Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel
A carta da discórdia
Romeu Tuma Júnior resolveu queimar os últimos cartuchos. Em nota oficial repleta de retórica lesionada, o presidente do Conselho Deliberativo do Corinthians acusou Augusto Melo de promover um “golpe institucional”. A ironia escapa ao autor do texto. O mesmo homem que há meses obstrui investigações sobre gestões anteriores agora se vitimiza porque o clube finalmente tenta cobrar transparência. A leitura do documento revela um padrão claro: para Tuma Júnior, as regras servem apenas como escudo pessoal, nunca como instrumento de governança coletiva.
Quando o Estatuto só vale
A história recente do Corinthians registra tentativas sistemáticas de blindagem. Desde que assumiu a presidência do Conselho, Tuma Júnior transformou o cargo em bunker defensivo. Ele bloqueia acessos a documentos, atrasa prestações de contas e, quando pressionado, invoca o Estatuto como se este fosse propriedade privada. Acontece que o regimento não é cardápio à la carte. Não se pode escolher os artigos que convém cumprir enquanto se ignoram aqueles que exigem transparência. A conduta do dirigente sugere uma interpretação curiosa: o regulamento existe para proteger seus ocupantes, jamais para responsabilizá-los.
A tentativa de convocação extraordinária que Tuma Júnior classifica como “golpista” segue, na verdade, o rito democrático básico de qualquer instituição séria. O presidente Augusto Melo, eleito pelo voto direto dos sócios, encontrou resistência feroz cada vez que tentou implementar a reforma estatutária prometida em campanha. A proposta, que prevê maior fiscalização sobre gastos e limitação de mandatos nos órgãos deliberativos, ameaça exatamente o tipo de eternização que Tuma Júnior parece defender. Daí a urgência em pintar o debate legítimo como ruptura institucional.
Onde o constrange é sempre dos outros
A nota oficial de Tuma Júnior omite detalhes inconvenientes. Não menciona que ele próprio já foi alvo de denúncias por obstrução de investigações internas. Silencia sobre o fato de que a Comissão de Ética que agora invoca permanece paralisada por seus aliados. E esquece de explicar por que, se tudo é tão legal quanto afirma, recusa-se tanto a abrir os livros de contabilidade das gestões anteriores. O discurso se resume a uma acusação circular: quem investiga comete crime, quem se recusa a prestar contas exerce soberania.
O Corinthians vive momento crucial. A Assembleia Geral de 18 de abril definirá se o clube segue como propriedade de uma casta intocável ou retorna aos sócios. Augusto Melo enfrenta resistência de quem tem mais a perder com a luz do que com a sombra. A tentativa de destituição de Tuma Júnior não representa vingança pessoal, mas correção de rota necessária. Ninguém está acima do estatuto, exceto, parece, aquele que o invoca para se proteger.
A hora da accountability
O Sport Club Corinthians Paulista precisa romper com a lógica dos privilégios eternos. A crise atual não nasceu de divergências táticas sobre futebol, mas da recusa de ceder espaço à transparência. Tuma Júnior construiu carreira política dentro do clube baseada em controles e travessias. Agora que o vento muda, descobre que a democracia exige alternância, não propriedade vitalícia de cargos. O afastamento do presidente do Conselho Deliberativo deixa de ser desejo de vingança para tornar-se imperativo institucional. O Corinthians merece dirigentes que não vejam o Estatuto como escudo pessoal, mas como contrato social com sua torcida.
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva e coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD).
Fontes: Nota oficial de Romeu Tuma Júnior (2025); reportagens sobre crise institucional do Corinthians (maio/2025); proposta de reforma estatutária do clube; registros de sessões do Conselho Deliberativo.