JOEL KRUEGER VIROU REPUBLICANO, MADALENA VIROU RUMO. E O METROVIÁRIO? VIROU PEDESTRE!

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

O trem parou no sinal vermelho

A política brasileira costuma repetir o mesmo roteiro com elenco diferente. O personagem muda, mas o roteiro permanece. Basta trocar o partido e reescrever a biografia: o militante de ontem vira candidato. O metroviário de ontem vira lobista. O pedestre é o cidadão comum que espera o trem que nunca chega.

Em São Paulo, a Frente Parlamentar em prol do Transporte Metroferroviário funcionava como espaço raro de discussão técnica na Assembleia Legislativa. Criada para acompanhar contratos, debater tarifas e fiscalizar investimentos, reunia engenheiros, sindicalistas e parlamentares com regularidade. Coordenada por João Caramez até 2019, a frente mantinha encontros a cada quinze ou vinte dias. O ambiente era técnico. Os debates, contudo, eram acessíveis. A ferrovia voltava a ocupar o centro do discurso público.

Veio a eleição. Caramez perdeu o mandato. A cadeira do coordenador ficou vazia. Ricardo Madalena, deputado estadual com passagem pela Fepasa nos anos de ouro da ferrovia paulista, assumiu o posto. A escolha parecia lógica. Madalena conhecia os trilhos. Nasceu no interior. Trabalhou na estação. Falaria a língua dos maquinistas e dos usuários.

O que virou Rumo

A lógica, porém, dura pouco quando o interesse particular bate à porta. Em vez de manter o ritmo das reuniões, Madalena reduziu o calendário. Os encontros quinzenais viraram eventos esporádicos. A pauta técnica cedeu a agendas vazias. A FTRAM, antes ativa, caminhou para a extinção. Hoje consta como inativa nos registros da ALESP.

O motivo do esvaziamento veio à tona depois. O deputado teria solicitado vantagens para o filho junto à Rumo Logística, empresa que opera trechos ferroviários em São Paulo. O pedido de emprego transformou o espaço institucional em moeda de troca. O grupo que discutia tarifas e investimentos virou Rumo. A comissão que fiscalizava a concessionária passou a servir de corredor para interesses privados.

O caso não é inédito. Repete a velha fórmula do apadrinhamento disfarçado de meritocracia. O filho do deputado entra pela porta da frente. O cidadão comum continua na plataforma. O trem da mobilidade urbana segue atrasado. O pedestre segue molhado na parada.

O metroviário virou pedestre

A ironia dessa história reside justamente na trajetória do protagonista. Madalena chegou à política com o discurso da experiência ferroviária. Usou a Fepasa como currículo. Usou o interior como origem. Prometeu defender o transporte sobre trilhos. Na prática, entregou o movimento à empresa que deveria fiscalizar.

O eleitor que confia no político operário costuma achar que a vivência gera empatia. O erro está em supor que quem conhece o sistema quer consertá-lo. Quem conhece o sistema quer apenas usufruí-lo. O metroviário que ascende à Assembleia não se torna o defensor dos trilhos. Vira o gestor da própria carreira. O funcionário público vira republicano. O fiscal vira parceiro.

A Fepasa morreu nos anos noventa. Seu espírito ressuscita quando o ex-funcionário descobre que os trilhos do passado servem de escada para o futuro particular. A ferrovia virou palco. O passageiro virou plateia. E o pedestre, como sempre, paga a passagem sem embarcar.

A plataforma vazia

O esvaziamento da FTRAM não é um caso isolado de má gestão. Representa um padrão recorrente nas comissões técnicas do Legislativo brasileiro. Criam-se grupos com discurso nobre. Alocam-se recursos públicos. Convocam-se especialistas. Tudo funciona até alguém descobrir que a instituição pode render frutos… mais particulares.

A solução não está em criar mais frentes parlamentares. Está em exigir transparência sobre seus integrantes, seus encontros e seus resultados. O cidadão precisa saber quem coordena, quanto reúne e o que produz. Em caso contrário, continuaremos assistindo ao mesmo filme. O político troca de lado. O grupo técnico some. O filho do deputado arruma emprego. E o povo fica na parada, olhando para os trilhos vazios, esperando o trem que virou lenda.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente – Frente pela Volta das Ferrovias – e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

Saiba mais sobre o autor

Declaração de fontes: A apuração consultou registros da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e reportagens da Agência Câmara e de veículos especializados. Os dados sobre a Rumo Logística e seus contratos de concessão ferroviária confirmam-se em fontes públicas e em atas de reuniões legislativas disponíveis na internet.

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