Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Fabiano Zettel desembolsou dois milhões de reais para a campanha de Tarcísio de Freitas em outubro de 2022. O valor consta no portal do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se da maior doação feita por uma pessoa física ao então candidato do Republicanos. Zettel é cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A instituição hoje está sob liquidação extrajudicial e sob investigação da Polícia Federal.
A Operação Compliance Zero, deflagrada em 2025, apontou Zettel como operador financeiro de um esquema que desviou recursos do Master. A Super Empreendimentos, empresa usada na engenharia financeira do banco, repassou quase quinhentos milhões de reais a ele. Zettel tentava embarcar para Dubai quando a PF o interceptou em Guarulhos. A defesa alega viagem de negócios. A polícia garante que era fuga.
O governador nega vínculo com o generoso doador. Sua assessoria afirma que a campanha foi aprovada pela Justiça Eleitoral. Mas o calendário não se deixa enganar. Doação milionária em outubro de 2022. Vitória no mesmo mês. Em abril de 2024, o governo privatiza a Emae. Em julho de 2024, desestatiza a Sabesp. As duas empresas viraram alvo de executivos ligados ao Banco Master e a Nelson Tanure, que é cada vez mais considerado a eminência parda do Master, acima do Vorcaro.
Água limpa, negócio podre
Bem, Nelson Tanure surge nos documentos como beneficiário final do Fundo Phoenix, criado em janeiro de 2024 para arrematar a Emae. O fundo usava ações da Ambipar como garantia. Papéis que estranhamente valorizaram mais de setecentos por cento entre abril e outubro de 2024. A CVM suspeita de manipulação artificial do preço para sustentar a compra da estatal. Tanure pagou um bilhão e quarenta milhões pela Emae. Logo depois, a empresa recém-adquirida comprou cento e sessenta milhões em CDBs do Letsbank, outro braço do conglomerado Master. O dinheiro público privatizado deu um salto carpado e voltou para os cofres dos mesmos operadores.
O governo desestatizou a Sabesp em julho de 2024 com a ação a 67 reais, um valor claramente rebaixado artificialmente. A Equatorial Energia adquiriu quinze por cento das ações e assumiu o controle estratégico. Apenas uma empresa entregou proposta. Gigantes globais do saneamento ficaram fora da disputa. O preço de venda ficou bem abaixo do valor de mercado. Em fevereiro de 2026, as ações já valiam cento e cinquenta e dois reais. Isso representa valorização de cento e vinte e sete por cento sobre o preço da desestatização. Quem comprou barato lucrou. O Estado vendeu barato demais o patrimônio do povo. No dia de hoje a ação da Sabesp vale R$ 176,04. Entendeu?
A roleta dos conselheiros
Carlos Piani presidia o conselho da Ambipar quando o Fundo Phoenix tomou forma. A Ambipar fornecia as ações que davam lastro ao fundo. Piani deixou o conselho da Ambipar e da Equatorial para assumir a presidência da Sabesp em outubro de 2024. Sob seu comando, a companhia comprou a Emae do próprio Phoenix por um bilhão e cento e trinta milhões. Ele estruturou o fundo que vendeu a Emae para a companhia que passou a comandar. A Sabesp nega qualquer vínculo anterior. O mercado inteiro, porém, viu a peça se encaixar com precisão.
Karla Bertocco também dançou entre cadeiras. Presidiu o conselho da Sabesp até poucos meses antes de integrar o conselho da Equatorial, única interessada na privatização. Depois, foi subsecretária de Parcerias no governo paulista, presidente da Sabesp até 2018, diretora do BNDES e conselheira da Equatorial até dezembro de 2023. A federação PT-PCdoB-PV na Alesp denunciou conflito de interesses ao Ministério Público. O governo Tarcísio respondeu que tudo foi técnico.
O que a Sabesp não diz
A companhia afirma que a compra da Emae passou pelo crivo do Cade e pela Aneel. Alega que Piani renunciou ao conselho da Ambipar antes de assumir a estatal. Diz que não houve conflito de interesse es na trajetória de Bertocco. O governo de Tarcísio repete o mantra da lisura. E o lídimo Supremo Tribunal Federal já rejeitou duas ações que pediam a suspensão da privatização. O deputado Antonio Donato protocolou representação no Ministério Público de São Paulo em março deste ano. O documento cita lesão ao tesouro público, preço abaixo do mercado e possível influência de doações de campanha.
A água que chega às torneias de vinte milhões de paulistas até que continua limpa. Já o odor exala o dinheiro que circulou nos bastidores da venda aponta coisa pútrida. A privatização da Sabesp não foi um capítulo de eficiência econômica. Foi um capítulo de engenharia financeira. Uma engenharia que, neste caso, serviu a poucos. Poucos mesmo.
A nossa ONG Água-viva veio denunciando desde sempre que havia claro jogo de interesses nesta privatização, mas confessamos que por mais que soubéssemos que a maracutaia era grande, jamais imaginaríamos que seria tão grande. Maracutaia Master.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente–Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva-Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
As informações deste artigo foram levantadas a partir de reportagens do Brasil de Fato, Folha de S.Paulo, Bloomberg, CNN Brasil, Agência Pública e documentos do Ministério Público de São Paulo e do Supremo Tribunal Federal.