Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Jornalista, cientista político, engenheiro e advogado
Caro e raro leitor, conhecedor da complexidade do enredo desta tramoia, cuja complexidade foi fabricada com o claro objetivo de enganar, resolvi recorrer ao velho e bom recurso da carta da vovó ao querido neto. Não por desconfiar da intelecção do leitor, mas para lhe atalhar a dificuldade. Aliás eu mesmo, ao pesquisar parte por parte, na hora de juntar tive verdadeiras vertigens, e preciso confessar que se precisasse explicar de viva voz por certo falharia. Na sequência vem o texto com os detalhes todos. Vale o esforço de tentar entender tudo isso, para que divulguemos e, unidos, consigamos que estes larápios ricos que lesam pobres paguem pelos malfeitos, e para que o que sempre foi do povo a ele volte, sem prejuízo.
Carta da vovó para o neto predileto
Meu neto querido,
A vovó hoje vai te contar uma história. Não é história de antigamente, dessas que começam com “era uma vez”. É uma história que está acontecendo agora, na nossa cidade. Mas eu vou contar como conto as outras, porque assim fica mais nédio e mais fácil de entender. Vem cá, senta, tem paciência.
Imagina, meu bem, que numa cidade muito grande chamada São Paulo existem duas coisas que pertencem a todo mundo. Uma é uma represa enorme, dessas que prendem a água dos rios e geram energia pra cidade não ficar no escuro. A outra é uma empresa que cuida da água que sai da torneira da nossa casa, da casa dos seus amiguinhos, da casa do menino do fim da rua. Essas duas coisas são da gente. Quer dizer: são suas, são minhas, são da cidade inteira. Quem cuida em nome de todo mundo é uma pessoa só, que se chama governador. O governador dessa cidade hoje se chama Tarcísio.
E o Tarcísio fez uma coisa estranha. Ele resolveu vender essas duas coisas que pertencem a todo mundo. E vendeu pra um grupinho pequeno de homens muito ricos. E vendeu muito barato.
“Mas, vovó, por que ele faria uma coisa dessas?” Boa pergunta, meu amor. Vovó vai chegar lá. Presta atenção que a parte do meio é a mais difícil.
Tem um senhor chamado Daniel Vorcaro, que era dono de um banco chamado Banco Master. Pra você entender o que é um banco, pensa numa casinha grande onde os adultos guardam
dinheiro. Esse seu Vorcaro tinha um amigo chamado Nelson Tanure, e os dois bolaram uma trapaça muito esperta.
Existem uns papelzinhos que os adultos compram e vendem, e que se chamam “ações”. A vovó vai te chamar de figurinha, pra ficar mais fácil. Imagina uma figurinha de álbum dessas que custam um real. O seu Vorcaro, o seu Tanure e mais alguns amigos combinaram entre si o seguinte: “vamos fingir que essa figurinha é raríssima”. Aí um deles comprava a figurinha por dois reais. O outro comprava do primeiro por cinco. O terceiro comprava do segundo por vinte. Tudo no mesmo dia, tudo entre eles mesmos, e todo mundo na cidade olhando de fora pensava: “Nossa, essa figurinha aí deve valer um dinheirão mesmo, porque o preço sobe sem parar.”
A figurinha que valia oito reais foi pra dezesseis. Foi pra trinta. Foi pra cinquenta. Foi pra noventa e sete. Em poucos meses, a figurinha estava custando umas trinta vezes o que custava no começo. Mas ela não tinha mudado de nada, viu, meu bem. Era a mesma figurinha. Era só o preço que tinha sido empurrado pra cima por essa brincadeira combinada.
Aí, com a pilha de figurinhas valendo um dinheirão no papel, esses senhores foram até um banco bem maior e disseram: “Olha aqui a nossa coleção. Empresta dinheiro pra gente, que a coleção fica de garantia.” O banco grande, achando que a figurinha valia aquilo mesmo, emprestou. E com esse dinheiro emprestado eles compraram a tal represa da cidade — aquela empresa enorme que pertencia a todo mundo.
Repara, meu neto, no que aconteceu: eles compraram a represa com vento. Compraram com uma coisa que eles mesmos fizeram parecer valiosa, mas que não valia nada por dentro.
E não acabou. Depois que a represa virou propriedade deles, eles foram lá no cofre da represa — dinheiro que era da água, do trabalho dos funcionários, da nossa conta de luz — e usaram esse dinheiro pra comprar uns papéis podres do banco do próprio seu Vorcaro. Ou seja, a represa que era da gente virou um cofre pra socorrer o banco dos amigos deles.
Aí chegou a hora de pagar o empréstimo daquele banco maior. E o que eles fizeram? Não pagaram. Disseram: “Olha, fique com a represa, então.” O banco grande ficou com a represa e, na mesma semana, vendeu pra outra empresa — justamente aquela empresa da torneira que o Tarcísio também tinha vendido. E adivinha quem manda hoje nessa empresa da torneira, meu amor? Um senhor chamado Carlos Piani. O mesmo senhor Piani que estava lá no comecinho, ajudando a inventar a brincadeira da figurinha. Olha que coincidência boa pra ele. Tudo voltou pra mesma mão.
Falta a última pecinha, que é o pedaço do Tarcísio. O seu Vorcaro tem um cunhado, um pastor chamado Fabiano Zettel. Esse Zettel, na época da eleição, deu dois milhões de reais de presente pro Tarcísio, pra ajudar na campanha dele. Quando os jornalistas perguntaram se o Tarcísio conhecia o moço, ele respondeu que não tinha nem vínculo nem relação com o doador. Era mentira, meu bem. Era mentira deslavada.
Hoje em dia, finalmente, a polícia entrou no meio. O seu Vorcaro está preso. O banco dele foi fechado pelo Banco Central. Os homens que inflaram a figurinha estão sendo investigados pela tal CVM, que é a moça que fiscaliza a bolsa de valores. E o Tarcísio anda meio amarelo, fingindo gripe pra não aparecer em público ao lado dos comparsas, porque sabe que o cerco está se fechando.
Então é assim, meu neto querido: da próxima vez que algum adulto te disser que negócio de gente grande é coisa complicada demais pra criança entender, você lembra dessa história da vovó. Não é tão complicado quanto eles fazem parecer. É só um bando de homem rico combinando entre si pra ficar mais rico ainda, à custa do que era seu, do que era meu, do que era do menino do fim da rua, do que era da cidade inteira.
A vovó te conta isso porque quer que você cresça sabendo. Quem entende dessas coisas escolhe melhor quando crescer. Quem não entende, aplaude o errado sem perceber.
Vovó te dá um beijo bem grande na bochecha e diz pra você ir tomar banho antes do jantar. Com muito amor,
Vovó.
Anatomia do esquema do Banco Master — da privatização da EMAE à da Sabesp, da fraude na bolsa à explosão de Jaguaré
Para entender por que o nome de Tarcísio de Freitas aparece, em maio de 2026, no centro da maior fraude já investigada contra o Sistema Financeiro Nacional, é preciso fazer algo que uma manchete cotidiana raramente permite: parar e desenhar o mapa inteiro. O esquema do Banco Master não é um escândalo único e isolado. É uma engrenagem de várias peças que, vista de cima, revela um movimento orquestrado em três tempos — inflar um ativo, comprar com vento uma estatal usando esse ativo inflado como lastro e, ao fim, fechar o ciclo
levando a empresa pública privatizada para dentro de outra empresa pública privatizada, sob o comando de quem desenhou o lance de abertura. No miolo da engrenagem, em duas operações conduzidas pessoalmente pelo governador entre abril e julho de 2024, estão a EMAE — a antiga Eletropaulo, hoje peça-chave da gestão das águas paulistas — e a Sabesp, vendida com deságio de quase 30% sobre o valor de bolsa.
A apuração principal corre na Promotoria de Justiça do Patrimônio Público (PJPP) do Ministério Público de São Paulo, depois que o deputado Antônio Donato (PT-SP), líder da oposição na Alesp, protocolou em março representação detalhando a arquitetura financeira do esquema. Em paralelo, a Polícia Federal toca a Operação Compliance Zero, que em maio completou seis meses, mobilizou 116 mandados, bloqueou aproximadamente R$ 27,71 bilhões em ativos e já estuda fraudes potenciais de R$ 12 bilhões em títulos de crédito fictícios. Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso em 17 de novembro de 2025; um dia depois, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco; em dezembro, a Reag Investimentos, gestora do mesmo conglomerado, também foi liquidada; em janeiro de 2026, a segunda fase da Compliance Zero levou ao bloqueio de mais R$ 5,7 bilhões e fez de Nelson Tanure alvo de mandados expedidos pelo Supremo. Dias Toffoli, que originalmente relatava o caso, deixou-o em meio à apuração, depois que a PF identificou inúmeras menções a seu nome no celular de Vorcaro; por sorteio, o caso passou a André Mendonça.
A esta altura, o governador já é alvo de pedido de convocação na CPMI do INSS, sob a alcunha “BolsoMaster” cunhada pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que liga o esquema às fraudes de mais de 250 mil contratos de crédito consignado de aposentados. A esta altura, a primeira tragédia material da Sabesp privatizada também já aconteceu: em 11 de maio de 2026, uma obra de remanejamento da rede em Jaguaré rompeu uma tubulação de gás, provocou uma explosão que matou duas pessoas (uma na hora e outra que não resistiu aos ferimentos alguns dias depois), feriu mais duas e afetou cerca de 160 famílias. O acidente forçou a empresa a suspender mais de trinta obras simultâneas e devolveu ao centro do debate a pergunta que esta pesquisa tenta responder: a que custo, e em benefício de quem, Tarcísio entregou em 2024 duas das maiores empresas paulistas?
O elenco
Antes do enredo, é preciso fixar quem é quem nesse tabuleiro. A engrenagem só faz sentido quando se entende o papel, e a trajetória, de cada peça.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, é o personagem-âncora. Sob seu comando, o banco se tornou o coração financeiro da operação: emprestou, garantiu, estruturou, comprou títulos podres e despejou recursos dentro de empresas em cuja compra estava envolvido. Está preso desde 17 de novembro de 2025. Os investigadores hoje suspeitam que o Master tenha fabricado até R$ 12 bilhões em títulos de crédito fictícios, vendidos sobretudo ao Banco de Brasília (BRB), cuja diretoria também é alvo de investigação — entre eles o presidente Paulo Henrique Costa e o diretor financeiro Dario Oswaldo Garcia Júnior.
Nelson Tanure é apontado pela Polícia Federal e pelo STF como sócio oculto do Master. Beneficiário final do Phoenix FIP e do Ilha de Patmos FIM, foi o comprador efetivo da EMAE em abril de 2024 e, depois, o homem que assumiu a presidência do conselho da estatal privatizada. Foi também ele quem deu calote na XP em outubro de 2025 e quem, antes disso, sacou R$ 160 milhões do caixa da própria EMAE para comprar títulos podres do Master.
Carlos Augusto Leone Piani é o personagem-ponte do esquema. Presidiu o conselho de administração da Ambipar até 24 de setembro de 2024 — justamente o período em que a fraude bursátil foi montada. Acumulou, no mesmo intervalo, a presidência do conselho da Equatorial, compradora da Sabesp. Em outubro de 2024, deixou os dois conselhos para assumir a presidência da Sabesp privatizada. Foi sob seu comando que, um ano depois, a Sabesp absorveu a EMAE — fechando o círculo.
Tércio Borlenghi Junior, controlador da Ambipar, foi o operador da fraude bursátil. Conduziu pessoalmente as compras que turbinaram o papel da companhia e responde a processo sancionador da CVM, ao lado de quatro diretores: o próprio filho Guilherme Patini Borlenghi, Luciana Freire Barca Nascimento e Thiago da Costa Silva. Está obrigado a fazer OPA pelas ações remanescentes.
Karla Maciel Dolabella liderava a área de fusões e aquisições do Banco Master no momento exato em que a EMAE foi privatizada. Em outubro de 2024, seis meses depois de Tanure tomar o controle acionário da empresa, assumiu sua presidência. Renunciou em dezembro de 2025 aos cargos de CEO e diretora por “razões de foro pessoal”, em meio à transferência do controle da EMAE para a Sabesp e ao avanço das investigações contra Vorcaro.
Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e pastor ligado à Igreja Batista da Lagoinha, é o elo eleitoral da história. Doou R$ 2 milhões à campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões à de Jair Bolsonaro em 2022 — a maior doação individual recebida pelo governador.
Em torno desse elenco, três pessoas jurídicas cumprem papel central: a Ambipar (cujas ações foram infladas para servir de lastro), a XP Investimentos (que financiou a compra da EMAE
e, no fim, recolheu o colateral), e a Trustee DTVM (gestora do mesmo conglomerado do Master, encarregada de movimentar os fundos que turbinaram o papel). Em papel auxiliar, mas decisivo, aparecem ainda a Reag Investimentos, sob comando de João Carlos Mansur (também alvo da Compliance Zero); a Letsbank, instituição ligada ao mesmo conglomerado, que recebeu R$ 160 milhões em CDBs pagos pela EMAE; a Light, cujas debêntures também foram compradas pela EMAE; e a Vórtx DTVM, que participou ao lado da XP na operação de debêntures do Phoenix.
O coração técnico: como as ações da Ambipar foram infladas em 700%
Toda a engenharia depende de uma peça central: a valorização artificial das ações da Ambipar (AMBP3), que viraram garantia do empréstimo da XP ao Fundo Phoenix, comprador da EMAE. A CVM identificou atuação coordenada e interdependente entre quatro vértices — Borlenghi, Tanure, o Banco Master e a Trustee DTVM — e descreveu o mecanismo em três movimentos calibrados, mais o desfecho coreografado.
Primeiro movimento — o programa oficial de recompra. Em 31 de maio de 2024, o conselho da Ambipar, presidido então por Carlos Piani, aprovou um programa de recompra com teto de 20,8 milhões de papéis. Comprar de volta as próprias ações é, por si só, lícito: a operação encolhe o flutuante, reduz a oferta no mercado e empurra o preço para cima pela mecânica elementar de oferta e procura. O problema, segundo a CVM, foi sobrepor essa recompra a outras compras coordenadas — e ainda exceder o teto de 10% que a Resolução CVM nº 77/2022 impõe à manutenção de ações em tesouraria. A companhia ultrapassou esse limite em 20%. O termo de acusação foi assinado em 8 de agosto de 2025 contra Tércio Borlenghi, Guilherme Patini Borlenghi, Luciana Freire Barca Nascimento e Thiago da Costa Silva, dias depois de uma decisão polêmica do presidente interino da CVM, Otto Lobo, que dispensara o controlador da Ambipar de fazer OPA (Oferta Pública de Aquisição de ações) pela totalidade da companhia.
Segundo movimento — as compras simultâneas dos fundos da Trustee. Entre junho e agosto de 2024, Borlenghi, o fundo ESNA (à época com cotas do Master) e os fundos Kyra FIA e Texas FIA — todos administrados pela Trustee DTVM — iniciaram aquisições agressivas que turbinaram o papel sobre uma base já estreita de ações em circulação. A CVM cunhou o nome técnico do que aconteceu ali: sobreposição de operações. As compras combinadas ultrapassaram um terço do free float, disparando, em tese, a obrigatoriedade de oferta pública de aquisição (OPA). É essa OPA que Otto Lobo dispensaria — e que a área técnica da própria autarquia voltaria a exigir.
Terceiro movimento — o estrangulamento dos vendidos. A alta inicial provocou o efeito clássico do short squeeze: investidores que apostavam na queda do papel foram forçados a recomprá-lo para cobrir suas posições, amplificando ainda mais a valorização. As ações da Ambipar, que valiam cerca de R$ 8 no fim de maio, atingiram R$ 268 no pico de dezembro.
No período específico da operação investigada — abril a outubro de 2024 — a valorização ultrapassou 700%, com o papel passando dos R$ 97. A própria Ambipar usou ações em tesouraria para quitar obrigações, embolsando cerca de R$ 260 milhões em ganho contábil graças à alta que ajudou a fabricar.
Desfecho coreografado. Em setembro de 2024, as cotas do ESNA FIP — fundo que detinha exclusivamente ações da Ambipar — foram transferidas do Banco Master para o Ilha de Patmos FIM, veículo de Tanure, a um preço cerca de 40% inferior ao valor de mercado. A operação melhorou o patrimônio líquido e o balanço do Master e gerou retorno financeiro de R$ 296 milhões. Em seguida, essa participação foi integralizada no Fundo Phoenix — o mesmo que comprara a EMAE em abril. As ações da Ambipar, que chegaram a R$ 97,35, depois despencaram para R$ 0,70, deixando rastro de prejuízo no mercado. A companhia, que valia R$ 19 bilhões no pico, hoje vale R$ 451 milhões e está em recuperação judicial — plano aprovado em 19 de dezembro de 2025 e em curso na 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, com R$ 10,5 bilhões em dívidas reconhecidas. As ações da empresa acumulam, em 2025, depreciação de 98% na bolsa. O MPF tratou o conjunto como manipulação coordenada de mercado.
Ato I — A captura da EMAE (abril de 2024)
Com o tabuleiro da Ambipar montado para inflar, o Fundo Phoenix FIP entrou no leilão da EMAE. O fundo havia sido criado em 20 de março de 2024, menos de um mês antes do certame, e recebeu, ainda em março, aporte de R$ 400 milhões. Em abril, venceu o leilão por R$ 1,04 bilhão, derrotando por estreita margem a francesa EDF.
O financiamento veio por triangulação. A Phoenix S.A., controlada pelo Phoenix FIP, emitiu debêntures (títulos de dívida emitidos por empresas SA para captar recursos no mercado, sem precisar recorrer a um banco) subscritas pelo Master Capital FIM, fundo exclusivo do Banco Master. Como garantia, foram dadas ações da própria EMAE e ações da Ambipar pertencentes a Borlenghi e ao ESNA (gerido pela Trustee DTVM). Borlenghi e Tanure figuraram pessoalmente como fiadores. Em maio de 2024, na exata janela em que se desenrolava o programa de recompra de ações da Ambipar, o Phoenix recebeu novo aporte de R$ 1,25 bilhão. Em paralelo, uma outra linha de R$ 520 milhões em debêntures foi emitida — com participação da XP e da Vórtx DTVM — e a EMAE viu seu próprio caixa virar combustível do ciclo: o dinheiro disponível foi usado para comprar debêntures da Light (também ligada ao mesmo grupo econômico) e CDBs do Banco Master. Em outras palavras, capital da empresa pública recém-privatizada foi redirecionado para beneficiar as instituições que financiaram sua própria compra. A área técnica da CVM descreveria esse arranjo, em parecer, como o pagamento da EMAE viabilizado pelo Banco Master “por meio da emissão privada de debêntures da Phoenix S.A.”.
Ato II — O deságio da Sabesp (julho de 2024)
Três meses depois, em 23 de julho de 2024, Tarcísio privatizou a Sabesp. O Estado de São Paulo vendeu 32,3% do capital da companhia a R$ 67 por ação. No mesmo dia, a cotação na bolsa marcava R$ 87 — deságio de quase 30%. Especialistas do Observatório Nacional das Águas, da Arsesp e da Associação de Profissionais Universitários da Sabesp
estimaram em 44% o desconto em relação ao valor real da empresa, com prejuízo aproximado de R$ 4,5 bilhões ao patrimônio paulista. A compradora foi a Equatorial, única concorrente do processo de desestatização. Quem presidia o conselho da Equatorial? Carlos Piani, que então ainda acumulava o conselho da Ambipar.
Ato III — A pilhagem da EMAE (2025)
Já com a EMAE em mãos privadas, e com Tanure instalado na presidência do conselho de administração, a empresa começou a operar como veículo de extração de caixa para o grupo financiador da própria compra. Em janeiro de 2025, a EMAE comprou R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, instituição ligada ao conglomerado do Banco Master. Em paralelo, Karla Maciel Dolabella, vinda diretamente da área de fusões e aquisições do Master, exercia o cargo de CEO. As debêntures originais previam um primeiro pagamento de juros para setembro de 2025; em abril, as partes já tentavam renegociar o cronograma de principal e juros.
Ato IV — O fechamento do círculo (outubro de 2025)
Em outubro de 2025, Tanure não quita o empréstimo da XP. O banco convoca assembleia de debenturistas, declara o vencimento antecipado da dívida — estimada em R$ 656 milhões — e executa a garantia: as ações da EMAE. Em seguida, a Sabesp, agora presidida por Carlos Piani, compra a EMAE da XP por R$ 1,13 bilhão. Tempos depois, um acordo de encerramento de disputa entre Tanure, XP e Sabesp transferiria, por R$ 171,6 milhões, à Sabesp também a fatia que ainda restava nas mãos de Borlenghi. O círculo se fecha. A EMAE, ativo estratégico para a gestão dos mananciais da Região Metropolitana de São Paulo e dos rios Pinheiros e Tietê, termina onde, ao que tudo indica, sempre se quis que terminasse: dentro da Sabesp privatizada e sob o mesmo executivo que desenhou o lance inicial.
O acerto de contas (novembro de 2025 em diante)
Em 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos. No dia seguinte, o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master, afasta a administração, nomeia liquidante e suspende uma transação que vinha sendo negociada com um consórcio árabe. Logo depois, a Reag Investimentos — gestora do mesmo conglomerado — também é liquidada. Em 14 de janeiro de 2026, a Operação Compliance Zero entra em sua segunda fase: 42 mandados de busca e apreensão, R$ 5,7 bilhões bloqueados, autorização de Dias Toffoli. Nelson Tanure está entre os alvos. João Carlos Mansur, ex-presidente da gestora da Reag, idem.
O caso, em sua dimensão criminal, hoje é relatado por André Mendonça — depois que a PF mapeou repetidas menções a Toffoli no celular de Vorcaro, e o próprio Supremo concluiu que a permanência do antigo relator estava produzindo desgaste desnecessário. Em maio de 2026, a Compliance Zero completa seis meses com 116 mandados expedidos e R$ 27,71 bilhões em ativos bloqueados ou sequestrados — patamar inédito na história das investigações financeiras brasileiras.
O fio bolsonarista: Dark Horse
Em maio de 2026, o The Intercept Brasil divulgou áudios e mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Neles, o senador cobra pagamentos relativos a Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro com orçamento estimado em R$ 134 milhões, escrita pelo ex-secretário Mario Frias e estrelada pelo norte-americano Jim Caviezel — o protagonista de A Paixão de Cristo. A estreia está marcada para 11 de setembro de 2026, semanas antes das eleições. A GOUP Entertainment, produtora do filme, negou em nota ter recebido aportes de Vorcaro, embora reconheça contar com mais de uma dezena de investidores.
Para Tarcísio — candidato natural à reeleição e cotado para a corrida presidencial —, o vazamento foi uma bomba secundária. O governador cancelou presença em um evento da pré candidatura de Guilherme Derrite ao Senado, ao lado de Flávio, sob alegação de gripe. Prudência política travestida de virose: o cálculo é evitar contaminação enquanto o caso decanta.
O subenredo do INSS
Há ainda um quarto ramo da trama, conectado pela CPMI do INSS. As fraudes do Banco Master atingiram mais de 250 mil contratos de crédito consignado de aposentados e pensionistas — e por esse fio o deputado Paulo Pimenta apelidou o conjunto de “BolsoMaster”. Tarcísio é alvo de pedido de convocação por causa dos R$ 2 milhões doados por Fabiano Zettel em 2022. O parlamentar Alencar Santana (PT-SP) defende a
hipótese, em apuração, de conexão entre essa doação e o esquema do consignado, além das privatizações da Sabesp e da EMAE.
A explosão de Jaguaré
A primeira tragédia material da Sabesp privatizada chegou em 11 de maio de 2026, em Jaguaré, zona oeste de São Paulo. Uma obra de remanejamento da rede rompeu uma tubulação de gás, provocou uma explosão que matou duas pessoas, feriu mais duas e afetou cerca de 160 famílias. Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda, atacou diretamente o modelo de gestão pós-privatização, citando desabastecimento, aumento de tarifas e crescimento de reclamações. Tarcísio respondeu prometendo ressarcimento aos moradores, acionou a Arsesp e anunciou a suspensão de mais de trinta obras com características semelhantes para revisão de protocolos.
O desmentido que ninguém compra
Em março de 2025, antes da explosão da crise, a assessoria do governador sustentou em nota que Tarcísio “não possui qualquer vínculo ou relação com o doador citado”. A frase virou anedota. R$ 2 milhões em doações de Zettel, duas privatizações com a digital de Vorcaro, um esquema desenhado para terminar exatamente onde terminou. Fontes do Palácio dos Bandeirantes admitem nos bastidores: a privatização da Sabesp e da EMAE tem dedo de Vorcaro. Tarcísio pode até tentar evitar a contaminação, mas o pescoço já está submerso.
A leitura do enrosco em três tempos
Quando se afasta o ruído e se olha o desenho inteiro, o esquema opera de modo límpido em três tempos, e é nessa síntese que toda a complexidade se torna inteligível.
Primeiro, inflar. Borlenghi, Tanure, Master e Trustee DTVM, em ação coordenada, fazem disparar artificialmente o papel da Ambipar. Recompra oficial pela companhia, compras agressivas dos fundos interligados — ESNA, Kyra FIA, Texas FIA — e estrangulamento dos vendidos sobrepõem-se em poucos meses, e o papel multiplica seu valor por mais de sete.
Segundo, comprar com vento. As ações infladas viram garantia do empréstimo da XP, que financia o Fundo Phoenix; o Phoenix arremata a EMAE por R$ 1,04 bilhão; o caixa da empresa pública recém-privatizada é redirecionado para alimentar o próprio grupo financiador, via debêntures da Light e CDBs do Master e do Letsbank.
Terceiro, fechar o ciclo. Carlos Piani, que presidia o conselho que aprovou a recompra na Ambipar, migra para o conselho da Equatorial (compradora da Sabesp) e, em seguida, para a presidência da Sabesp privatizada. Tanure dá calote na XP; a XP fica com as ações da EMAE e imediatamente as vende para a Sabesp. O mesmo nome reaparece em todas as
cadeiras, e a empresa estratégica das águas paulistas termina dentro da Sabesp privatizada, sob o comando de quem desenhou o lance de abertura.
No centro político do tabuleiro segue Tarcísio de Freitas. Foi ele quem conduziu as duas privatizações no intervalo de três meses, recebeu a maior doação de campanha do cunhado do dono do Banco Master, e hoje precisa explicar por que o ciclo todo se fechou exatamente onde tudo havia começado: nas mãos de um pequeno grupo cuja relação com o Master deixou de ser coincidência reiterada para tornar-se padrão investigável. A Operação Compliance Zero já bloqueou R$ 27,71 bilhões. O Ministério Público de São Paulo analisa o conjunto. A CVM processa o controlador da Ambipar. A CPMI do INSS estuda convocar o governador. A explosão de Jaguaré assombra a Sabesp privatizada. Restam as cenas dos próximos capítulos.
Nota técnica e de método
Este artigo reúne dados confirmados em apuração jornalística independente entre março e maio de 2026, em decisões publicadas pela CVM, em comunicados ao mercado da XP e da Sabesp, em informações da Polícia Federal referendadas pelo STF e em representações protocoladas no Ministério Público de São Paulo. As atribuições de responsabilidade aqui tratadas estão sob investigação; Tarcísio de Freitas, Carlos Piani, Tércio Borlenghi Junior, Nelson Tanure e Daniel Vorcaro negam, em diferentes graus e por diferentes canais, irregularidades. A GOUP Entertainment negou aportes de Vorcaro em Dark Horse. A CVM ainda não citou nominalmente Carlos Piani em seu termo de acusação, embora ele tenha presidido o conselho que aprovou a recompra na Ambipar. As correções de grafia em relação à transcrição original — Nelson Tanure (não “Tanuri”), EMAE (não “EMAI”), Karla Maciel Dolabella (não “Carla Maciel Dolabela”), Tércio Borlenghi Junior (não “Terstil Borleng”) e Fundo Phoenix (nome oficial dos veículos Phoenix FIP e Phoenix S.A.) — seguem o padrão dos documentos públicos.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador Licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.