Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O Crea-RJ ostenta no Reclame Aqui uma avaliação que desafia a mediocridade. São só 5.3 pontos dentre dez possíveis. O número traduz em 563 reclamações registradas por profissionais que dependem exclusivamente do conselho para exercer sua profissão. Cada nota ruim representa uma história concreta. Cada história envolve engenheiros e agrônomos parados em filas digitais que não andam. Sistemas fora do ar atendem mal. E-mails somem no vácuo administrativo. O conselho que vistoria estruturas de concreto não consegue sustentar o próprio atendimento.
O mínimo que não alcançam
A ironia pesa sobre a instituição. O Crea-RJ exige das construções civis padrões rígidos de segurança. Fiscaliza cada viga. Embarga obras com qualquer mínimo sinal de problemas. Autua profissionais que descumpram alguma norma técnica, justa ou não. Cobra de seus associados excelência inquestionável em cada projeto. Mas quando o cidadão comum precisa de um visto profissional ou uma resposta simples sobre seu cadastro, encontra apenas barreiras invisíveis e silêncio.
A nota 5.3 representa experiências reais de omissão. Profissionais relatam demora excessiva para emissão de documentos que deveriam sair em dias. Tentam contato pelos canais oficiais e não obtêm resposta. Aguardam meses por uma autorização que deveria fluir em semanas. O conselho possui mecanismos formais de ouvidoria. Oferece WhatsApp e atendimento presencial em horários limitados. Promete autoatendimento digital disponível vinte e quatro horas por dia. Na prática, essa promessa desmorona diante da realidade. O sistema trava constantemente. O telefone toca sem resposta no outro lado. O e-mail gera protocolos que não saem do lugar por semanas.
Exigir dos outros, esquecer o próprio
Isso configura um problema grave de gestão pública. O Crea-RJ arrecada anuidades de milhares de profissionais. Mantém estrutura administrativa paga com recursos desses profissionais. Deveria oferecer em troca eficiência mínima. Entrega apenas falha sistêmica. A contradição fica evidente para qualquer observador atento. A instituição passa anos fiscalizando o trabalho alheio. Exige projetos impecáveis. Autua rigorosamente quem erra. Mas tolera o próprio desleixo administrativo. Parece esquecer que reputação se constrói com resultados concretos e não com discursos vazios.
Exigir excelência dos outros é mais fácil do que alcançar o próprio mínimo aceitável. O Crea-RJ demonstra essa verdade amarga diariamente. Enquanto isso, o profissional carioca perde prazos importantes. Perde oportunidades de trabalho. Perde a paciência e a confiança na entidade que deveria representá-lo. A situação exige correção imediata e profunda. O conselho precisa olhar para dentro com o mesmo rigor que usa para olhar para fora. Deve reorganizar processos internos. Capacitar atendentes que não sabem resolver problemas. Modernizar sistemas que travam a cada clique. Agilizar respostas que hoje demoram meses para sair.
Quando a nota é o espelho
A nota 5.3 no Reclame Aqui não é apenas um número ruim em uma escala qualquer. É um sinal de alerta piscando vermelho no painel da instituição. Indica estrutura enferrujada. Indica compromisso falho com quem sustenta a casa com seu dinheiro. Milhares de profissionais pagam por serviços que não recebem. Aguardam em filas que não andam. Tentam falar com uma instituição que parece ter esquecido como se comunica.
A transformação depende de vontade política interna. De investimento sério em tecnologia. De respeito genuíno ao profissional que mantém o conselho vivo. O Crea-RJ precisa decidir imediatamente. Ou assume a postura de quem sabe servir com competência. Ou continua acumulando reclamações e rebaixando ainda mais sua nota já tão comprometida.
Os engenheiros sabem calcular estruturas complexas. Os agrônomos entendem como ninguém a produção que alimenta o país e movimenta a economia. Ambos merecem um conselho que funcione com a mesma precisão que exige deles em suas atividades. A hora de provar que é possível alcançar o próprio mínimo aceitável é agora.
Declaração de fontes: Este artigo utilizou dados públicos disponíveis na plataforma Reclame Aqui e informações institucionais do Crea-RJ.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.