Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Cientista político, Engenheiro, advogado e jornalista
As estruturas que não ruíram
Tiradentes morreu na forca em 21 de abril de 1792. Antes de ter o corpo esquartejado e exposto pelas ruas do Rio de Janeiro, o alferes brasileiro bradou que daria mil vidas pela liberdade da pátria. A coragem de Joaquim José da Silva Xavier opõe-se, como um abismo, à pequenez de Joaquim Silvério dos Reis, o coronel que o denunciou à Coroa portuguesa em troca do perdão de suas dívidas fiscais. Silvério dos Reis inaugurou no Brasil uma tradição funesta: a de brasileiros que vendem a terra por benefício próprio.
O Brasil nasceu sob o domínio de impérios que impuseram sua vontade a ferro e fogo. Portugal nos legou uma burocracia sanguinária, cuja principal ferramenta era a forca. O Império britânico, que substituiu o lusitano no comando econômico a partir de 1808, preferiu a inteligência à truculência, mas manteve a subordinação. Com a Segunda Guerra Mundial, Londres afundou e Washington assumiu o posto de metrópole. Os Estados Unidos se tornaram o império mais violento da história moderna, superando em capacidade destrutiva até mesmo Roma.
A herança da ferida
Herdamos um emaranhado institucional onde governo e Estado se confundem. Não fizemos uma revolução de libertação nacional. Não houve ruptura limpa com o passado colonial. Por isso, as estruturas arcaicas que deveriam ter desaparecido no século XIX persistem nos porões do poder brasileiro. Elas se manifestam na burocracia opressora, no cartorialismo hereditário, na violência policial e na dependência econômica que nos transforma em mero fornecedor de matérias-primas para as grandes potências.
A ditadura militar de 1964 a 1985 representou o auge dessa herança maldita. Quatrocentas e trinta e quatro pessoas foram mortas ou desapareceram nas mãos de torturadores dos DOI CODIs. O PCdoB perdeu setenta e nove militantes, a ALN perdeu sessenta e o PCB perdeu quarenta e um. Cerca de vinte mil brasileiros passaram pelas câmaras de tortura. Os estudantes, trinta e dois vírgula três por cento das vítimas, pagaram com sangue sua disposição de lutar.
Carlos Marighella, Vladimir Herzog e centenas de nomes menos conhecidos carregaram nas costas o peso de uma resistência que a história oficial tentou sepultar.
A traição persiste
Agora, em 2026, a traição nacional volta a se alinhar com o império estrangeiro. Eduardo, Flávio Bolsonaro e Paulo Figueiredo articularam na Casa Branca sanções contra o Brasil, pedindo ao governo Trump punições a ministros do STF com base na Lei Magnitsky e o reconhecimento de organizações criminosas brasileiras como se fossem terroristas. Figueiredo declarou à Folha de S.Paulo que faz esse pedido em toda reunião. Trata-se de brasileiros que solicitam abertamente a intervenção de uma potência estrangeira contra instituições da própria nação. Os mesmos que gritam patriotismo nos parapeitos do Planalto vendem a soberania nos corredores de Washington.
Eles são herdeiros diretos de Joaquim Silvério dos Reis. A mesma lógica move ambos: o interesse particular sobre o bem comum, a ambição desmedida, a ausência de escrúpulos. Diferem apenas no cenário. Silvério dos Reis negociou com o Visconde de Barbacena em Cachoeira do Campo. Eduardo Bolsonaro e Figueiredo negociam com assessores presidenciais americanos. O ato, porém, é o mesmo: delatar o país em busca de proteção e recompensa.
O Brasil que resiste
Mas há outro Brasil, aquele que não se curva. O Brasil de Frei Caneca, degolado em 1825. O Brasil de Luís Carlos Prestes, que sobreviveu à ditadura de Vargas e à de 1964. O Brasil das mães e pais que, desde 1964, buscam os restos dos filhos desaparecidos. O Brasil de Dilma Rousseff, torturada no DOI-CODI de São Paulo em janeiro de 1970 e eleita presidenta quarenta anos depois. Este Brasil não aceita que velhas viúvas de luto, vestidas de preto, imponham o atraso como virtude.
A sociedade brasileira nunca foi conservadora. Somos o país do samba, do carnaval e do futebol. A ideia de que existe aqui uma base conservadora sólida faz parte da propaganda fascista que tenta fazer a história andar para trás. Mas o tempo não anda em marcha à ré. As eleições de outubro serão o campo de batalha onde essa disputa se definirá.
Um povo de fibra
Não somos herdeiros da traição. Somos herdeiros daqueles que enfrentaram a forca com o peito aberto. Tiradentes não recuou. Frei Caneca não recuou. Os guerrilheiros do Araguaia, cercados por três mil e duzentos soldados, não recuaram. Agora cabe a nós mantermos viva essa corrente. As estruturas arcaicas que travam o futuro do país precisam ser combatidas nas urnas e na rua. A traição nacional precisa ser derrotada nas eleições gerais de outubro. O fascismo não passará.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
As fontes deste artigo incluem reportagens da Folha de S.Paulo de maio de 2026 sobre as articulações de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo em Washington, dados da Comissão Nacional da Verdade sobre mortos e desaparecidos da ditadura militar brasileira, levantamento do Observatório Nacional dos Direitos Humanos divulgado em março de 2025, registros históricos da Inconfidência Mineira e biografias de Tiradentes e Joaquim Silvério dos Reis disponíveis em acervos nacionais.