O lamaçal da política do Guarujá não tem fundo

*José Manoel Ferreira Gonçalves

Durou pouco a calmaria na política do Guarujá. Para desagrado da população, os governantes da cidade voltam a ser destaque nas páginas policiais.

Desde o ano passado, quando foi deflagrada a Operação Nacar, que investigou e colheu evidências de desvio de recursos que deveriam ser destinados à saúde por parte do Executivo, pairam nuvens sombrias sobre a administração do atual prefeito.

Agora, a Polícia Federal, em ação integrada com a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Tribunal de Contas da União (TCU), volta a carga com a segunda fase da operação, aprofundando as investigações que apuram fraudes em contratações realizadas pela prefeitura do Guarujá, não apenas na área da saúde, mas também na educação.

Ao todo, 55 mandados de busca e apreensão foram realizados. Além de examinar desvios de recursos públicos, o objetivo da PF com a ação é elucidar crimes de corrupção e outras graves irregularidades envolvendo verbas federais.

Ainda de acordo com a PF, dentre as medidas determinadas pela Justiça Federal estão o bloqueio de mais de R$ 110 milhões de bens e valores de envolvidos, além do afastamento de ocupantes de cargos comissionados e eletivos de suas funções. Eles podem responder pelos crimes de peculato, corrupção ativa e passiva, fraude em licitação, organização criminosa e lavagem de dinheiro. As penas, se somadas, podem variar de 12 a 46 anos de prisão.

Em 2021, na qualidade de eleitor e em nome de todos que se indignaram com as descobertas da Nacar, estivemos à frente do pedido de impeachment do prefeito. À época, a Câmara Municipal aceitou por unanimidade nossa representação. Porém, três meses depois, decidiu arquivar a denúncia, mesmo tendo a PF apontado o prefeito como provável líder de uma organização criminosa, ao término das diligências iniciais. Suman permanece no cargo, bem como alguns de seus secretários, também citados nas investigações.

O modus operandi da quadrilha envolve o uso de contratos de elevado valor com a OS Pró-Vida para irrigar os recursos que deveriam ser destinados a setores prioritários, caixa dois, vantagens pessoais como apartamento e veículo à disposição dos envolvidos, contratação de funcionários-fantasmas e toda a sorte de procedimentos espúrios (quem quiser mais detalhes escabrosos do processo pode consultar o documento ID 163020039, peça-chave da investigação, às páginas 13 a 40).

O enredo de desprezo ao interesse público é o mesmo, mas, dessa vez, não deixaremos que a política do Guarujá siga contaminada por práticas que enxovalham a imagem da cidade.

Entramos com novo pedido de impeachment junto à Câmara Municipal, reforçando todos os pontos que já haviam sido perfilados na primeira denúncia, e acrescentando ao requerimento as novas evidências de quebra de decoro e crime de responsabilidade.

É preciso retirar a política do Guarujá do noticiário policial e passar a limpo mais esse escândalo. É hora de revirar e expor tudo o que está por baixo desse lamaçal.

José Manoel Ferreira Gonçalves é mestre e doutor em engenharia, pós-graduado em Ciência Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, integrante do Engenheiros pela Democracia e presidente da Ferrofrente e da Aguaviva, Associação Guarujá Viva.