Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
A inteligência artificial do deslumbramento
Há poucos dias, um engenheiro e influenciador digital postou um vídeo no qual aparece vestido de astronauta, inclusive dentro de uma nave espacial. A montagem é grotesca, gerada por algoritmos de segunda, pretendia colocá-lo como participante da missão Artemis. Na narração, o tom é de admiração cega por uma naçaõ estrangeira em uma expedição que, aos olhos atentos, nada mais representa que uma volta simbólica ao redor da Lua, sem pousar, cinquenta e seis anos depois de Armstrong ter deixado a pegada real no regolito lunar. O tal engenheiro autor do vídeo, que nem sequer pronuncia corretamente o nome da deusa grega, desconhece que a Administração Espacial Nacional da China já realizou em 2024 o que os norte-americanos fizeram só agora: coletar amostras do lado oculto do satélite e retornar à Terra. A operação Chang’e 6 pousou com sistema automático de precisão milimétrica na Bacia de Aitken, superando obstáculos técnicos que a NASA enfrentou com atrasos constantes e demissões em massa. Uma vergonha. Mas, para um engenheiro deslumbrado…
Nelson Rodrigues chamava isso de viralatismo. O termo cabe perfeitamente ao espetáculo de submissão cultural onde brasileiros aplaudem determinados estrangeiros mesmo quando eles chegam atrasados. A Artemis 2 não passa de um balão de ensaio tripulado, se comparada ao Apollo 8 de 1968. Enquanto entre 1969 e 1972 doze humanos caminharam sobre a Lua comandados por computadores de apenas setenta kilobytes de memória. Hoje, a NASA gasta dezenas de bilhões e não sem conseguir repetir o feito, perdendo um quinto de seus engenheiros em 2025 e assistindo à China firmar-se como a potência espacial mais relevante e promitente.
Quando o complexo de inferioridade viraliza
O pior não é o vídeo em si, nem a lambeção desavergonhada das partes baixas de estrangeiros; o problema reside no silêncio sobre o que o Brasil já foi capaz de construir. Não faltava tecnologia nem engenheiros qualificados quando o país engendrou sondas para o pré-sal, plataformas de extração e uma frota naval que rivalizava com as melhores do mundo. A destruição dessa capacidade não foi acidente geológico nem erro técnico. Foi política deliberada. A Operação Lava Jato, ao invadir estaleiros e acusar empresas como Odebrecht e Camargo Corrêa, paralisou encomendas da Petrobras e cancelou contratos de conteúdo local. A Lei 13.365 de 2016 reduziu a exigência de componentes nacionais de setenta e cinco para vinte e cinco por cento, estimulando importações de estaleiros estrangeiros. Em três anos, mais de trezentos mil trabalhadores da engenharia pesada foram para o desemprego. Estaleiros fecharam. Canteiros viraram pátios de ferrugem.
A mesma lógica de ataque sistemático atingiu as universidades. Luiz Carlos Cancellier, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, foi preso em setembro de 2017 acusado de desvio de recursos que nunca existiu. A Operação Ouvidos Moucos, conduzida por delegada oriunda da força-tarefa de Curitiba, impôs-lhe revista íntima, algemas e proibição de acessar a instituição onde trabalhava há décadas. Dezoito dias depois, jogou-se do quinto andar de um shopping center em Florianópolis. Deixou bilhete: sua morte havia sido decretada quando o afastaram da universidade. Anos mais tarde, o Tribunal de Contas da União e a própria Polícia Federal confirmaram a inocência do professor, encerrando investigações sem encontrar provas. O suicídio do reitor, espetacularizado pela mídia como se fosse culpado, simboliza o preço da humilhação nacional disfarçada de combate à corrupção.
Navegar é preciso, venerar não
A classe técnica brasileira não precisa de filtros digitais para provar competência. Precisa de reconhecimento do próprio mercado e do Estado. Enquanto isso, artistas de internet usam inteligência artificial para simular o que não conquistaram, reforçando entre jovens engenheiros a ideia de que o conhecimento nacional vale menos que uma montagem barata feita em software estrangeiro. Esse mecanismo psicológico, onde a tecnologia serve até para fabricar complexo de inferioridade, é mais danoso que qualquer déficit orçamentário. Apaga a memória de que o Brasil projetou, construiu e operou sistemas complexos de engenharia oceânica, petroquímica e aeroespacial.
A recuperação exige romper com o ciclo de admiração servil. A China não depende da NASA para lançar foguetes. O Brasil não precisa aplaudir missões atrasadas que apenas repetem o que foi feito em 1969 com computadores inferiores aos de um celular atual. É urgente resgatar o protagonismo da engenharia local, fortalecer as universidades federais e reconstruir a indústria naval, agora com investimentos recentes do governo federal em estaleiros como o da Bahia, abandonado por dez anos após a devastação da Lava Jato.
A soberania não se monta com algoritmos
O futuro não pertence a quem melhor simula uma realidade, mas a quem a constrói com concreto, aço e ciência soberana. O país que já soube projetar sondas para águas profundas e plataformas autossuficientes não precisa pedir licença para sonhar. Precisa, isso sim, reconhecer que a engenharia nacional foi deliberadamente desmontada por forças que hoje vendem a imagem de eficiência estrangeira em vídeos forjados. A inteligência artificial pode ser ferramenta de criação, mas jamais substituto da autoestima coletiva.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente – Frente pela Volta das Ferrovias – e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.