MALA CHEIA

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As malas cheias deixaram o clube literalmente mais leve de recursos e mais pesado de suspeitas

 Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

Dinheiro que respira

O Corinthians pagou mais de três milhões e quatrocentos mil reais em dinheiro vivo a um único funcionário entre 2018 e 2023. João Odair de Souza, conhecido como Caveira, chefiava a segurança do clube nas gestões de Andrés Sanchez e Duilio Monteiro Alves. Ele retirava valores que iam de quinhentos reais a cento e vinte e nove mil em operações isoladas. O montante total, corrigido pela inflação, supera sete milhões e trezentos mil reais segundo cálculos do Ministério Público.

As entregas aconteciam sem notas fiscais. Sem recibos. Sem qualquer papel que comprovasse a destinação legal dos recursos. A justificativa apresentada soa como piada pronta. Caveira afirmou que usava o dinheiro para pagar seguranças autônomos em eventos e protestos. Muitos seriam policiais militares em horário de folga. Esses profissionais, segundo ele, não emitiam documentos fiscais por temerem exposição na corporação.

A mala como arquivo

A planilha entregue pelo clube às autoridades revela saques regulares durante cinco anos. Em outubro de 2023, uma única retirada somou cento e vinte e nove mil trezentos reais. Imagine o peso físico desse volume em cédulas. Caveira transportava essas quantias pelo Parque São Jorge e pelo CT Joaquim Grava. Ele dizia prestar contas apenas ao departamento financeiro. O Conselho Fiscal nunca questionou essas movimentações milionárias. A mala cheia circulava pelos corredores da diretoria como se fosse rotina administrativa legítima.

O ex-chefe de segurança relatou que conversou com Andrés Sanchez sobre o assunto. Recebeu orientação para procurar o jurídico e o ex-gerente financeiro Roberto Gavioli. A cadeia de comando parecia clara para todos os envolvidos. Exceto para a contabilidade formal. Os valores saíam do caixa do clube sem registro contábil adequado. Apareciam apenas como despesas genéricas em planilhas internas.

O custo da invisibilidade

A investigação não se limita a Caveira. Denilson Grillo, ex-motorista particular de Duilio Monteiro Alves, recebeu outros um milhão e duzentos mil reais em espécie ao longo de três anos. O modus operandi repete o padrão. Dinheiro vivo entregue nas mãos sem rastro fiscal. O promotor Cássio Conserino apura agora para onde iam esses recursos. Há suspeita de uso de empresas de fachada para justificar despesas inexistentes.

O caso expõe a cultura do pagamento paralelo no futebol brasileiro. Clubes tratam milhões como se fossem trocos de padaria. A ausência de notas fiscais não parecia incomodar os gestores. O documento bom para eles era aquele que não deixava rastro. A opacidade funcionava como método organizacional consolidado. As malas cheias representavam agilidade burocrática. Evitavam tributos e registros formais que pudessem ser auditados posteriormente.

Documento bom para o esquecimento

A defesa de Caveira insiste na legalidade dos pagamentos. Argumenta que policiais em folga não emitiriam recibos por medo de represálias. Essa explicação, contudo, não esclarece porque o clube não contratava empresa legalmente constituída para o serviço. Nem justifica os valores milionários movimentados por um único indivíduo. O Corinthians possui departamento jurídico robusto. Sabe que dinheiro vivo em grandes quantias configura indício de lavagem de capitais.

A gestão atual afirma colaborar com as investigações. Entregou as planilhas espontaneamente ao Ministério Público. Esse gesto, porém, não apaga a responsabilidade das administrações passadas. Deixaram herança tóxica de transações opacas. O clube sofre hoje as consequências de uma governança que confundia cofre com caixa de sapato. O dinheiro vivo saía fácil demais. Voltava sem comprovação.

A herança das notas

O Parque São Jorge precisa explicar como permitiu que um funcionário transportasse fortunas em espécie sem supervisão adequada. O torcedor corintiano merece saber se seus ingressos e camisas financiaram pagamentos irregulares. A Justiça apura agora o destino desses milhões. As malas cheias deixaram o clube literalmente mais leve de recursos e mais pesado de suspeitas.

Declaração de fontes: As informações sobre os valores e investigações procedem de reportagens do portal Poder360 e do Globo Esporte, com base em documentos do Ministério Público de São Paulo.

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