Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
A propaganda política custa caro no Brasil. Quando veste roupa de cinema, custa ainda mais. O filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, traçou uma rota de arrecadação que mistura contratos públicos, emendas parlamentares e doações nas sombras. O resultado é um orçamento de cento e trinta e quatro milhões de reais, o triplo do valor de Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar. Não é apenas um filme. É uma máquina de captação de recursos disfarçada de produção cultural.
Quando o dinheiro do tráfico vira filme
Karina Ferreira da Gama é a única sócia da Go Up Entertainment, produtora do Dark Horse. Ela também preside o Instituto Conhecer Brasil, uma ONG sem experiência em telecomunicações que fechou contrato de cento e oito milhões de reais com a Prefeitura de São Paulo para instalar cinco mil pontos de wi-fi. O edital teve vinte irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas do Município. O ICB foi a única entidade a apresentar proposta. A prefeitura pagava mil e oitocentos reais por ponto ao instituto de Karina, enquanto a empresa pública Prodam fazia serviço equivalente por duzentos e trinta.
Dos cinco mil pontos, apenas três mil e duzentos foram instalados. Três aditivos inflaram o valor de quarenta e três milhões para sessenta e nove milhões, uma diferença de vinte e seis milhões pagos a mais por serviço deficitário. O ICB emitiu nota fiscal de um milhão e duzentos mil reais para si próprio. A Academia Nacional de Cultura, outra ONG de Karina, recebeu dois milhões e oitocentos mil em emendas de deputados do PL. Apenas Frias, deputado do PL e produtor executivo do filme, destinou dois milhões ao ICB. Flávio Bolsonaro garantiu zero de dinheiro público no filme. Todos os documentos o contradizem.
Vossas excelências
Enquanto o dinheiro do tráfico irrigava a produção cinematográfica, o Congresso trabalhava em outra frente. A PEC da Blindagem foi aprovada na Câmara em dezesseis de setembro de dois mil e vinte e cinco, com trezentos e cinquenta e três votos. O texto permite ao Legislativo barrar processos criminais no STF e suspende prisões. Só não passou no Senado porque a pressão popular foi insuportável.
Guilherme Derrite, apadrinhado de Tarcísio de Freitas, assumiu a relatoria do PL Antifacção. O texto alterou artigos que davam poder à Polícia Federal e retirou trezentos e sessenta milhões por ano dos fundos de combate ao crime. Alcolumbre pediu proteção ao governo contra a Polícia Federal. Lula negou. Os parlamentares responderam no mesmo instante: rejeitaram a indicação de Jorge Messias ao STF e derrubaram o veto ao PL da dosimetria, beneficiando Bolsonaro.
Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador das campanhas de Bolsonaro e de Tarcísio. Um banco, um filme, uma prefeitura, uma blindagem. O roteiro se fecha com precisão. Quem financia o crime vira produtor. Quem desvia dinheiro público vira produtora. Quem deveria ser investigado vira senador. O Brasil não precisa de cinemas para ver cinema.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
Fontes: Intercept Brasil, Poder360, Folha de São Paulo, Metrópoles, Tribunal de Contas do Município de São Paulo, Ministério Público de São Paulo, Câmara dos Deputados, Brasil 247, Revista Fórum, documentos judiciais e reportagens da imprensa nacional.