Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político
O filme que nos escolheu
Em “Atração Fatal”, a clássica cena do coelho na panela resume uma verdade incômoda: a personagem não invadiu uma casa alheia ao acaso. Ela encontrou a porta aberta porque alguém, em algum momento, deixou entrar. O mesmo vale para a política. Bolsonaro e Trump não caíram do céu. Eles surgiram porque a sociedade estava pronta para recebê-los. Como disse a personagem de Glenn Close: “Não sou eu que estou aqui. É você que me trouxe”.
O bolsonarismo não nasceu do nada. Ele é fruto de um terreno fértil preparado por décadas de desigualdade, de medo do outro e de uma alimentação sistemática do “lobo mau” que existe em cada um de nós. A sociedade brasileira, longe de ser vítima inocente, foi cúmplice ativa da criação do monstro.
Big techs e a engenharia do ódio
As plataformas digitais não criaram o bolsonarismo. Apenas deram a ele o megafone perfeito. David Nemer, pesquisador da Universidade da Virgínia, documentou em seu livro “A Máquina do Caos” como as big techs lucram diretamente com o ódio que circula em suas redes. Os algoritmos, aqueles juízes invisíveis do que vemos e do que ignoramos, foram desenhados para maximizar o engajamento. E nada engaja mais que a raiva.
Helena Junqueira, gerente sênior do Ipsos, alerta que as redes sociais formam bolhas digitais onde o contraditório não entra. Estudos recentes da Universidade Stanford demonstram que simplesmente reordenar o conteúdo exibido nas plataformas já altera significativamente a polarização afetiva dos usuários. Ou seja: a tecnologia não reflete nossa divisão. Ela a amplifica, a endurece, a transforma em algo visceral.
No Brasil, as redes passaram a ser plataforma central de campanhas a partir de 2010. Desde então, vimos a política migrar das ruas para as telas. E nas telas, quem grita mais alto ganha. Quem mente com convicção viraliza. Quem desumaniza o adversário colhe likes.
A sociedade que pediu o prato
Mas a culpa não é exclusiva das plataformas. Pesquisadores da área de ciência política apontam que, mesmo quando algoritmos oferecem informação diversa, o usuário prefere consumir o que confirma suas crenças prévias. Nós somos os arquitetos de nossas próprias prisões digitais. As big techs apenas cobram o aluguel.
O bolsonarismo soube ler isso com precisão cirúrgica. Ele não inventou o antipetismo, o medo do crime, o ressentimento de classe. Ele apenas organizou esses sentimentos dispersos em uma narrativa coerente, com inimigos claros e um salvador messiânico. Como aponta análise acadêmica recente, o movimento conseguiu articular hegemonicamente demandas coletivas em torno de um discurso reacionário, transformando indignação em onda pró-bolsonarista.
Os “templários digitais”, grupos de extrema direita nascidos dos fóruns virtuais, criaram o ambiente emocional de medo e ódio que impulsionou o fenômeno. Importaram métodos da alt-right norte-americana: teorias conspiratórias, linguagem violenta, memes de alto poder de viralização. E a sociedade brasileira, ávida por explicações simples para problemas complexos, sorveu a isca toda em uma única mordida.
A geração do lobo mau
Há algo de profundamente infantil na forma como nos relacionamos com a política contemporânea. Criamos um “lobo mau” externo — o comunista, o petista, o globalista — para não enxergar o lobo que habita nosso próprio quintal. A metáfora do filme cabe aqui: não estamos lidando com um invasor, mas com uma versão exagerada de nós mesmos.
O bolsonarismo é, antes de tudo, um espelho. Ele reflete nossa intolerância, nossa sede de ordem autoritária, nossa dificuldade em conviver com a diversidade. Como lembra estudo da Fundação Friedrich Ebert, o movimento reúne desde empresários até evangélicos, de policiais a militares, numa frente híbrida unida pelo nacionalismo cristão. Essa coalizão não surgiu por obra de um mágico. Ela estava ali, adormecida, esperando o gatilho certo.
A responsabilidade que não foge
Reconhecer que a sociedade é cúmplice de seus líderes não significa absolvê-los. Bolsonaro responde por crimes cometidos. Mas significa tirar a venda. Significa parar de nos comportar como vítimas inocentes de uma conspiração externa. Nós, brasileiros, produzimos o terreno onde o bolsonarismo floresceu. As big techs apenas o irrigaram.
A saída não está em regular apenas as plataformas, embora isso seja urgente. Está em educar para o pensamento crítico, em fortalecer a democracia participativa, em criar antídotos contra a sedução do discurso simplificador. O lobo mau não morre com regras de moderação de conteúdo. Ele morre quando deixamos de alimentá-lo.
O filme continua
“Atração Fatal” termina com a morte da personagem. Mas o medo que ela representava permanece. No caso brasileiro, o bolsonarismo pode perder eleições, mas seus ingredientes — a polarização, o ódio algorítmico, a busca por salvadores — permanecem ativos. A sociedade que o gerou continua a mesma.
A pergunta que fica é simples: estamos dispostos a fechar a porta? Ou vamos, uma vez mais, deixar que o lobo entre, porque parte de nós ainda deseja sua presença?
Declaração de fontes: Este artigo utilizou pesquisas acadêmicas sobre polarização política e redes sociais, incluindo estudos da Universidade Stanford, análises do pesquisador David Nemer, relatórios do Ipsos e literatura especializada sobre o bolsonarismo disponível em repositórios acadêmicos brasileiros.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente – Frente pela Volta das Ferrovias – e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.