Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Quando o metroviário vira pedestre
Joel Krüger começou na esquerda. Militou nos tempos de luta. Discursou em praças. Construiu nome entre os que acreditavam em mudança. Trocou de lado e fechou acordo para disputar pelo Republicanos. Os antigos diriam traição. Os novos diriam pragmatismo. Krüger virou republicano. Biografia virou currículo. Convicção virou estratégia e compromisso virou voto.
Agora Krüger apresenta Madalena, deputado estadual em São Paulo. Homem de direita. Funcionário da Fepasa. Cresceu no interior paulista e conhece o cheiro de graxa. Parecia o perfil ideal para defender o transporte férreo. Quem conhece a ferrovia por dentro sabe onde doem os calos. O metroviário sabe perder o trem. O trabalhador da estação deveria carregar a bandeira do passageiro.
Madalena vira Rumo
O grupo na Alesp debatia questões metroferroviárias. João Caramez coordenava o núcleo. Reunia especialistas e parlamentares quinzenalmente. Técnica guiava os encontros. Debates rendiam frutos. A ferrovia ganhava voz. Usuários encontravam canal para cobrar investimentos. Era espaço raro no barulho político.
Caramez perdeu o mandato. A cadeira ficou vazia. Madalena assumiu a coordenação. A escolha parecia natural. Quem trabalhou nos trilhos entenderia a causa. O homem do interior defenderia o usuário. Lógica era simples. Experiência férrea pesava a favor. Passado operário garantia o futuro da mobilidade.
O grupo morreu em câmara lenta. Reuniões viraram raridade. Debates sumiram. Pauta técnica evaporou. Madalena esvaziou movimento, comissão e grupo. A instituição virou salão abandonado. Cadeiras vazias. Microfones mudos.
A razão veio depois. Deputado fez moeda de troca. Pelo silêncio, pediu emprego para o filho na Rumo. A empresa opera trechos ferroviários em São Paulo. Comissão deveria fiscalizar a concessionária. Rumo acolheu o parente do fiscal. Filho entrou pela porta da empresa. Grupo morreu de vez. Troca foi clara. Pai fechou os olhos. Filho abriu a carteira. Ferrovia arcou com as consequências.
O republicano e o silêncio
História repete o roteiro com elenco novo. Militante de ontem vira candidato. Metroviário de ontem vira lobista. Funcionário público vira parceiro da concessionária. Cidadão fica na plataforma, olhando trilhos vazios, esperando composição que não vem.
Fepasa morreu nos anos noventa. Seu espírito ressuscita quando o ex-funcionário descobre que os trilhos do passado servem de escada para o futuro particular. Ferrovia virou palco. Passageiro virou plateia. Metroviário virou pedestre. Trem virou negócio e negócio virou família.
Da plataforma aos conselhos de classe
O esvaziamento da comissão metroferroviária não é caso isolado. É sintoma de algo mais fundo: a captura lenta das instituições por interesses privados. Onde deveria haver fiscalização, nasce conchavo. Onde deveria haver defesa do interesse público, surge a oportunidade para negócios de família.
Nos conselhos profissionais, a lógica se repete com outra paisagem e os mesmos vícios. O CREA-SP decidiu que um parecer jurídico poderia custar um milhão de reais. Não um parecer qualquer. Um parecer sobre o alcance do artigo 59 da Lei 5.194/1966, o uso do CNAE para autuar empresas, a necessidade de fiscalização porta a porta e o suposto dano moral em autuações baseadas apenas em dados cadastrais. Tema importante, mas rotineiro no direito público. Exige advogado competente, não celebridade de Brasília.
O CREA-SP escolheu Michel Temer.
Não contratou apenas um advogado. Contratou um nome. O ex-presidente que chegou ao Planalto após o impeachment de Dilma Rousseff, que teve denúncia por corrupção passiva barrada pela Câmara, que foi gravado tratando de propina, que chegou a ser preso em 2019 acusado de receber um milhão de reais para favorecer empresários em contratos com estatal. Esse mesmo Michel Temer foi chamado para defender um conselho que vive de contribuições compulsórias de engenheiros e agrônomos paulistas.
A justificativa é formalmente elegante: serviço técnico especializado, natureza intelectual, notória especialização, inexigibilidade de licitação prevista na Nova Lei de Licitações. O argumento é juridicamente defensável. O problema é ético.
O CREA-SP não comprou apenas um parecer. Comprou influência. Comprou o acesso de quem tem telefone direto para ministros, bancos e grandes grupos econômicos. Não é coincidência que o escritório de Temer tenha recebido dez milhões de reais do Banco Master em 2025, nem que empresas por ele representadas acumulem contratos milionários em cidades paulistas. O produto não é a linha fina do parecer. É o pedigree de quem assina.
Um parecer dessa natureza poderia ser elaborado por qualquer bom administrativista por trinta, quarenta, cinquenta mil reais. O CREA-SP pagou vinte vezes mais. Não pela complexidade do tema, mas pelo peso político do contratado. Enquanto isso, milhares de profissionais pagam anuidades altas, enfrentam atendimento precário e ouvem do conselho discursos inflamados sobre ética e responsabilidade.
A normalização do absurdo
Do deputado que mata uma comissão para emplacar o filho em uma concessionária ao conselho que paga um milhão por um parecer de fachada, o roteiro é o mesmo. Instituições que deveriam defender o interesse coletivo transformam seu poder em moeda. Votação vira barganha. Parecer vira produto de luxo. Cargo em concessão vira prêmio de consolação.
O esvaziamento da comissão na Alesp e o contrato milionário do CREA-SP são capítulos da mesma história: a de um Estado que desaprendeu a diferença entre autoridade e oportunidade. Grupos surgem com discurso nobre. Frentes parlamentares são criadas em nome do usuário. Conselhos se apresentam como guardiões da ética. Tudo funciona até alguém descobrir quanto vale, no mercado, o silêncio de uma comissão ou a assinatura de um parecer.
Quem fiscaliza o fiscal
Solução não está em multiplicar frentes, grupos e conselhos. Está em expô-los à luz. Exigir transparência total sobre integrantes, encontros, contratos e resultados. Cidadão precisa saber quem coordena, quanto se reúne, quanto se paga e o que, de fato, se entrega.
Caso contrário, continuaremos assistindo ao mesmo filme: político troca de lado, grupo técnico some, filho de deputado consegue emprego em concessionária, ex-presidente enredado em escândalos fatura um milhão com parecer jurídico, e o povo segue na plataforma, esperando o trem que virou negócio e o conselho que virou balcão.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
Declaração de fontes: A apuração baseia-se em registros da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, notas oficiais sobre a Frente Parlamentar de Transporte Metroferroviário e dados públicos da Rumo Logística sobre contratos de concessão ferroviária. Informações sobre Joel Krüger confirmam-se em registros do Confea e do sindicato de engenheiros.