Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político
O dinheiro que não se explica
A segunda fase da Operação Narco Azimut desembarcou em março com a força de um vendaval contábil. A Polícia Federal bloqueou R$ 934 milhões em bens e cumpriu 26 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Ilhabela, Taboão da Serra e Balneário Camboriú. Entre os alvos, Guarulhos surge como peça-chave de um tabuleiro que mistura criptomoedas, imóveis de alto padrão e evasão de divisas.
A investigação não nasceu do nada. É desdobramento da Operação Narco Bet, que em outubro do ano passado prendeu o influenciador digital Buzeira e o empresário Rodrigo Morgado. Aquele caso expôs uma arquitetura sofisticada: dinheiro em espécie, transferências bancárias e criptoativos movimentando recursos entre Brasil e exterior. Agora, a apuração avança sobre uma rede que teria movimentado mais de R$ 260 milhões segundo dados oficiais da PF.
Quando o litoral esconde o que Guarulhos produz
O esquema investigado vai além da figura tradicional do “laranja”. A PF trabalha com uma hipótese mais complexa: envio ilegal de recursos ao exterior, utilização de imóveis de luxo para ocultação de patrimônio e movimentações em criptomoedas para dificultar rastreamento. A Justiça determinou não apenas o bloqueio de bens, mas restrições societárias, proibindo movimentação empresarial e transferência de ativos ligados às atividades ilícitas.
Guarulhos aparece nos documentos da operação como um dos pontos de interesse. A cidade, historicamente conhecida pelo aeroporto internacional que serve como porta de entrada para São Paulo, transformou-se também em corredor de saída para valores sem origem lícita. A apreensão de celulares e documentos em endereços ligados a empresários pode abrir novos caminhos — inclusive com desdobramentos envolvendo contratos públicos e parcerias.
Investigação de quase R$ 1 bilhão: o Brasil descobriu que laranjas também crescem em árvores de luxo
O silêncio nos corredores do poder de Guarulhos é ensurdecedor. Entre políticos e empresários, a cautela é palpável. A sensação de “barbas de molho”, aquela expectativa de quem aguarda a próxima batida na porta, permeia os bastidores. A pergunta que circula em tom de anedota macabra é simples: quem será o próximo a aparecer no radar?
A análise do material recolhido agora cruza dados bancários, extratos de criptomoedas e registros imobiliários. O objetivo é claro: esclarecer se os valores têm origem em esquemas de corrupção interna ou se estão conectados ao crime organizado internacional. A distinção, embora técnica, pouco importa para o cidadão comum que vê quase um bilhão de reais se movimentando sob suas narinas.
O que vem depois do bloqueio
A operação expõe uma verdade incômoda. A sofisticação dos esquemas de lavagem de dinheiro no Brasil evoluiu mais rápido que a capacidade de prevenção. Criptoativos, fintechs de fachada, imóveis de luxo em condomínios fechados: o arsenal de ocultação patrimonial cresce em complexidade. A PF mobilizou 60 agentes na última fase, um número que sugere a dimensão do desafio.
Enquanto isso, Guarulhos continua sua rotina de cidade-dormitório. O aeroporto recebe e embarca milhares de pessoas diariamente. Algumas carregam malas. Outras, aparentemente, carregavam segredos. A diferença entre turista e traficante, entre investidor e laranja, às vezes se resume a um detalhe no extrato bancário.
A investigação prossegue sob sigilo na 5ª Vara Federal de Santos. O que já se sabe, porém, é suficiente para confirmar uma suspeita: o dinheiro ilícito aprendeu a usar o sistema formal como escudo. E, por enquanto, as laranjas de luxo continuam maduras nas árvores do litoral.
José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD).
Fontes: CNN Brasil, Gazeta do Povo, InfoMoney, site oficial da Polícia Federal, G1, Folha de S.Paulo.