ENCHENTES EM GUARULHOS: QUANDO A CHUVA EXPÕE OS LIMITES DO PLANEJAMENTO URBANO

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*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, Advogado, Jornalista e Escritor

Vistorias técnicas indicam que os alagamentos não têm causa única e reforçam a necessidade de análise estrutural da drenagem urbana, do crescimento da cidade e das intervenções em andamento.

Quando uma avenida como a Monteiro Lobato, em plena região central de Guarulhos, fica completamene submersa a ponto de deixar pessoas ilhadas, é preciso ter serenidade técnica para analisar o ocorrido.

Chuva intensa é fenômeno natural.
Alagamentos recorrentes, porém, costumam indicar fragilidades na infraestrutura urbana.

Foto de Divulgação: TV GLOBO

A engenharia sabe que problemas de drenagem raramente possuem causa única. Quase sempre são resultado de um conjunto de fatores acumulados ao longo do tempo.

Entre os mais conhecidos estão:

• expansão urbana acelerada
• verticalização sem readequação proporcional da infraestrutura
• redução de áreas permeáveis
• ocupação irregular de várzeas e cursos d’água
• assoreamento de rios e galerias
• sistemas de drenagem dimensionados para uma cidade menor
• manutenção insuficiente das estruturas existentes

As vistorias realizadas por equipes técnicas do CREA-SP, com apoio da ASSEAG, da Prefeitura e de engenheiros do consórcio responsável por obras da Sabesp, apontaram exatamente esse quadro de complexidade.

Foram identificados pontos onde intervenções em andamento coincidem com áreas afetadas pelas chuvas intensas. Mas também foram constatados problemas em locais onde não há obras recentes e que já apresentam histórico antigo de falhas na drenagem urbana.

Isso reforça um ponto elementar: simplificações raramente ajudam a resolver problemas estruturais.

Obras de infraestrutura precisam, sim, ser analisadas tecnicamente, sobretudo quando realizadas em áreas sensíveis do ponto de vista hidráulico. Auditoria técnica é parte essencial de qualquer processo responsável de gestão urbana.

Mas também é preciso reconhecer que muitas cidades brasileiras — Guarulhos entre elas — cresceram ao longo de décadas sem o devido planejamento hidrológico urbano.

A equação é conhecida pela engenharia: quanto mais impermeabilizado o solo, menor a infiltração da água da chuva e maior o volume direcionado rapidamente para sistemas de drenagem que, muitas vezes, foram projetados para uma realidade urbana muito menor do que a atual.

Por isso, o caminho responsável agora não é buscar explicações apressadas, mas aprofundar o diagnóstico técnico.

Isso passa por:

• análise completa da rede de drenagem da região
• avaliação do impacto hidráulico das obras em andamento
• verificação da capacidade das galerias existentes
• estudo da evolução da ocupação do solo ao longo dos anos
• identificação de aterros clandestinos ou intervenções irregulares
• revisão do planejamento de drenagem urbana da cidade

Sem esse conjunto de informações, qualquer narrativa corre o risco de transformar um problema estrutural em disputa política.

A engenharia não trabalha com versões.
Trabalha com dados, projetos e responsabilidade técnica.

Se Guarulhos pretende enfrentar de forma consistente o desafio dos alagamentos, será necessário avançar em planejamento urbano, transparência nas obras públicas e respeito aos princípios básicos da engenharia de drenagem.

Caso contrário, a cada nova temporada de chuvas estaremos discutindo as mesmas enchentes — e ouvindo as mesmas explicações improvisadas.

E a população continuará pagando o preço da falta de planejamento.

Declaração de fontes: Este artigo utiliza informações de reportagem publicada pelo portal G7News, com base em vistorias técnicas realizadas pelo CREA-SP, com apoio da ASSEAG, técnicos da Prefeitura de Guarulhos e engenheiros do consórcio responsável por obras da Sabesp.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.

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