O Estado brasileiro gasta bilhões com big techs enquanto sacrifica sua soberania digital nas mãos de lobistas

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

O custo da rendição

Há algo de profundamente equivocado num país que gasta R$ 10 bilhões por ano com licenças de software estrangeiras enquanto fecha Fatecs e Etecs por falta de verba. Esse é o retrato que pesquisadores da USP, da UnB e da FGV traçaram em estudo inédito divulgado em julho de 2025. Entre 2014 e 2025, o Brasil despejou R$ 23 bilhões em contratos com Microsoft, Oracle, Google e Red Hat. Só a Microsoft abocanhou R$ 3,27 bilhões. O dinheiro público alimenta corporações do Vale do Silício em vez de ciência nacional.

A ironia é cruel. O governo federal discute soberania digital em palanques, mas assina cheques milionários para as mesmas empresas que ameaçam essa mesma soberania. Ergon Cugler, pesquisador da FGV com livros publicados sobre o tema, e fonte para tudo que exponho aqui, resume a contradição: pagar licenças estrangeiras é viver de aluguel digital. Se um botão for apertado em Seattle ou Mountain View, políticas públicas brasileiras podem parar no mesmo instante.

A Palantir no FNDE

A surpresa, porém, não fica nos números. Fica nos nomes. Em março de 2024, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) contratou a Palantir Technologies para gerenciar dados do transporte escolar rural. Sim, a Palantir, empresa criada por Peter Thiel, cofundador do PayPal e financiador da extrema-direita norte-americana. A mesma que presta serviços à CIA, ao MI6 (Serviço Secreto de Inteligência do Reino Unido) e ao Mossad (serviço de inteligência nacional de Israel). A mesma que desenvolveu o sistema de rastreamento de imigrantes para a ICE, a execrável polícia migratória dos Estados Unidos.

Sérgio Amadeu, professor e sociólogo, denunciou o caso nas redes sociais. A contratação ocorreu sem licitação, por meio do marketplace da Amazon Web Services (AWS), parceira do Serpro. O FNDE afirma que não há dados sensíveis envolvidos e que tudo está hospedado no Brasil. O Serpro, por sua vez, diz não saber onde ficam os dados, já que não gerencia a solução. Uma autarquia federal entrega a gestão de informações públicas a uma empresa submetida ao Cloud Act norte-americano, que autoriza Washington a requisitar dados armazenados em qualquer lugar do planeta. E chama isso de inovação.

Big techs no governo Lula

O problema não é apenas tecnológico. É estrutural. O governo Lula manteve e ampliou a dependência das big techs. Entre janeiro de 2023 e junho de 2025, as três esferas de governo contrataram R$ 5,97 bilhões em licenças de software, R$ 9 bilhões em nuvem e R$ 1,91 bilhão em segurança digital de fornecedores estrangeiros. A retórica da soberania digital colide com a prática orçamentária. Cada contrato fechado com uma multinacional é uma porta fechada para startups brasileiras, institutos públicos e universidades que já têm competência técnica para entregar soluções de ponta.

A infiltração vai além dos contratos. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi aos Estados Unidos e voltou com o plano ReData – Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter. Na prática trata-se de isenção fiscal para big techs instalarem data centers no Brasil. A proposta significa que uma padaria paga imposto, mas uma corporação do Vale do Silício não. O ministro da Educação, Camilo Santana, lançou um data center do TikTok em Caucaia, no Ceará. Não para melhorar escolas ou hospitais. Para abastecer a plataforma de vídeos curtos.

A face do inimigo

Não se trata portanto de mero corporativismo tecnológico. Há uma agenda política em marcha. Em novembro de 2025, o Movimento Brasil Livre (MBL) recebeu em seu congresso nacional, com todas as honrarias, Curtis Yarvin. Ideólogo do neorreacionarismo, Yarvin defende a substituição da democracia por uma “tecnomonarquia” administrada por um CEO. Propõe a eliminação de pessoas com deficiência e a manutenção de grupos raciais em condição de servidão. Chama universidades e imprensa de “a Catedral”, inimiga a ser destruída.

Yarvin não veio ao Brasil por acaso. Peter Thiel, seu financiador, é dono da Palantir. Thiel é conselheiro direto de Donald Trump na Casa Branca. A relação entre Casa Branca, extrema direita e big techs forma um campo fascista repaginado, digital. A IA com bigode, como alguns a chamam.

O MBL, ao abraçar Yarvin, revela a face de sua agenda. O mesmo grupo que invadiu salas de aula para ameaçar professores agora importa teorias que pregam o fim da democracia. Renan Santos, presidente do recém-criado Partido Missão, posou ao lado do guru reacionário. A vereadora Amanda Vettorazzo agradeceu sua presença em português e inglês.

A trama se fecha

A conexão entre os extremistas norte-americanos e o aparato estatal brasileiro não é metáfora. É fatura. A Palantir, empresa de Thiel, opera no FNDE. A AWS, parceira do Serpro, abriga a Palantir em seu marketplace. O governo federal gasta R$ 10 bilhões por ano com big techs em vez de investir em tecnologia própria.

Quem precisa de golpe militar quando se tem um CEO de big tech no Conselhão da República? A pergunta não é retórica. A CEO da Amazon, por exemplo, integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do governo Lula. Ex-executivos da Meta ocupam cargos no Ministério da Fazenda. O lobista digital troca o terno corporativo pelo crachá do serviço público e ninguém estranha.

O preço da vigília

O Brasil não está sendo invadido por tanques. Está sendo colonizado por algoritmos. A diferença é que o tanque pelo menos faz barulho. O contrato de licença de software entra silencioso, assinado em gabinete climatizado, com a benção de quem deveria proteger o interesse nacional.

A saída exige coragem política. Transformar demanda pública em motor de desenvolvimento nacional. Financiar datacenters brasileiros, ciência aberta, segurança digital sob jurisdição própria. Gerar empregos qualificados em vez de transferir riqueza para o exterior.

O estudo da USP, da UnB e da FGV quantificou o problema. Agora falta quem tenha a coragem de romper com a lógica que aprisiona a máquina pública. O Brasil tem cérebros, infraestrutura e rede pública qualificada para oferecer alternativas robustas. O que falta é a decisão estratégica de investir no que é nosso antes que o aluguel digital se torne uma hipoteca impagável.

Fontes: CartaCapital, edição de 17 de dezembro de 2025; Intercept Brasil, 8 de julho de 2025; Jornal da USP, 14 de julho de 2025; Rádio Câmara, 19 de agosto de 2025; Wikipédia e ICL Notícias, novembro e dezembro de 2025.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador Licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

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