Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político
O abismo entre números e sentimento
O Brasil encerrou 2025 com a menor taxa de desemprego da história. O PIB avançou mais de 2% pelo terceiro ano consecutivo. A renda média do trabalhador bateu recorde. Milhões deixaram a extrema pobreza. Os indicadores oficiais pintam um quadro que deveria render aplausos.
A realidade, porém, exige outro veredicto. Pesquisa Ipsos-Ipec de março mostrou 51% de desaprovação ao governo Lula contra 43% de aprovação. Levantamento do Ideia em maio apontou 53% de reprovação. A economia cresce de fato. A popularidade estagna de igual modo. O eleitor brasileiro não traduziu o desempenho macroeconômico em confiança política.
Quando a economia cresce sem levar o voto
A explicação não cabe num único diagnóstico. A inflação dos alimentos deixou cicatrizes profundas. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, a picanha acumulou alta de 12%. O contrafilé subiu 26%. O acém, quase 32%. A promessa de campanha de 2022, quando Lula garantiu devolver o churrasquinho de domingo, esbarrou no preço da carne.
Economistas norte-americanas como Stephanie Stantcheva e Claudia Sahm já haviam detectado o fenômeno. Eleitores respondem ao nível de preços, não à variação. A inflação cedeu de 12,1% em abril de 2022 para 4,1% em março de 2026. Os preços, contudo, não voltaram ao patamar de 2019. A memória do que custava antes permanece vívida. O brasileiro paga valores, não índices.
A memória do milagrinho
Os dois primeiros mandatos de Lula criaram um padrão cruel de comparação. Entre 2003 e 2010, a renda da metade mais pobre cresceu 5% ao ano em termos reais. A desigualdade encolheu pelo estreitamento entre a base e o meio da pirâmide. Milhões de brasileiros voaram pela primeira vez. Abriram conta bancária. Compraram carro.
Hoje a recuperação parte de um chão arrasado. A metade mais pobre ganhava R$ 14.230 por ano em 2014. Em 2022, ao fim do governo Bolsonaro, recebia R$ 10.766. Mesmo com o avanço dos últimos dois anos, o rendimento ainda não supera 80% do que era antes da década perdida. O brasileiro sente alívio, não prosperidade.
Endividamento e a nova fome
As redes sociais globalizaram a janela de aspiração. O feed exibe viagens, roupas de grife e restaurantes caros. A Shein declara 50 milhões de usuários no Brasil, 88% deles das classes C, D e E. O vizinho agora mora numa tela de celular e consome o que o salário não alcança.
O resultado é endividamento recorde. Quase 80% das famílias brasileiras tinham dívidas em 2025. Entre quem ganha até três salários-mínimos, o índice chegou a 80,5%. Após pagar compromissos, sobra em média menos de mil reais para alimentação, transporte e saúde. A cesta básica consome mais da metade do salário-mínimo. O crédito caro e as apostas online corroem o restante.
O diploma que não alimenta
A massificação do ensino superior produziu uma geração frustrada. O Prouni e o Fies levaram milhões à universidade. A promessa era de ascensão social garantida. Em 2024, mais de três quartos das matrículas eram em instituições privadas. Mais da metade em cursos a distância. A qualidade despencou.
O jovem formado descobriu que o diploma não abre as portas que seus pais imaginaram. Ele entrega comida por aplicativo. Trabalha sem carteira. Está mais escolarizado que as gerações anteriores, mas não mais próspero. Essa frustração vira combustível para o ressentimento político.
Por que a popularidade estagna no auge do PIB
O crescimento econômico continua sendo condição indispensável. Sem PIB robusto, não há emprego nem renda. Mas números sozinhos não geram lealdade. O governo precisa traduzir macroeconomia em experiência cotidiana. A reforma tributária e a redução da jornada ajudam. Ainda faltam, porém, respostas imediatas para o endividamento e para o preço da comida.
Economia cresce, popularidade estagna: o paradoxo brasileiro de 2026. O lulismo enfrenta o desafio de transformar sua fase madura em novo ciclo de expectativas. Ou consegue fazer o brasileiro sentir a melhora na pele, ou continuará governando com os olhos do eleitor fixos no passado.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador Licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
As fontes deste artigo incluem pesquisas Ipsos-Ipec, Ideia, Datafolha e Genial/Quaest, além de dados do IBGE, da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, da CNC, do World Inequality Database e de relatórios acadêmicos sobre comportamento de consumo.