Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Vitrine na avenida mais cara
Em setembro de 2025, o sistema Confea/Crea inaugurou em São Paulo o chamado Espaço Confea-X, um coworking instalado na Avenida Faria Lima, endereço simbólico do mercado financeiro e um dos metros quadrados mais valorizados do país.
A iniciativa foi apresentada como ambiente de integração profissional, inovação e circulação nacional de engenheiros, com estações de trabalho gratuitas e uso voltado a profissionais registrados no sistema. A narrativa institucional destacou inclusão, modernização e conexão entre regiões.
A justificativa técnica veio acompanhada da justificativa simbólica: um espaço “estratégico”, posicionado no coração econômico da cidade. Estratégico para quem, exatamente, não ficou totalmente esclarecido, mas o endereço, esse sim, fala por si.
Enquanto se celebrava a criação de um ambiente “inclusivo” em uma das regiões mais exclusivas do país, a engenharia real seguia em outro lugar: nos canteiros precarizados, na fiscalização insuficiente e na disputa silenciosa por espaço profissional em um mercado cada vez mais pressionado. A contradição não estava no projeto. Estava no contexto.
A soberania que ficou em segundo plano
O debate estrutural da engenharia brasileira avança em outra direção — menos visível e menos celebrada. A Lei 5.194/1966 atribui ao sistema Confea/Crea a responsabilidade pela fiscalização do exercício profissional e pela proteção do interesse técnico nacional. Na prática, isso inclui a defesa da soberania da engenharia brasileira diante de pressões externas e flexibilizações regulatórias.
Mas o eixo discursivo recente desloca essa função para um campo mais permissivo, em que a presença de profissionais estrangeiros passa a ser tratada sob lógica de integração ampla, com menor ênfase na proteção do mercado interno.
O resultado é um descompasso: enquanto a estrutura institucional investe em hubs e espaços de convivência, a fronteira profissional se torna mais difusa.
O fascínio recorrente das vitrines institucionais
A engenharia não está sozinha nesse fenômeno. Outros conselhos profissionais e instituições de regulação já recorreram, em diferentes momentos, à lógica da vitrine como forma de afirmar relevância institucional: sedes modernas, centros de inovação, auditórios de alto padrão e espaços de networking frequentemente apresentados como símbolos de modernização.
Em muitos casos, a crítica se repete: quando a pressão por resultados concretos cresce, a resposta simbólica tende a ocupar o espaço da resposta estrutural.
Não se trata de negar a existência desses ambientes, mas de observar a recorrência do padrão: a instituição se projeta no espaço mais visível enquanto suas funções menos fotogênicas — fiscalização, regulação e proteção técnica — disputam prioridade interna. A história institucional brasileira é repleta de exemplos em que a forma antecedeu o conteúdo.
Engenharia nacional sem holofote
Enquanto isso, os temas centrais da engenharia permanecem praticamente inalterados na base:
- fiscalização do exercício ilegal da profissão
- valorização do piso e das condições de trabalho
- proteção do título profissional
- atuação em obras públicas e privadas com segurança técnica
- defesa da engenharia nacional diante da precarização crescente
São temas que raramente inauguram espaços, cortam fitas ou produzem imagens institucionais de impacto. A assimetria é evidente: o que é estrutural não viraliza; o que é simbólico inaugura.
A festa e o rombo
O problema não está na inovação institucional em si, mas no deslocamento de prioridades. Enquanto a engenharia brasileira enfrenta pressões crescentes, perda de protagonismo técnico em determinados segmentos e desafios regulatórios complexos, parte relevante da energia institucional se concentra em espaços de visibilidade urbana altamente concentrados.
O risco não é estético. É funcional.
Um conselho profissional existe para fiscalizar, proteger e organizar o exercício técnico. Quando parte relevante de sua narrativa passa a depender de vitrines simbólicas, a função essencial corre o risco de perder centralidade.
A engenharia que sustenta o país não cabe em coworking.
Ela está no concreto, na ponte, na linha férrea, na barragem, no cálculo que não aparece na foto — mas que impede o colapso.
Paralelo final
Se há algo que a história recente ensina, é que instituições podem manter a aparência de modernização enquanto acumulam fragilidades internas.
A vitrine ilumina. Mas não sustenta.
E quando a engenharia institucional passa a depender mais do que se mostra do que do que se faz, o problema deixa de ser de comunicação — e passa a ser de direção.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
Fontes: Comunicados institucionais do Confea e do Crea-SP sobre o Espaço Confea-X (setembro de 2025), informações públicas do Sistema Confea/Crea, Lei 5.194/1966 e registros sobre a rede de coworkings do sistema profissional.