petróleo é o sangue que alimenta as guerras do império. Sem ele, a máquina para.
A tecnologia da dominação
Esta guerra é mesmo muito diferente das anteriores. Elon Musk mobilizou seu sistema de satélites Starlink para neutralizar qualquer reação iraniana. O Pentágono utilizou a Anthropic, (fundada por ex-executivos da OpenAI, que desenvolveu a Claude) programa de inteligência artificial considerado o mais avançado para fins militares, dando ultimato até sexta-feira para que o Irã se rendesse ou fosse considerado obstáculo ao desenvolvimento americano. A guerra cibernética precedeu a guerra convencional. Isso também porque as primeiras mortes em Teerã não foram causadas pela Guarda Revolucionária.
Foram causadas por agentes infiltrados da Mossad e da CIA, armados e posicionados para simular levantamento popular.
Benjamin Netanyahu, em discurso que misturava mentiras velhas com promessas messiânicas, agradeceu a Trump pela liderança histórica. Colocou Israel e Estados Unidos como vítimas da mesma agressão. Mentiu ao dizer que os aiatolás gritaram “morte à América”. Nunca aconteceu. A retórica da vítima é o escudo do algoz. A operação conjunta, segundo ele, criaria condições para que o povo iraniano tomasse as rédeas do destino. Tradução: substituir um regime independente por um fantoche, como fizeram em 1953 com Mossadegh.
O Brasil e a omissão continental
Enquanto isso, o Brasil assiste. Lula, que deveria ser a voz da América Latina, hesita. O governo brasileiro cometeu erros estratégicos graves. Vetou a entrada da Venezuela nos BRICS. Não reconheceu a vitória de Maduro em 2024. Manteve relações cordiais com Trump enquanto o império destruía nações. Agora, diante do ataque ao Irã, a posição é de cautela. Não de condenação. Não de ruptura. De cautela.
A explicação é política. Lula enfrenta eleições em 2026. Não tem base sólida no Congresso. Teme sanções econômicas que asfixiariam o governo. Teme a reação das Forças Armadas, alinhadas aos interesses norte-americanos. Teme a mídia corporativa, controlada por grupos simpáticos a Israel. Teme as igrejas evangélicas, que fazem lavagem cerebral ideológica e saem às ruas com bandeiras de Israel. O medo é compreensível. Mas é também suicida.
O Brasil deveria estar enviando petróleo e alimentos para Cuba neste momento. Deveria liderar uma posição continental de solidariedade. Deveria dizer a Trump que há linhas vermelhas na América Latina. Cuba é uma delas. O Irã, como membro dos BRICS, deveria ser outra. A omissão é cumplicidade. E, não esqueçamos, o petróleo é o sangue que alimenta as guerras do império. O Brasil tem reservas. O Brasil tem soberania energética. O Brasil tem responsabilidade histórica.
A multipolaridade em risco
A China assiste isolada. Aprovou o maior orçamento militar de sua história. Sabe que está na mira. Sabe que a destruição do Irã é etapa para o confronto direto. Os Estados Unidos não querem multipolaridade. Querem unipolaridade ou, na pior das hipóteses, bipolaridade controlada. Negociarão com a Rússia sobre a Ucrânia. Negociarão com a China sobre tarifas. Mas destruirão todos os atores secundários que ousarem desafiar a ordem.
A Europa está perdida. Submissa. Armando-se para uma ameaça russa que não existe, enquanto aplaude a destruição do Irã. A União Europeia é hoje um fantoche de Washington, incapaz de posição autônoma. Os países árabes estão neutralizados. O Egito é recipiente de ajuda militar americana. A Arábia Saudita compra F-35 e fecha os olhos. A Turquia, membro da NATO e país islâmico, observa em silêncio o incêndio.
Resta saber se o Irã resistirá. Se o povo iraniano, apesar das dificuldades econômicas causadas por décadas de sanções, manterá a unidade nacional diante da agressão externa. Se os BRICS conseguirão articular resposta coletiva. Se haverá Copa do Mundo em 2026. Se haverá mundo em 2026.
O que resta após o sangue
A guerra é o continente da política por outros meios, dizia Clausewitz. Mas quando a política morre, apenas a morte continua. O ataque ao Irã não é sobre armas nucleares. É sobre controle de recursos. É sobre manutenção da hegemonia. É sobre impedir que o século XXI seja multipolar. O petróleo é o sangue que alimenta as guerras do império. E o império está disposto a derramar todo o sangue necessário para manter seu trono.
O Brasil precisa acordar do carnaval. Precisa entender que a neutralidade é impossível quando o fogo se espalha. Precisa escolher: será país soberano ou será colônia de consumo? O tempo das escolhas acabou. A guerra bate à porta. E o sangue já escorre.
José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
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