O MÉTODO DA CONTA PESSOAL 

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*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

O Conselho Deliberativo do Corinthians julga na segunda-feira, 25 de maio, um homem  e um hábito. Andrés Navarro Sanchez, presença vitalícia no Conselho suspensa desde  outubro do ano passado, enfrenta a votação que pode expulsá-lo do clube. A Comissão  de Ética já se manifestou por unanimidade no dia 13 de abril. O relator Leonardo  Pantaleão recomendou a pena máxima. Nove conselheiros exigiram votação aberta e  nominal, entre eles Citadini, Perino, Athiê e nosso companheiro da Chapa 55-Paixão Corinthiana, o combativo Libanês. Quem votar a favor de Sanchez terá de encarar esses nomes. 

A informalidade que virou sistema 

Sanchez responde a acusações do MP-SP por apropriação indébita, lavagem de dinheiro  e falsidade documental. O cartão corporativo do Corinthians pagou 31 faturas entre  agosto de 2018 e fevereiro de 2021. São mais de duzentos lançamentos somando R$  480.169,60 com correção monetária e juros. Hotéis, restaurantes, lojas de móveis, joias,  vestuário, clínicas, hospitais e passagens aéreas. A defesa invoca o que chamou de  “ambiente institucional de informalidade pretérita”. O eufemismo esconde uma verdade  incômoda: a fronteira entre o cofre do clube e o bolso do dirigente dependia do bom  senso de quem ocupava a cadeira. Ninguém escreveu uma regra porque ninguém achou  necessário. 

O argumento da defesa cai por terra num detalhe. Sanchez usou o cartão corporativo  numa viagem de Réveillon e gastou R$ 9.416. Depois alegou que confundira o plástico  do clube com o cartão pessoal. Erros acontecem, mas a confusão só é possível quando  os dois caminhos levam ao mesmo lugar. Quando a presidência funciona como conta  pessoal, a distração deixa de ser acidente e vira rotina. É preciso entrar em um novo  ciclo. 

Três gestões, um mesmo método 

Sanchez comandou o Corinthians em três mandatos. O grupo Renovação e  Transparência manteve o poder por dezesseis anos. Nesse período, a passagem do cargo  de um aliado para outro nunca alterou a lógica de gestão. Duílio Monteiro Alves, filho  de Adilson Monteiro Alves, herdou a presidência em 2021 e a devolveu em 2023. Em  março de 2026, a juíza Elaine Cristina Vieira Gonçalves, da 15ª Vara Criminal de São  Paulo, aceitou denúncia e o tornou réu por apropriação indébita. R$ 41.822,62 do  cartão corporativo viraram restaurantes, salão de cabeleireiro, freeshops, loja náutica,  hotéis. A defesa de Duílio repete o mantra dos gastos compatíveis com atribuições  institucionais.

Já com Augusto Melo a coisa é diferente. Existem sim acusações contra ele que o  levaram ao impeachment em agosto de 2025. Agora, acusações são uma coisa, muitas  vezes motivadas por interesses políticos, fato consumado como do Sanches e do Duílio é  bem outra. Passou o tempo e até hoje nada se provou conto o Augusto, algo que me faz  continuar acreditando na sua integridade. 

O balanço entregue em abril de 2025 mostra uma dívida bruta de R$ 2,568 bilhões. O  faturamento bateu recorde em 2024, R$ 1,1 bilhão, e mesmo assim o déficit alcançou  R$ 181,7 milhões. Osmar Stabile ocupa a presidência interina e herdou uma instituição  que fatura como nunca e deve como sempre. 

Quando a presidência vira conta 

A sessão de segunda-feira não é vingança. Nove conselheiros pediram voto aberto para  que cada posição receba o nome de quem a tomou. A escolha diante deles funda uma  norma ou ratifica uma prática. Se Sanchez permanecer no Conselho Deliberativo, a  mensagem chegará antes do veredicto escrito: a próxima informalidade pretérita já  conta com carta branca. O clube que inventou a democracia no futebol brasileiro  precisa decidir se a impessoalidade vira regra viva ou se continua como decoro  opcional. Um voto isolado não muda um método. Mas o silêncio do Conselho  Deliberativo certamente o autoriza. 

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

Saiba mais sobre o autor

Este artigo foi produzido com base em dados do processo do Conselho Deliberativo do  Corinthians, informações do Ministério Público de São Paulo e balanços financeiros  oficiais do clube. 

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