Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Quem privatizou sem olhar para trás
Em julho de 2024, o governo de São Paulo renunciou ao controle da Sabesp. As ações foram vendidas a R$ 67 cada uma. Na bolsa, no mesmo dia, o papel valia R$ 87. A diferença representou um deságio de quase 30% e um prejuízo estimado em R$ 4,5 bilhões para o erário. Tarcísio de Freitas conduziu o leilão como se estivesse liquidando estoque de loja em fim de temporada.
A compradora foi a Equatorial Energia. O presidente do conselho da companhia, naquele momento, era Carlos Augusto Leone Piani. Ele também presidia o conselho da Ambipar. As duas cadeiras pareciam distantes no papel. Na prática, caminhavam de mãos dadas em direção a um mesmo destino.
Piani deixou os dois conselhos em setembro de 2024. Em outubro, assumiu a presidência da Sabesp privatizada. O executivo migrava do comando da vendedora para o comando da comprada sem que nenhuma autoridade enxergasse conflito aparente.
O governo que descontou a Sabesp
O desconto na venda da estatal não foi obra do acaso. Estudos do Observatório Nacional das Águas, da Arsesp e da Associação de Profissionais da Sabesp apontavam que o preço justo superava em 44% o valor do leilão. Tarcísio privatizou a companhia como quem fecha bazar à meia-noite: apressado e sem tirar dúvidas.
A engenharia financeira que sustentou a operação guardava elos suspeitos. Para enxergá-los, basta seguir o rastro deixado pelo Banco Master.
Nelson Tanure comprou a EMAE em abril de 2024 usando ações da Ambipar como garantia. Aquelas ações haviam disparado 700% em poucos meses, graças a um programa de recompra coordenado entre fundos ligados ao Banco Master, a Trustee DTVM e o próprio Tanure. A CVM identificou atuação em conjunto e abriu processo sancionador.
O caloteiro da porta ao lado
Tanure nunca pagou a dívida com a XP Investimentos. O banco executou as garantias e ficou com a EMAE. Imediatamente depois, a Sabesp, comandada por Piani, comprou a empresa da XP. O círculo se fechou: quem estruturou o lance inicial agora comanda a empresa que absorveu o ativo.
A Sabesp que Tarcísio vendeu com deságio de 30% agora abriga a EMAE, empresa estratégica para o sistema hídrico da Região Metropolitana. E abriga também a herança de um calote de R$ 160 milhões que Tanure sacou do caixa da estatal antes de devolvê-la ao jogo.
O fio que une todos os personagens passa pelo Banco Master. Daniel Vorcaro, dono da instituição liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025, é cunhado de Fabiano Zettel. Zettel foi o maior doador individual da campanha de Tarcísio em 2022: R$ 2 milhões. Também doou R$ 3 milhões a Bolsonaro.
Quando a conta chega
Em março de 2026, a assessoria do governador insistiu que ele não possui qualquer vínculo com o doador citado. A frase soou oca. Dois milhões de reais em doações, duas privatizações com a digital do Master e um esquema que terminou exatamente onde seus arquitetos queriam.
As investigações não param. A Operação Compliance Zero já cumpriu seis fases. Tanure e Vorcaro tiveram bens bloqueados. Zettel foi preso temporariamente ao tentar embarcar para Dubai. A Polícia Federal analisa mensagens entre Vorcaro e políticos.
Tarcísio alegou gripe e faltou a um evento com Flávio Bolsonaro logo após o vazamento de áudios entre o senador e Vorcaro. A desculpa alimentou especulações. O governador busca distância sanitária enquanto o caso decanta.
A água de São Paulo mora agora no mesmo endereço de um calote milionário e de uma doação que ninguém consegue explicar. A privatização vendeu barato. O preço real ainda está sendo cobrado.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
Fontes: Revista Fórum, Brasil de Fato, ICL Notícias, CNN Brasil, NeoFeed, Metrópoles, Jornal O Sul, Folha de S. Paulo, InvestNews, CVM, Tribunal Superior Eleitoral, dados oficiais da Operação Compliance Zero.